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Interpretando dados que abalam o mercado

Rafael Paschoarelli é professor de finanças na FEA/USP e INSPER e diretor da ComDinheiro.

Escreve mensalmente, às quartas-feiras

Rafael Paschoarelli

As possíveis origens dos R$ 98 bilhões de duas famílias de São Paulo

Em história digna do seriado Billions, veja os cenários para o caminho do dinheiro revelado pelo jornalista Lauro Jardim

Contador de dinheiro (Foto: Evanto Elements)
  • Segundo o jornalista Lauro Jardim, de O Globo, existem R$ 50 bilhões remetidos para o exterior e outros R$ 48 bilhões repatriados. Estamos falando de R$ 98 bilhões pertencentes a apenas duas famílias de São Paulo
  • A quantidade de milionários e bilionários bem como seus investimentos com liquidez podem ser facilmente rastreados a partir de dados encontrados em fontes públicas

Neste último domingo (18), o jornalista Lauro Jardim, de O Globo, divulgou que uma família de São Paulo teria enviado ao exterior a “módica” quantia de R$ 50 bilhões, ouriçando os curiosos no assunto na tentativa de descobrir qual seria esta família.

Posteriormente, novas informações indicaram que o sentido do dinheiro era justamente o contrário: R$ 48 bilhões teriam sido repatriados e a discussão passou a ser se o ITCMD (imposto de transmissão causa mortis e doação) era ou não devido.

Numa reviravolta digna do seriado Billions, Lauro Jardim argumentou, no dia em 20 de outubro, que são histórias diferentes, de famílias diferentes. Isto é, segundo o jornalista, existem R$ 50 bilhões remetidos para o exterior e outros R$ 48 bilhões repatriados. Estamos falando de R$ 98 bilhões pertencentes a apenas duas famílias de São Paulo.

Evidentemente, são muitos bilhões!

A quantidade de milionários e bilionários bem como seus investimentos com liquidez podem ser facilmente rastreados a partir de dados encontrados em fontes públicas.

Vejamos:

Atualmente, existem quase 3.500 fundos em que o cotista é uma (apenas uma) pessoa física. São os chamados fundos exclusivos, fundos feitos sob medida para o camarada com dinheiro.

Destes 3.500 fundos exclusivos em que o cotista é pessoa física, tem-se que:

  • 3400 tem mais de R$ 1 milhão de patrimônio
  • 2900 tem mais de R$ 10 milhões de patrimônio
  • 388 tem mais de R$ 100 milhões de patrimônio
  • 22 tem mais de R$ 1 bilhão de patrimônio
  • O maior fundo exclusivo de pessoa física tem o patrimônio de R$ 8,4 bilhões

Fonte: www.comdinheiro.com.br

A soma do Patrimônio desses 3.500 fundos em 16/10/2020 montava R$ 240 bilhões. Há um ano, R$ 206 bilhões.

No agregado, a crise que assolou a Bolsa este ano já foi superada por estes fundos: o patrimônio deles hoje é R$ 15 bilhões maior que o valor em 29/02/20, momentos antes da crise eclodir.

Mais ainda, sabemos que muitas pessoas físicas usam como veículo de investimento holdings patrimoniais. Isto é, todos os números acima são estimativas conservadoras do número de endinheirados com investimentos via fundos.

Note que todos estes números consideram apenas investimentos em fundos regulados pela Instrução CVM 555 que versa sobre os fundos multimercado, ações, cambiais e de renda fixa. Existem ainda centenas de FIPs (Fundos de Investimento em Participações) e FIIs (Fundos Imobiliários) em que o cotista é uma pessoa física.

Toda esta transparência encontrada no Brasil permite fazer estudos e conclusões muito interessantes.

Por exemplo, logo que foi noticiado o envio de R$ 50 bilhões para o exterior, eu realizei busca nas captações e resgates de todos os fundos brasileiros no último mês.

Ao somar os resgates líquidos de todos os fundos brasileiros, nem de longe chegaríamos no valor de R$ 50 bilhões de resgate líquido num intervalo de um mês. O que dá para concluir daí é que a probabilidade desses R$ 50 bilhões terem sido sacados de fundos e remetidos para o exterior é baixa.

Também investiguei movimentos de resgate via venda de ações. Ocorre que na B3 existem menos de 20 empresas em que o valor de mercado supera R$ 50 bilhões. Qualquer movimento de venda de ações para levantar R$ 50 bilhões receberia muita publicidade.

Outa hipótese: e se a felizarda família dos R$ 50 bilhões tivesse participações menores em várias empresas. Mais uma vez, a hipótese é de baixa probabilidade pois qualquer participação acima de 5% em empresa de capital aberto deve ser publicada no Formulário de Referência na CVM.

Ou seja, a venda de participação também passaria por reguladores e as informações seriam de acesso público. Logo, a chance desses R$ 50 bi ou boa parte dele terem sido levantados no mercado de ações é pequena.

Enfim, supondo que estes R$ 50 bilhões realmente tenham sido enviados para o exterior, vejo como hipótese mais plausível que sua origem tenha sido fruto de saque de produto de emissão bancária, CDB ou Letra Financeira (LFs) ou até mesmo a poupança caso os recursos tenham como origem a liberação de depósitos judiciais.

O certo é que dificilmente saberemos de qual família o jornalista se refere e de qual investimento os recursos foram sacados.

Enquanto isso, o mercado segue “impactado” pela notícia que apenas duas famílias concentram, no mínimo, R$ 98 bilhões em liquidez.

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