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Odontoprev (ODPV3) é “vaca leiteira” ou ação da moda? Os números falam por si

Empresa distribui mais de 90% do seu lucro aos investidores e desde seu IPO já devolveu R$ 4 bilhões aos acionistas

Por Katherine Rivas

17/06/2025 | 13:08 Atualização: 17/06/2025 | 14:01

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José Roberto Pacheco, diretor Financeiro e de Relações com Investidores da Odontoprev.  Foto: Divulgação
José Roberto Pacheco, diretor Financeiro e de Relações com Investidores da Odontoprev. Foto: Divulgação

A Odontoprev (ODPV3) divide opiniões. Alguns a enxergam como “ação da moda”, puxada por fundos. Outros, como papel sólido e promissor em dividendos, mas fora do radar. Há ainda quem compare à Weg: ótima, porém cara e com dividend yield (retorno em dividendos) comprimido. Nesta coluna, trago a trajetória de uma seguradora pouco falada, listada desde 2006 e que há cinco anos mantém payout (parcela do lucro destinada a proventos) acima de 90%.

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A empresa lidera um nicho diferente: planos odontológicos. São 9 milhões de beneficiários e 27 mil dentistas credenciados, 25,71% dos 35 milhões de brasileiros com plano dental. Está em 2.500 cidades com mais de 80 mil habitantes e atua em todos os estados. Distribui planos por bancassurance (Bradesco, Banco do Brasil via BB Seguridade), corretores, venda direta, lojas, internet e organizações médicas.

Como já é tradição, a coluna Dividendo à Vista buscou a fonte direta. Entrevistei José Roberto Pacheco, diretor Financeiro (CFO) e de Relações com Investidores da Odontoprev. A seguir, os principais destaques e as minhas impressões.

Investimentos

A Odontoprev quer crescer de forma orgânica, ampliando a venda de planos odontológicos e os canais de distribuição, com foco nas pequenas e médias empresas (PME). Segundo o CFO, essa frente ganhou tração nos últimos cinco anos e tem fôlego para mais de uma década. O desafio é a fragilidade financeira do público PME, o que eleva o risco de inadimplência, mas justifica preços maiores, mesmo com custos operacionais estáveis.

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Para reduzir riscos, a empresa aposta em grandes bancos, como Bradesco e Banco do Brasil. No Bradesco Dental, são 4,5 milhões de clientes em potencial, sendo 1,5 milhão pequenas empresas. No Brasil Dental, são 500 mil. “Se a nossa participação de mercado total é de quase 25%, nos planos PME é de 80%”, diz Pacheco. Dos 9 milhões de beneficiários, quase 3 milhões são de planos PME e individuais.

O potencial de expansão é grande: só 17% da população tem plano odontológico. Nos EUA, essa taxa é de 80%. Enquanto 52 milhões têm plano de saúde no Brasil, só 35 milhões têm plano dental, apesar de ser mais barato e resiliente. Um analista me disse que mesmo em tempos difíceis, é raro ver empresas ou pessoas cancelarem esse benefício.

E investimentos inorgânicos?

Com dívida zero e caixa robusto, a Odontoprev está pronta para investir ou adquirir empresas, mas ainda não encontrou ativos com retorno compatível com seus níveis. Nos últimos 12 meses, o ROE (Retorno Sobre Patrimônio Líquido) foi de 41,2% e a margem líquida superou 20%. “Não basta olhar a média de mercado porque certamente a Odontoprev iria destruir seu valor. Gostamos de olhar nossos próprios níveis de retorno”, diz o CFO.

A prioridade segue sendo o crescimento orgânico, mas a companhia segue atenta a oportunidades na cadeia de valor, especialmente em empresas de tecnologia que reforcem digitalização e canais de distribuição. Parcerias comerciais também estão no radar.

Para o investidor de renda passiva, a ausência de aquisições é positiva: sem dívidas ou grandes investimentos previstos, o caixa se volta aos dividendos. “Quando a gente não identifica oportunidades de retorno significativas, fazemos a distribuição de dividendos”, reforça Pacheco. Se surgir algo relevante, a ideia é usar recursos próprios, sem recorrer a dívidas.

Dividendos

A política da Odontoprev prevê pagar no mínimo 50% do lucro líquido em proventos, mas o payout real supera 90%. “Nos últimos 10 anos, a média do nosso payout foi de 95% e acreditamos que isso não vai mudar nos próximos 10 anos”, diz o CFO. A remuneração envolve dividendos, juros sobre capital próprio (JCP) e recompra de ações.

