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O olhar do mercado internacional

Thiago de Aragão é diretor de estratégia da Arko Advice e assessora diretamente dezenas de fundos estrangeiros sobre investimentos no Brasil e Argentina. Sociólogo, mestre em Relações Internacionais pela SAIS Johns Hopkins University e Pesquisador Sênior do Center Strategic and International Studies de Washington DC, Thiago vive entre Washington DC, Nova York e Brasilia.
Twitter: @ThiagoGdeAragao

Escreve às sextas-feiras, a cada 15 dias

Thiago de Aragão

Planejar sem experiência em planejar

Essa sempre foi uma fraqueza histórica nos governos brasileiros

(Foto: Dado Ruvic/Reuters)
  • Conforme nos aproximamos de uma vacina, um planejamento de distribuição se torna obrigatório, imediato e profundamente crítico.

A vacinação já está acontecendo nos primeiros países, reacendendo a esperança neste final de ano. Enquanto o mundo inteiro se prepara para este embate decisivo, muitos governos ainda se debatem para garantir um mínimo de logística e organização no processo de vacinação em massa de suas populações.

A definição do cronograma de entregas, do material necessário, mão de obra etc, não é algo simples. Muitos países, como o Brasil, não apresentaram ainda nada concreto com relação a vacinação da nossa população de 212 milhões de habitantes.

Recentemente, o governo tinha afirmado que já está fechado com a Pfizer, mas, na prática, o contrato  ainda não tinha sido assinado. Não se trata apenas de uma assinatura embaixo de uma série de formalidades, porém também da definição de doses a serem entregues, em quais prazos e datas, levando em conta todo o processo da distribuição por nosso imenso território.

A área de planejamento sempre apresentou uma fraqueza histórica em todos os governos brasileiros. Nas poucas vezes em que nos vimos obrigados a planejar foi para tentar solucionar problemas crassos e persistentes, como a inflação e o Plano Real.

A covid-19 apresentou-se como o grande desafio para a humanidade neste século e já levou à morte mais de 180.000 brasileiros. Durante a pandemia, além da ausência de planejamento, todas as medidas reservadas para o combate da doença acabaram sendo politizadas de uma forma inédita.

Para muitos, a ausência de um planejamento estratégico era uma estratégia em si só; para outros, mostrava apenas a falta de interesse do governo em ser responsabilizado. De qualquer forma, conforme nos aproximamos de uma vacina (graças a investimentos de outros países e parcerias diretas com dois institutos brasileiros), um planejamento de distribuição da vacina se torna obrigatório, imediato e profundamente crítico para determinar o rumo que tomará o país nos próximos meses.

A normalização de algo anormal não é uma característica unicamente brasileira. Porém, como país, parece que aperfeiçoamos essa “capacidade”. A violência é um desse problemas que o “deixa que eu deixo” fez com que décadas se passassem e uma solução viável em grandes cidades nunca fosse apresentada de forma eficiente e positiva para a sociedade. Quando um problema traz um choque, principalmente em cima da economia, nosso senso de urgência muda e passamos a buscar alguma alternativa. No caso da covid, o sentimento de que algo deve ser feito infelizmente não surgiu por conta de sua magnitude na vida dos brasileiros, mas pelos efeitos econômicos. Isso sim fez com que a mobilização estatal tomasse mais corpo.

Nessa semana, o Ministério da Saúde apresentou um plano nacional de vacinação. No plano, o governo garantiu uma quantidade de 300 milhões de doses, mesmo com as vacinas da Pfizer ainda sob negociação. A logística de distribuição não está clara e isso — que pode parecer um mero detalhe — é na verdade um pesadelo para um país onde historicamente a eficiência logística está nas mãos do setor privado. O governo já separou 300 milhões de reais para seringas e agulhas, porém, há uma necessidade grande de viabilização da produção desses insumos essenciais, tanto nacional quanto na importação, em um setor que está sobrecarregado. Há pontos vagos e lacunas: não sabemos, por exemplo, se esses produtos ganharão algum tipo de isenção especial pela Receita. O investimento na “rede de frio”, que possibilita o transporte e armazenamento (principalmente da vacina da Pfizer), é outro ponto de extrema relevância para o qual os detalhes não foram ainda bem explicados. Quando vimos o estado do Amapá com dificuldades de acender postes de luz, imaginamos a complexidade em ter a vacina da Pfizer nessa em outras localidades com condições semelhantes.

A distribuição prioritária está bem definida. Profissionais de saúde e populações mais vulneráveis estão à frente, seguindo uma lógica internacional de aplicação da vacina. Entre a primeira e a quarta fase, temos os grupos específicos mencionados. Isso é bom, mas não podemos nos esquecer que a contaminação vai seguir aumentando enquanto o primeiro contingente está sendo vacinado.

O problema de contaminação e mortes pela covid seguirá preocupante em 2021. Para a enorme maioria da população, o momento ainda pedirá cuidados, distanciamento e precauções que todos já estão cansados de seguir. A economia poderá mostrar os impactos positivos da vacinação provavelmente ao final do próximo ano. Como muitos se recusarão a tomar a vacina, teremos um período de normalidade, com casos abaixo do que já tivemos (assim como mortes), mas o vírus não estará fora de nossas vidas. A Coronavac, da Sinovac, seguirá como símbolo da guerra política entre o governador de São Paulo, João Dória, e o Presidente Bolsonaro.

A apresentação de um plano é o primeiro passo. A execução é o seguinte e mais importante, e a disciplina da população em esperar a sua vez, seguindo diretrizes de distanciamento social, será o ponto mais complicado de todos.

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