Empresas do agronegócio, ligadas a commodities, podem mesmo ser boas pagadoras de dividendos no longo prazo?
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Empresas do agronegócio, ligadas a commodities, podem mesmo ser boas pagadoras de dividendos no longo prazo?
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Nos últimos três anos, passei a acompanhar de forma intensiva empresas pagadoras de proventos e virou recorrente ver companhias ligadas a terras e commodities agrícolas tentando atrair o investidor focado em renda.
Diferentemente de empresas como Petrobras (PETR3; PETR4) ou Vale (VALE3), o agronegócio carrega uma volatilidade estrutural. Há anos de bonança, com dividendos robustos, e outros bem mais contidos. Já vi companhias com bons fundamentos e forte geração de renda frustrarem investidores quando o ciclo virou.
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Em 2025, me deparei com um caso curioso: a SLC Agrícola (SLCE3). A companhia atua com commodities agrícolas e passou a se aproximar, de forma mais explícita, do investidor de dividendos, inclusive marcando presença em eventos voltados a esse público.
Foi em um desses eventos, em setembro, que um deslize de atenção me levou à sala errada, a dos palestrantes. O bastidor foi revelador: o CEO Aurélio Pavinato explicava o modelo da SLC Agrícola a Luiz Barsi Filho, o Rei dos Dividendos da B3. “Dou algumas dicas”, disse Barsi, interessado. A cena parecia um pedido de benção. Fui expulsa da sala pouco depois, mas a pergunta ficou martelando: a SLC quer mesmo se tornar uma vaca leiteira do agro?
Foi com essa inquietação que convidei o CEO Aurélio Pavinato e o CFO Ivo Marcon Brum para uma conversa franca.
A principal fonte de receita da SLC é a venda de commodities agrícolas, entre estas: soja, milho e algodão, além de uma frente de agropecuária com carne bovina. Há também a divisão de sementes geneticamente melhoradas, que contribui para elevar produtividade e margens.
Por ter sua receita atrelada às commodities agrícolas, a SLC convive com oscilações de preços e câmbio. Quase toda a produção é exportada. “A empresa recebe praticamente tudo em dólar. Quando o dólar sobe, a receita cresce e quando o real se valoriza, a receita cai”, explica Carlos Herrera, analista da Condor Insider.
Por isso, o hedge (proteção) cambial é central na estratégia e cobre entre 50% e 90% da produção. O CFO explica que a companhia correlaciona o preço dos insumos, em dólar, com a venda futura das commodities, atuando também como formadora de preço. O hedge reduz a volatilidade tanto dos custos quanto dos resultados.
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Essa disciplina permitiu à SLC entregar margens de lucro elevadas nos últimos anos, mesmo em um cenário adverso para commodities agrícolas e juros altos. Desde o IPO, em 2007, a empresa nunca registrou prejuízo. A meta histórica é manter margens acima de 13% ou 14%.
Para 2026, a expectativa da gestão é de recuperação da receita, com melhora dos preços da soja e do algodão. “O crescimento da área plantada em 2025, já definiu a receita de 2026”, diz Pavinato.
No estatuto, a SLC prevê payout (parcela do lucro destinada a proventos) mínimo de 25%, mas na prática distribuiu cerca de 50% do lucro nos últimos oito anos, patamar que pretende manter. Isso levou o dividend yield médio dos últimos cinco anos a cerca de 4,76%. “É uma boa pagadora”, diz o CEO.
Não tiro o mérito, mas faço a ressalva: pela estratégia de megainvestidores como Luiz Barsi e Décio Bazin, uma boa pagadora de dividendos deveria entregar ao menos 6% de yield médio. Em um cenário de inflação elevada, o retorno desejável se aproxima mais de 8%.
A companhia costuma anunciar proventos uma vez por ano, com pagamento sempre em maio. Excepcionalmente, em 2025, antecipou parte da remuneração por conta da tributação, realizando dois pagamentos, em maio e dezembro. A estratégia de remuneração inclui dividendos, juros sobre capital próprio (JCP) e recompras de ações quando o papel é considerado descontado.