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A cada trimestre, a empresa busca declarar o máximo possível em JCP, apesar do patrimônio líquido limitado. Nos últimos 12 meses, foram cerca de R$ 400 milhões em dividendos e R$ 100 milhões em JCP. Recompras acontecem quando a ação está descontada, elevando o dividendo por ação. “Desde a abertura de capital, captamos R$ 170 milhões e devolvemos mais de R$ 4 bilhões aos acionistas com dívida zero”, destaca Pacheco.

Diante do possível aumento da alíquota do JCP de 15% para 20%, a partir de janeiro de 2026, a Odontoprev afirma que não fará nenhuma mudança na sua alocação de excesso de capital e pretende seguir distribuindo o máximo de JCP possível. “Dado o modesto patrimônio líquido da companhia, que limita o total de JCP em cada trimestre, o acionista da Odontoprev terá no fluxo de dividendos o grande destaque da sua remuneração”, aponta. Como revelado nesta reportagem, geralmente quem sente mais o impacto dessa tributação é o investidor e não as empresas.

Atualmente, há quatro anúncios e distribuições por ano para dividendos. Para JCP também, geralmente em março, junho, setembro e dezembro, mas o cronograma não é fixo. Em 2025, pagamentos ocorreram em abril e outros estão previstos para dezembro.

Questionei porque, com caixa sólido e receita recorrente, a Odontoprev não adota uma política mais previsível, como o Banco do Brasil, que informa payout, datas de anúncio, pagamento e “data com” em calendário no começo do ano, algo que facilitaria atrair investidor pessoa física. Na BB Seguridade e Caixa Seguridade, as datas de pagamento são conhecidas pelo mercado.

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Pacheco não demonstrou entusiasmo nas iniciativas e descartou também dividendos mensais: “O valor mensal seria modesto e há custo operacional para essa recorrência, que não é muito interessante para a companhia.”

Mesmo assim, o executivo garante pelo menos dois pagamentos no ano,  em cada semestre, com chance de mais. Em 2025, houve três distribuições em abril e outras três agendadas para dezembro, sem descartar novos proventos ainda neste ano.

Fisgando o investidor PF

A Odontoprev tem 50.629 investidores pessoa física, 230 empresas acionistas e 251 investidores institucionais (fundos) espalhados por mais de 30 países, como EUA, Brasil, Escócia e Canadá. Essa base foi construída pela área de RI em visitas a fundos exigentes em governança. Mas há um custo: “Esses fundos freiam a liquidez, são holders, não vendem suas ações”, conta Pacheco.

O desafio é atrair o investidor pessoa física brasileiro, que ignora a ação, apesar dos bons fundamentos. Jayme Simão, sócio-fundador do Hub do Investidor, diz que Odontoprev é interessante para proventos, mas nunca fica barata porque é previsível. ODPV3 negocia a 10,56 vezes o lucro, mas ele acredita que o ideal seria entre 7 e 8 vezes. É uma small cap, com valor de mercado de R$ 5,94 bilhões, e um negócio pouco comum na bolsa, o que  justifica o desinteresse dos minoritários.

Isso pode mudar. Em maio, a empresa entrou no IDIV (Índice de Dividendos) e no ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial). O IDIV reúne 50 empresas com bom desempenho em dividendos e serve de base para fundos e ETFs (fundos de índice). A entrada trouxe visibilidade: a liquidez diária subiu para R$ 30 milhões, maior patamar em dois anos.

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Fundos de São Paulo e Rio têm procurado a empresa para entender seu modelo. A meta é permanecer no IDIV, crescer seu peso no índice e continuar no radar do investidor. Odontoprev quer manter a dívida zerada e pagar o máximo em dividendos, cenário que só mudaria com investimento atrativo, hoje improvável.

Um papo sincero

Para Simão, a Odontoprev é uma das ações mais consistentes da bolsa, indicada para dividendos de longo prazo. “Com zero dívida, caixa líquido acima de R$ 1 bilhão e margens acima de 30%, mantém payouts perto de 90%, distribuindo quase todo o lucro via dividendos e recompras”, avalia.

Já eu me questiono  porque, se está tentando atrair o investidor pessoa física, a empresa não adota uma política de pagamentos mais previsível, com calendário fixo de anúncios, data com e pagamentos. Se a força está na previsibilidade, por que não evidenciar isso?

Sou da teoria que, quando o mercado não enxerga nosso valor, é hora de reposicionamento. Pagamentos mensais, trimestrais e cronogramas anunciados viraram moda na bolsa. Fica a provocação!

Parece que temos uma vaca leiteira da bolsa fora do radar. O dividend yield evoluiu. O desafio é mostrar que a ação merece estar no IDIV por anos, e não só na moda das boas pagadoras que não se sustentam. Estaremos de olho, Odontoprev.

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