O brasileiro precisa ter coragem de fazer uma pergunta incômoda: e se o
sonho da casa própria estiver sendo vendido cedo demais para uma geração que ainda não sabe onde e como quer viver? Eu entendo o peso emocional desse sonho, porque ele foi construído durante décadas como sinônimo de vitória, segurança e maturidade. Mas o
Brasil mudou.
Entre 2016 e 2024, a proporção de domicílios alugados subiu de 18,4% para 23%, enquanto a parcela de casas próprias já quitadas caiu de 66,8% para 61,6%, segundo dados do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados pela Agência Brasil. Isso mostra que a relação do brasileiro com moradia já está mudando, mesmo que a nossa cultura continue tratando aluguel como fracasso.
Para mim, o erro não está em comprar imóvel, mas em transformar essa compra na primeira grande meta da vida adulta, quando a pessoa ainda está definindo carreira, cidade, renda, relacionamento e estrutura familiar. Isso não quer dizer que você não precise guardar dinheiro desde o primeiro trabalho e todos os meses. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.
Aos 20 e poucos anos, entrar em um financiamento de 30 anos pode parecer uma decisão responsável, mas muitas vezes é só uma prisão com aparência de conquista. A casa não é verdadeiramente sua no primeiro dia, ela é uma dívida longa, com juros, condomínio, manutenção, Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e pouca liquidez. E isso acontece num país onde o
orçamento das famílias já está pressionado.
A CNC projetou que o endividamento das famílias poderia chegar a 80,4% em junho de 2026, enquanto a inadimplência estava em 29,3% em janeiro, com juros ainda altos dificultando a amortização das dívidas. O
Instituto Brasileiro de Economia (IBRE), da
Fundação Getúlio Vargas (FGV), também mostrou que o endividamento das famílias chegou a 49,7% da renda disponível bruta no fim de 2025, e que o comprometimento da renda avançou para 29,3%. Nesse cenário, comprar um imóvel cedo demais não é necessariamente construir patrimônio, pode ser apenas colocar a vida inteira dentro de uma dívida.
O problema é que muita gente compra imóvel para uma vida que ainda nem sabe se vai viver. Compra 2 quartos imaginando filhos que talvez não venham, escolhe uma metragem para uma família que pode mudar, fixa endereço em uma cidade onde talvez não fique e assume uma dívida que pode dificultar uma mudança de emprego, um casamento, uma separação, uma sociedade ou uma oportunidade fora do País.
Os próprios dados do IBGE mostram como a vida familiar está menos previsível. Em 2024, foram registrados 948.925 casamentos civis, ainda abaixo do patamar pré-pandemia, e para cada 100 casamentos entre pessoas de sexos diferentes, ocorreram cerca de 45,7 divórcios. O tempo médio entre casamento e divórcio ficou em 13,8 anos, menor do que os cerca de 16 anos observados em 2010. Como alguém pode assumir uma dívida de três décadas como se a vida fosse linear, quando os dados mostram justamente o contrário?
Por isso, eu defendo que somente
pessoas financeiramente estabilizadas deveriam realizar o sonho da casa própria. E estabilidade, para mim, não é apenas ter dinheiro para dar entrada em um imóvel. É já ter construído uma carreira, um currículo, uma reputação, uma autoridade mínima no mercado ou, no caso dos empreendedores, uma empresa com receita mais previsível, clientes recorrentes e menor risco de falência.
Em geral, isso costuma acontecer depois dos 30 anos, quando a pessoa já entende melhor o que quer da vida, onde pretende morar, qual padrão familiar deseja construir e qual nível de dívida consegue assumir sem comprometer sua liberdade.
Antes disso, o primeiro sonho não deveria ser comprar parede, deveria ser
construir reserva, renda, mobilidade e capacidade de escolha. A casa própria pode ser uma excelente conquista, mas deveria ser consequência de uma vida mais definida, não uma tentativa de fabricar estabilidade à força. Porque uma casa pode dar abrigo, mas só
liquidez, renda e escolhas dão liberdade.