Toda eleição tem seus termômetros, em qualquer parte do mundo. Pesquisa, tracking (monitoramento), conversa de bastidor, call com cientista político, podcast, grupo de WhatsApp e, agora, mercados preditivos.
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Toda eleição tem seus termômetros, em qualquer parte do mundo. Pesquisa, tracking (monitoramento), conversa de bastidor, call com cientista político, podcast, grupo de WhatsApp e, agora, mercados preditivos.
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A novidade não é trivial. Parte da Faria Lima e da imprensa aprendeu rápido a acompanhar a corrida eleitoral olhando também para a Polymarket, o maior mercado preditivo global, que opera em blockchain. O motivo é simples: preço é uma forma brutalmente objetiva de medir opinião. Alguém pode dizer qualquer coisa numa mesa de almoço. Quando coloca dinheiro no mercado, o discurso ganha preço.
No caso da eleição presidencial brasileira, a Polymarket já mantém mercados específicos com múltiplos desfechos possíveis e dezenas de milhões de dólares em volume negociado. A plataforma apresenta essas cotações como probabilidades implícitas, ajustadas em tempo real conforme os participantes compram e vendem posições.
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Isso incomodou muita gente. Mercados preditivos não são brinquedo. Eles levantam debates relevantes sobre manipulação, informação privilegiada, vício, integridade de mercado e fronteira com apostas. O mundo sério discute como regular. O Brasil preferiu o caminho mais curto: bloquear antes de amadurecer.
Se você tentar checar com seus próprios olhos o efeito dos áudios vazados sobre Flávio Bolsonaro da última semana nas probabilidades refletidas pelos mercados preditivos, provavelmente não vai conseguir pelos caminhos tradicionais. O Conselho Monetário Nacional barrou esse tipo de arranjo antes mesmo de a categoria deslanchar por aqui. Os principais sites foram bloqueados, e o acesso em território nacional ficou restrito. Ou melhor: ficou restrito para quem não usa ferramentas que muita gente já usa para continuar acompanhando eleição, geopolítica, Copa do Mundo e até a chance de convocação do Neymar.
Esse é o ponto. Proibição, quando encontra demanda real, costuma produzir um resultado conhecido: o mercado não desaparece, apenas muda de endereço.
E esse precedente fica muito mais perigoso quando sai dos mercados preditivos e chega às stablecoins, os ativos digitais lastreados em moedas fiduciárias. As mais conhecidas são os chamados dólares digitais, como USDT e USDC.
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No caso das stablecoins, não estamos falando apenas de uma nova forma de medir probabilidades. Estamos falando de uma nova forma de mover valor. Por isso, talvez a melhor imagem para entender o momento das stablecoins seja a Caixa de Pandora, só que ao contrário.
Na mitologia grega, Pandora recebeu um recipiente que não deveria abrir. Movida pela curiosidade, abriu. De dentro dele escaparam os males do mundo: sofrimento, doença, conflito, medo. Quando tentou fechar, já era tarde. A caixa havia sido aberta. O mundo tinha mudado.
A expressão atravessou séculos como metáfora para algo que, uma vez liberado, não volta mais ao estado anterior.
Com stablecoins, a imagem funciona pelo avesso. Ao abrir essa caixa, o que saiu não foi uma maldição. Saiu uma infraestrutura financeira melhor: liquidação praticamente instantânea, funcionamento 24 horas por dia, sete dias por semana, transferência global, acesso facilitado ao dólar e redução brutal de fricção em pagamentos internacionais.
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Depois que a gente vê isso funcionando, não dá para “desver”.
Quem já enviou valor para outro país em minutos não volta a achar elegante esperar pacientemente o banco trabalhar. Quem já operou com dólar digital num domingo à noite não acha natural o dinheiro dormir sabe-se lá onde entre a ordem de pagamento e a confirmação do recebimento. Quem já viu um contrato inteligente liquidar uma obrigação automaticamente entende que parte do sistema financeiro tradicional ainda opera em um ritmo que parece preguiçoso.
