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OPINIÃO. O investidor quer lucrar como rico, mas perder como pobre

Investidor busca ganhos elevados, mas rejeita a volatilidade e o risco que acompanham retornos acima da média, repetindo erros que minam a própria performance

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Investidor brasileiro quer ganhar dinheiro rápido sem assumir risco necessário (Foto: Adobe Stock)
Investidor brasileiro quer ganhar dinheiro rápido sem assumir risco necessário (Foto: Adobe Stock)

O investidor brasileiro não quer retorno CDI. Nunca quis. Quer ganhar dinheiro rápido, acima da curva, com discurso de independência financeira e multiplicação de capital. Ninguém entra no mercado para “ir bem”. Entra para ganhar muito e, de preferência, rápido. É a ganância, desde que o mundo é mundo. O problema é que esse mesmo investidor não aceita o custo do risco, isto é, não quer perder nada, não quer sentir dor, não quer ver o número oscilar e não quer ser contrariado pelo mercado.

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Investir hoje significa aceitar um jogo que envolve risco real, volatilidade, ciclos ruins e períodos longos de desconforto. Patrimônio grande não nasce de trajetórias suaves. Ele se constrói atravessando quedas, suportando meses ou anos de performance ruim e mantendo a estratégia quando a narrativa vira contra. Ele não ganha porque escolhe melhor o ativo. Ganha porque aguenta o processo inteiro.

Porém, quando olhamos a realidade, o investidor de hoje tem a mentalidade de quem não tolera perda alguma. É uma questão meramente psicológica. Ele reage a qualquer variação negativa e confunde volatilidade com erro. É o investidor que entra no mercado falando em longo prazo e sai correndo no primeiro trimestre ruim. Que vende na mínima, muda de estratégia, troca de produto e termina sempre no mesmo lugar, frustrado e desconfiado.

O mercado está cheio de exemplos recentes para quem ainda finge surpresa. COEs, Certificados de Operações Estruturadas vendidos com discurso de sofisticação e falsa sensação de proteção, registraram quedas de até 93%, com resgates de apenas 6,88% do valor original. O produto não falhou. O investidor falhou ao comprar risco achando que tinha um seguro emocional embutido.

Nem a renda fixa escapou do choque de realidade. Títulos considerados seguros perderam até 37% da rentabilidade esperada com mudanças na trajetória da Selic. A renda fixa pode cair mais de 20% por causa da marcação a mercado. E isso não é erro nem falha do sistema. É apenas o preço real do investimento aparecendo quando os juros sobem. É o funcionamento normal do mercado. Só surpreende quem nunca entendeu onde estava pisando.

O investidor quer ganhar dinheiro rápido, mas não tem calma para esperar o tempo do investimento. Quer retorno agressivo com comportamento de poupança. Quer participar da alta e terceirizar a responsabilidade da queda. Quando ganha, foi mérito. Quando perde, foi golpe, produto ruim, assessor incompetente ou sistema injusto.

Essa postura explica por que tanta gente compra no topo, vende no fundo e passa anos girando de estratégia sem sair do lugar. Não é falta de informação. É incapacidade de lidar com perda. É querer performance de investidor profissional com estômago de iniciante. O mercado não é cruel. Ele é indiferente. Não se adapta ao humor de quem investe. Não respeita expectativa emocional. Quem não suporta ver o patrimônio oscilar não deveria buscar retorno acima da média. Porque retorno alto cobra pedágio em forma de volatilidade, tempo e desconforto psicológico.

Se o investidor não é resiliente, investe e resgata nas horas erradas, e o resultado será sempre o mesmo: frustração, sensação de injustiça e a falsa conclusão de que “o mercado não funciona”. Funciona, sim. O que não funciona é querer prêmio sem risco, retorno sem perda e riqueza sem atravessar o caminho que ela exige.

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