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OPINIÃO. China, EUA e o divórcio mais caro da história

Efeitos dessa separação, depois das novas regras chinesas sobre terras raras, vão aparecer nos preços, no poder e na estrutura da economia global

Por Thiago de Aragão

22/10/2025 | 14:25 Atualização: 22/10/2025 | 14:49

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Tensões comerciais entre China e Estados Unidos voltam a gerar aversão ao risco nos mercados globais. (Foto: Adobe Stock)
Tensões comerciais entre China e Estados Unidos voltam a gerar aversão ao risco nos mercados globais. (Foto: Adobe Stock)

Washington vive repetindo que quer “reduzir riscos”, não “romper laços”. Mas as novas regras anunciadas pela China sobre terras raras empurram o mundo exatamente para o lado oposto. Se os Estados Unidos realmente passarem do discurso de “de-risking” para uma separação real, os efeitos vão aparecer nos preços, no poder e na estrutura da economia global. E, aparentemente, esse novo mundo já começa a ganhar forma.

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O primeiro impacto é simples: os preços sobem, a eficiência cai e, só depois, vem a tal da resiliência. Quando cada país decide fazer tudo sozinho, o resultado é duplicar fábricas, fornecedores e certificações. Tudo isso custa caro. A conta vai aparecer nos eletrônicos, nos carros e em qualquer coisa que dependa de motores ou ímãs, porque as terras raras e os materiais usados em baterias ficarão mais difíceis de conseguir. Com o tempo, parte desse custo tenderia a diminuir, à medida que novas fábricas e cadeias produtivas se instalem nos Estados Unidos, no México, na Índia, no Vietnã e na Europa. Mas o novo sistema será menos eficiente por natureza: o mundo vai trocar produtos mais baratos por um pouco mais de segurança.

E então o planeta tecnológico se dividirá. As licenças de exportação chinesas para terras raras e tecnologias de ímãs são a versão material das restrições americanas sobre semicondutores. No momento, tanto Washington quanto Pequim conseguem interferir nas cadeias de terceiros países. O resultado será o surgimento de dois ecossistemas paralelos, com regras, padrões e componentes diferentes. De um lado, o mundo das ferramentas da ASML, dos softwares americanos e dos minerais de aliados; do outro, o universo chinês de equipamentos próprios, códigos domésticos e cadeias centradas em Pequim. Com o tempo, chips, carros elétricos, servidores de inteligência artificial e até eletrodomésticos começarão a ter “duas versões”: uma americana e outra chinesa.

Escala produtiva precisa encontrar outro destino

Nesse novo tabuleiro, o Sul Global vira o grande “estado-pêndulo” das cadeias produtivas. Se os Estados Unidos se afastam da China, a escala produtiva precisa encontrar outro destino, e esse destino estará no sul. Brasil e Argentina ganham força em minerais e alimentos; a Indonésia cresce com níquel e baterias; Índia e Vietnã se tornam potências de montagem; o México assume o papel de plataforma de exportação para os EUA. A China vai tentar garantir contratos e rotas de longo prazo, enquanto Washington responde com financiamentos e acordos de “friend-shoring”. Quem dominar as regras de origem, o refino mineral e a eficiência portuária terá mais peso do que o PIB sugere.

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O dinheiro e o talento seguirão a mesma lógica de separação. Os controles de exportação chamam a atenção, mas o que realmente define o futuro é onde circulam o capital e as pessoas. Um desacoplamento mais profundo vai trazer mais barreiras para investimentos americanos em tecnologia chinesa e mais desconfiança em relação a empresas chinesas listadas em bolsas dos EUA. A reação da China será proteger sua propriedade intelectual e dificultar a saída de engenheiros e cientistas estratégicos. Cada lado vai tentar criar seu próprio ecossistema de talentos e universidades. Nos EUA, virão mais vistos voltados para especialistas em chips e energia; na China, programas nacionais para manter os melhores cérebros em casa.

Terras raras passarão a ocupar o papel que o petróleo teve no século XX

E as terras raras passarão a ocupar o papel que o petróleo teve no século XX. A nova política de licenciamento da China coloca literalmente a mão no pescoço da indústria global de ímãs e baterias. Se esse aperto continuar, os Estados Unidos terão de agir rápido: construir refinarias em território aliado, subsidiar a produção de ímãs dentro de casa e aceitar que licenciamento ambiental e reciclagem agora são temas de segurança nacional. Vamos ver créditos fiscais para motores e ímãs, estoques estratégicos de metais como disprósio e térbio e programas intensivos de reciclagem. Até a Agência de Proteção Ambiental (EPA) vai se transformar de guardiã ambiental em ferramenta de política industrial, menos papelada, mais ação.

No fim, o desacoplamento é confuso no começo e caro no meio, mas acaba criando cadeias produtivas mais políticas e redundantes. Os preços sobem antes de estabilizar. Os padrões se separam. O Sul Global vira o grande fornecedor que todos querem cortejar. O dinheiro e o talento se organizam em blocos rivais. E os minerais estratégicos deixam as páginas de economia para ocupar as manchetes. Se a China continuar apertando o controle sobre as terras raras e os EUA responderem com tarifas de 100% e bloqueios tecnológicos, já estamos nessa estrada. O caminho inteligente agora é se preparar para um mundo dividido em dois sistemas, mas com pontes suficientes para evitar um infarto na economia global.

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