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Colunista

Qual é o preço da crise diplomática entre Argentina e China?

No tabuleiro das relações internacionais, se vê um jogo diplomático delicado entre as nações; caso envolve Taiwan

Por Thiago de Aragão

19/01/2024 | 16:00 Atualização: 19/01/2024 | 16:00

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Nas últimas semanas, Milei percebeu como difícil é lidar com um Congresso no qual não possui maioria. (Imagem: Monster Ztudio/Adobe Stock)
Nas últimas semanas, Milei percebeu como difícil é lidar com um Congresso no qual não possui maioria. (Imagem: Monster Ztudio/Adobe Stock)

No tabuleiro de xadrez das relações internacionais, a Argentina se vê em um delicado jogo diplomático com a China, seu principal parceiro comercial. A reunião entre a ministra argentina das Relações Exteriores, Diana Mondino, com o representante de Taiwan, Miao-hung Hsie, e o posterior encontro com o embaixador chinês na Argentina, Wang Wei, sinalizam uma mudança potencial na postura do país em relação ao gigante asiático.

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Esses eventos ocorrem em um contexto de tensões crescentes, alimentadas pelas promessas eleitorais do presidente Javier Milei de romper laços com a China e por críticas ao governo chinês. A retórica de Milei durante sua campanha eleitoral, incluindo críticas severas à governança chinesa, levantou preocupações quanto ao futuro das relações sino-argentinas, principalmente pelo fato de a Argentina se caracterizar como um dos países da América Latina mais dependentes do comércio e do financiamento chinês.

  • Saiba mais: Como é lidar com dinheiro na Argentina com inflação astronômica

No entanto, parece haver um esforço de reconsideração da posição inicial do novo governo, enfatizando a continuidade da amizade entre as nações e reafirmando o princípio desejado por Pequim de “Uma só China”, essencial para manter as relações comerciais.

A Argentina depende fortemente de um acordo de swap monetário com a China para financiar importações e pagar dívidas internacionais e a suspensão temporária desse acordo pela segunda maior economia do mundo suscita questões sobre a capacidade do país sul-americano de cumprir suas obrigações financeiras.

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A decisão argentina de não aderir ao BRICS (sigla que representa o bloco de países formados por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) elimina a possibilidade de obtenção de financiamento pelo Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, o que pode ter consequências econômicas significativas.

Por outro lado, a não adesão gerou reações positivas nos Estados Unidos e no Japão, fazendo com que outras possibilidades de financiamentos (mais burocráticas do que o financiamento chinês) possam surgir.

Os fantasmas de Milei

Enquanto Milei pode buscar laços mais estreitos com o “mundo livre”, a complexa realidade da diplomacia global e da interdependência econômica pode exigir uma abordagem mais pragmática na gestão dos desafios da política externa argentina. Em pouco mais de três semanas, Milei está aprendendo que para um político de um país emergente em crise há dois fantasmas que podem levá-lo à loucura e, consequentemente, ao fracasso político: o Parlamento de seu país e a China.

Nas últimas semanas, Milei percebeu como difícil é lidar com um Congresso no qual não possui maioria. Negociar na política envolve uma arte em saber ceder. No caso argentino, envolve a coragem de ceder muito, provavelmente muito além do que pensava, sem necessariamente saber se receberá ou não o esperado. Já com a China, Milei possui a sorte de contar com a brilhante Diana Mondino, que rapidamente buscou o equilíbrio, chamando o embaixador chinês para uma conversa.

  • Veja ainda: “O caso da Argentina prova a tese do Bitcoin”, diz CEO da Foxbit

A resposta da Argentina, via Mondino, ao descontentamento da China sugere esforços para mitigar as tensões. A insistência argentina de que o encontro relatado com Taiwan foi uma má interpretação pela imprensa e mais a reafirmação do compromisso com a política de “Uma só China” refletem uma tentativa de navegar cuidadosamente nessas águas diplomáticas, como também um conhecimento de que financeiramente a Argentina está amarrada à China, independentemente de qualquer desejo de ruptura.

Essas manobras diplomáticas, porém, devem ser equilibradas com narrativas políticas domésticas e o ambiente geopolítico global. A abordagem do governo argentino nos próximos meses será crucial para determinar o futuro de suas relações com a China, o que poderá ter implicações significativas não apenas para a política externa, mas também para sua estabilidade econômica e posição internacional.

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A tendência é que, assim como ocorreu com o ex-presidente Jair Bolsonaro no Brasil, um período de silêncio sobre a China antecipe um outro de leves elogios à medida que as dificuldades surjam.

Argentina é um país com pressa

Em suma, o cenário diplomático que se desenrola entre Argentina, China e Taiwan apresenta uma complexa matriz de considerações geopolíticas, econômicas e estratégicas. A Argentina é um país com pressa. Quem não tem dinheiro e possui uma inflação a 200% tem pressa no universo econômico e geopolítico.

A China, por outro lado, não tem pressa. Sabe que cedo ou tarde, a Argentina precisará de facilidade para obter crédito que outros mercados não darão. As decisões tomadas pelo governo argentino nesse contexto não apenas moldarão suas relações bilaterais com essas nações, mas também definirão sua posição no cenário internacional mais amplo.

  • Confira ainda: Viajar para a Argentina vai continuar barato após a posse de Javier Milei?

Taiwan sabe que tem uma oportunidade na mão. Essa aproximação pode ser um reinício para o processo de reposicionamento na América do Sul. Sempre correndo risco de perder mais países que reconhecem a ilha, Taiwan hoje tem no Paraguai seu grande bastião diplomático na América Latina. Com Milei, mesmo sem mudar o reconhecimento da China continental para Taiwan, só o fato de estabelecer uma comunicação frequente traz a nação insular de volta para o tabuleiro diplomático sul-americano.

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