Governo anunciou o fim da "taxa das blusinhas". Foto: Adobe Stock
O governo federal zerou a chamada “taxa das blusinhas”, um imposto federal de 20% incidente sobre mercadorias importadas de até US$ 50, vigente desde agosto de 2024. A Medida Provisória (MP) com a decisão foi assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na noite de terça-feira (12). Para analistas do mercado, a medida deve impactar varejistas voltadas ao público de renda média – Lojas Renner (LREN3), C&A (CEAB3) e Riachuelo (RIAA3) –, mas as empresas estão mais preparadas para enfrentar o ambiente competitivo.
Na avaliação de Pedro Pinto, do Bradesco BBI, e Flávia Meireles, da Ágora Investimentos, embora a regra possa causa volatilidade no desempenho das ações, o impacto para as companhias locais é relativamente administrável. “Estimamos, em média, um efeito negativo de cerca de 1% na receita das varejistas de vestuário”, afirmam.
Os especialistas pontuam que as empresas brasileiras estão operacionalmente mais eficientes do que em 2024 e que plataformas como a Shein perderam fôlego ao longo dos últimos dois anos.
No caso do Mercado Livre (MELI34), a operação de cross-border trade – operação de vendas em que o produto é comprado em um site ou plataforma no Brasil, mas é importado diretamente do exterior – ainda se encontra em estágio inicial no País, com participação limitada no Volume Bruto de Mercadoria (GMV). “Entendemos que a medida pode ser utilizada como um catalisador para acelerar ou reforçar uma iniciativa estratégica na qual a companhia já vem investindo esforços”, acrescentam.
Impacto já está precificado
O Itaú BBA estima um potencial impacto negativo de cerca de 2% nas vendas e de 4%,6% e 6% no lucro líquido de Lojas Renner, C&A e Riachuelo, respectivamente. No entanto, com a cotação atual dos papéis, o banco entende que afeito estimado já parece estar precificado.
Atualmente, com a Renner negociando a 8,3 vezes o preço sobre lucro (P/L) estimado para 2026 e 8,0 vezes para 2027, a C&A a 7,8 vezes em 2026 e 7,0 vezes em 2027, e a Riachuelo a 8,6 vezes em 2026 e 7,8 vezes em 2027, o BBA vê uma relação de risco-retorno assimétrica para cima, especialmente para a C&A, que negocia no menor múltiplo e apresenta o maior crescimento de lucro entre as três companhias.
BTG: empresas estão mais preparadas para enfrentar ambiente competitivo
Na visão do BTG Pactual, as empresas domésticas estão estruturalmente mais bem posicionados hoje em comparação com 2023 e 2024, antes da implementação da “taxa das blusinhas”. O banco nota que as companhias realizaram investimentos relevantes voltados para melhorar fatores como a assertividade de produtos e a gestão de estoques.
Por outro lado, o posicionamento das plataformas estrangeiras também evoluiu, refletindo maior penetração de vendedores locais, esforços mais intensos de localização e investimentos contínuos em infraestrutura logística brasileira.
O BTG relembra que, durante o pico da pressão competitiva em 2023 e 2024, o crescimento de receita das empresas listadas do setor desacelerou para níveis baixos de um dígito, enquanto a intensidade promocional aumentou significativamente.
“Embora continuemos vendo a retirada dos impostos de importação como um desenvolvimento negativo para o varejo doméstico, o setor hoje parece operacionalmente mais preparado para enfrentar um ambiente competitivo mais duro”, destaca a equipe do banco.
Na visão do BTG, com o fim da“taxa das blusinhas”, o principal debate passa a ser se os players locais conseguirão sustentar as recentes melhorias em disciplina de margem bruta e qualidade dos estoques, enquanto enfrentam nova pressão sobre preços e participação de mercado em um ambiente competitivo mais agressivo.
Publicidade
Na Bolsa brasileira, nesta quarta-feira (13), as ações das varejistas de moda recuaram. C&A (CEAB3) teve a maior perda, de 4,83%, enquanto Riachuelo e Lojas Renner caíram 4,64% e 4,02%, respectivamente.