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Colunista

O que pensa o investidor estrangeiro sobre o Brasil de 2022

No mercado há duas versões, a do governo brasileiro e a do investidor de fora que está atento aos detalhes

Por Thiago de Aragão

18/10/2021 | 7:51 Atualização: 18/10/2021 | 7:51

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Presidente da República, Jair Bolsonaro durante reunião com o Ministro da Economia, 
Paulo Guedes. (Foto: Isac Nóbrega/PR)
Presidente da República, Jair Bolsonaro durante reunião com o Ministro da Economia, Paulo Guedes. (Foto: Isac Nóbrega/PR)

Na última semana conversei com vários investidores americanos e canadenses sobre o Brasil de 2022. Como não poderia ser diferente, a questão eleitoral vem atraindo interesse constante e crescente.

Leia mais:
  • O impacto do ruído político na leitura da economia brasileira
  • EUA versus China: vários diálogos, diferentes interpretações
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Erra quem acha que o mais discreto dos investidores, com pequena participação no nosso mercado, não esteja acompanhando as pesquisas periodicamente. Sabem analisar o crescimento da popularidade, da rejeição e a performance de potenciais candidatos que não necessariamente concorrerão, mas que indicam as futuras preferências do eleitor.

Em paralelo a essas conversas, na forma presencial e por meio de videoconferências, tivemos também a visita a Washington do Ministro da Economia, Paulo Guedes, para dar seu recado e demonstrar que os investidores podem, em uma medida ou outra, confiar no Brasil como destino de suas inversões.

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Após uma dessas apresentações presenciais, fiquei conversando com o chefe de investimentos em mercados emergentes de um fundo de Nova York. Enquanto falávamos sobre política e agenda legislativa numa conversa misturada com generalidades, ele me perguntou o que eu estava ouvindo quando cheguei à reunião. Mostrei a música e ele demonstrou apreciá-la muito.

Num determinado trecho, a letra (em inglês) diz : “se você for mudar de ideia, não importa o quanto você tente, desde que exista razão para isso”.  “Frase perfeita para explicar o contexto todo para membros do governo brasileiros quando visitam Washington e NY, não é?”, ele comentou.

Existem duas visões e dois parâmetros para medir o quão atrativo é o Brasil. Para o governo brasileiro, o País teve um desempenho melhor do que o previsto pelo FMI. A queda do PIB foi menor do que o esperado, 9% versus 4.5%; o crescimento previsto foi melhor do que o esperado, 2% versus 1%; a reforma tributária está avançando e a reforma administrativa também está a caminho. O governo lamenta o fim do Doing Business, do Banco Mundial, já que acredita que o processo de desburocratização faria com que o país desse um grande salto na tabela. O famoso “ruído político”?

Para o governo, não passa de uma detalhe no processo e não merece tanta atenção. Então, quais seriam os pontos-chave da narrativa brasileira? Pelo que ouvi: crescimento do PIB, reformas, desburocratização e relativização do “ruído político”.

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Já do lado do investidor estrangeiro, o peso dado para cada coisa é diferente e outros elementos fazem parte da equação. Naturalmente, o embate de narrativas e expectativas se dá no peso concedido a cada item e na leitura da percepção. Quem se vende, não tem total isonomia de avaliação da própria credibilidade. Isso faz parte da natureza humana. Quem está no papel de “ser convencido”, atribui um peso maior à credibilidade e ao subjetivo.

Para muitos investidores, representantes do governo brasileiro estão corretos em enfatizar os erros de avaliação feitos pelo FMI. Entendem que os modelos de projeção utilizados não funcionam em períodos de incertezas profundas, geradas por elementos inesperados (como a pandemia, por exemplo). Olham a reforma tributária com esperança, mas também entendem que o que foi prometido, lá atrás, não está necessariamente em linha com o que será entregue.

“Ah, temos que considerar os aspectos políticos de negociação com o Congresso”, pode ser a resposta brasileira. Certo, mas a subjetividade não pode ser seletiva. Se ela é utilizada para melhorar a imagem do resultado final da reforma, ela também pode ser usada para enfatizar o peso do “ruído político”. O lado brasileiro fala, com orgulho (justo), da independência do Banco Central. Isso cai bem nos ouvidos de investidores.

Por outro lado, questionam por que o Judiciário e o Congresso foram criticados pela sua própria independência. A relativização faz parte do processo de quem quer convencer e de quem quer se deixar convencer.

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O “ruído político” é, na verdade, muito mais do que um ruído. Tudo o que é dito, principalmente por um chefe de Estado, não pode ser colocado no balaio da emoção diária por conta de um país polarizado. Pelo menos não para um investidor que não tem tempo de mergulhar nas nuances e nos detalhes das razões por trás de frases sem sentido e significados ocultos. Talvez aí seja onde more a disparidade entre o que o Brasil espera que o investidor sinta — quando escuta uma lista de pontos positivos alcançados — e aquilo que o investidor interpreta como “legal, sigo investindo, não é pra tanto”.

Na política — e a narrativa econômica está intrinsecamente chamuscada pela política — a construção da narrativa não pode ser generalizada. Ela deve ser categorizada para cada público. O público investidor, corporativo, diplomático não é o público eleitor. O eleitor gosta de ouvir algo que corrobore suas crenças. Já esses outros públicos, esperam algo mais sofisticado: um balanço de reconhecimento de equívocos e de vitórias explicadas sem ênfase, quase de uma forma “blasé”.

Na literatura da psicologia política, o reconhecimento de um equívoco, precedendo o anúncio de um acerto, aumenta consideravelmente o efeito impactante do acerto. Talvez isso seja pedir demais, mas é uma estratégia eficiente que se baseia, pasmem, apenas na realidade.

No fim da conversa, fiz o que qualquer pessoa faria: encaminhei o link da música “Sweet Loretta”, da banda holandesa DeWolff.

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