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Segundo o CFO, os proventos não estão atrelados a metas de endividamento. A empresa também segue uma estratégia contracíclica: em períodos de preços mais baixos das commodities e margens pressionadas, intensifica o crescimento.
Mesmo com a tributação, o CFO afirma que a intenção é manter, em 2026, o pagamento de 50% do lucro em proventos, incluindo dividendos e JCP.
A mitigação de riscos da SLC para evitar oscilações abruptas nos proventos passa pela diversificação geográfica: são 26 fazendas em oito estados do centro oeste e nordeste brasileiro, concentradas em regiões mais estáveis climaticamente, tais como Mato Grosso, Bahia e Maranhão. Há também diversificação de culturas, sementes e pecuária, o que contribuiu para manter a margem ebitda entre 30% e 40% nos últimos anos.
Outro pilar relevante é o uso crescente de terras arrendadas. Hoje, mais de 60% das áreas são arrendadas. O modelo exige caixa no primeiro ano, mas gera retorno mais rápido do que a compra de terras. Para os próximos anos, a meta é manter um terço de terras próprias e dois terços arrendadas, buscando maior retorno ao acionista.
Segundo Pavinato, a SLC não conseguiria crescer tudo o que já cresceu se comprasse todas as terras para produção.
Com a tributação, a companhia antecipou a remuneração dos acionistas, pagando R$ 20 milhões em JCP e R$ 380 milhões em dividendos, além de realizar bonificação de ações, com papéis avaliados em cerca de R$ 16,50.
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Como os proventos previstos para maio foram antecipados para dezembro, a SLC não deve pagar dividendos nem JCP em 2026, levando o dividend yield a zero. Segundo o CEO, isso não preocupa, já que em 2025 o investidor recebeu proventos em dobro, com dividend yield atual próximo de 9%.
A empresa estuda outras alternativas de remuneração, mas, no curto prazo, aposta em recompras, pois considera a ação “absurdamente barata”.
O CFO afirma que, considerando o valor das terras e descontando dívidas, a ação deveria valer cerca de R$ 32, mas negocia pouco acima de R$ 16.
O desconto, segundo Pavinato, reflete o fato de a companhia usar as terras para produção, e não para ganhos imobiliários, o que o mercado não precifica bem. Além de receios com a crise do agro, efeito cascata de empresas impactadas como o Banco do Brasil (BBAS3).
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“Mas o investidor pode ganhar nas duas pontas. Se o dividendo aumentar e o preço da ação estiver baixo, o dividend yield é maior. Se a ação subir, ele ganha com a valorização”, defende o CEO.
A SLC investe em irrigação em parceria com fundos do BTG Pactual e vendeu participação em terras, incluindo a Fazenda Piratini, na Bahia, em uma operação de R$ 1,03 bilhão. Cerca de R$ 119 milhões devem entrar em 2026.
Segundo o CFO, os recursos serão usados para crescimento e redução do endividamento. A meta de alavancagem é de até 2 vezes dívida líquida sobre Ebitda, patamar que a empresa deve atingir em 2025. Quando o endividamento está abaixo disso, é mandatório crescer.
Para Pavinato, a SLC combina crescimento no médio e longo prazo com payout de 50%, enquanto o dividend yield oscila conforme o preço da ação.
Já Herrera avalia que a dívida e juros altos ainda limitam a tese de dividendos. Segundo ele, a desalavancagem só deve se normalizar em 2027 e deveria ser o foco da companhia, mantendo payout de 25%. “O dividend yield não deve passar de 6%”.
Vou direto ao ponto. A SLC tem bons fundamentos, mas mistura crescimento com dividendos moderados.
Para diversificar a carteira, com uma pimentinha do agro, faz sentido. Para viver de renda, sigo com ressalvas, especialmente diante da ausência de pagamentos em 2026. Quem sabe com a benção do Barsi, a SLC ganhe o coração da jacarezada no futuro.
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