Stablecoin é a primeira aplicação cripto com cara de infraestrutura, não de especulação.
O mercado global de stablecoins já passa de US$ 320 bilhões em valor. Isso não é mais somente um nicho do mundinho cripto. É uma infraestrutura de liquidação, uma camada disponível para qualquer pessoa ou empresa que precise mover valor de forma digital, global e contínua.
A pergunta que o regulador brasileiro precisa se fazer é simples: queremos esse trilho passando por dentro do Brasil ou por fora?
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Porque dificultar demais o acesso não elimina a demanda. Apenas muda o caminho.
Se as plataformas locais não puderem oferecer stablecoins de forma competitiva, o usuário não vai desistir. Ele vai sair do perímetro regulado, e o tiro sai pela culatra.
Se comprar ficar caro, seja por spread ou tributo, ele compra outro ativo e converte depois. Se vender ficar difícil, encontra liquidez em outro lugar. Se a corretora brasileira for tratada como suspeita por padrão, a plataforma global não regulada vira atalho. Se o canal formal for punido, o informal ganha escala.
Não estou ensinando caminho. Estou falando de incentivos. “Mostre-me os incentivos e eu te mostrarei os resultados”, diria Charlie Munger, braço direito de Warren Buffett.
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Stablecoins são globais por natureza. Circulam em redes públicas, passam por carteiras digitais, protocolos descentralizados, plataformas centralizadas e contratos inteligentes. O Estado consegue, e deve, regular emissores locais, intermediários, ofertas ao público. Deve exigir prevenção à lavagem de dinheiro, governança, declaração e proteção do consumidor. Esse é o jogo sério.
Mas stablecoin precisa ser regulada pelo que faz, não pelo medo que provoca no status quo.
Uma stablecoin em dólar conversa com câmbio, capitais internacionais, emissor estrangeiro, reserva e risco de contraparte. Precisa de regra. Os instrumentos no mundo cripto por vezes exercem mais de uma função. Mas nesse caso me parece bastante claro. O erro é jogar dólar digital e Bitcoin na mesma gaveta regulatória. Um é pagamento, o outro é investimento.
Há risco? Claro. Há complexidade? Muita. Precisa de regra? Sem dúvida. Mas risco não pode ser argumento para proibição.
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O Brasil não precisa escolher entre a ingenuidade e o pânico. Pode fazer o óbvio bem feito: trazer o mercado para dentro, exigir transparência, separar o bom operador do aventureiro e proteger o usuário sem chutá-lo para a sombra.
Porque, se exagerar, o Brasil não acaba com stablecoins. Só acaba com as stablecoins no Brasil. E esse é o pior dos mundos.
Com stablecoins, estamos falando do sistema operacional da nova economia digital. Pagamentos, remessas, tesouraria, DeFi, tokenização, crédito colateralizado, mercado de capitais. Tudo isso precisa de uma camada eficiente de liquidação.
O Pix venceu porque era melhor. Simples, barato, instantâneo, confiável. Stablecoins têm a mesma lógica, só que em escala global.
A Caixa de Pandora já foi aberta. A experiência de mover valor digital, global e instantâneo já existe. Tentar colocar isso de volta no recipiente é fantasia burocrática. E isso costuma terminar sempre igual: o papel diz uma coisa, o mercado faz outra.
O Brasil pode liderar ou assistir. Pode regular o canal formal ou fortalecer o informal.
Mercados preditivos deram o aviso. Mesmo bloqueado, o mercado continua olhando. Com stablecoins, a consequência é maior. Não estamos falando de odds eleitorais. Estamos falando do dinheiro circulando na internet.
A Caixa de Pandora das stablecoins é às avessas porque, desta vez, o que escapou não foi o mal. Foi eficiência. E quando a eficiência sai da caixa, ela não volta.
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