Mas a percepção em 2027 será diferente. Não haverá mais dinheiro e também não há condições para aumento da arrecadação. E governos no Brasil tendem a resistir enormemente a mexer nas despesas, já que isso mexe com interesses políticos importantes. Caminho aberto para um grande desequilíbrio fiscal, com consequências nefastas como visto recentemente em países como Sri Lanka, Grécia, Zâmbia e Venezuela.
O que deve acontecer?
Em primeiro lugar, como sempre, vale mais a percepção do que o fato em si. E a percepção de uma eventual crise fiscal atinge diretamente o prêmio de risco exigido para emprestar dinheiro para empresas e governos. Isto é, Certificados de Depósito Bancário (CDBs), Notas do Tesouro Nacional (NTNs), dentre outros títulos. Temos também a possível desvalorização cambial e aumento de inflação.
Fica aqui uma ressalva: no Brasil até o passado é imprevisível, quanto mais o futuro. Mas é sempre útil fazer o exercício para tomar posições pelo menos defensivas no mercado.
E vamos aos investimentos
As taxas dos CDBs e outros títulos como Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) e Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e outros sobem, afinal o Banco Central deve manter taxas elevadas de juros para atrair investidores para os títulos governamentais, e com isso todas as taxas sobem. Mas os bancos médios e pequenos passam a oferecer taxas bem mais elevadas que os grandes bancos.
Acabamos de ver esse filme com a promessa de garantia do FGC, mas isso tem limites. Para investidores de maior porte o FGC não é suficiente. Mesmo uma diversificação grande entre bancos médios ainda mantém um risco elevado no caso de crise sistêmica.
Os títulos do governo, ou títulos públicos, como a muito querida NTN-B (Tesouro IPCA+) sofrem com a marcação a mercado, perdendo valor no caso de necessidade de resgate. Se você vai levar até o vencimento, não deve se preocupar com a marcação a mercado. Mas se precisar resgatar antes do vencimento, há perdas que serão mais relevantes quanto mais longo for o título.
No caso dos títulos pós fixados esse efeito não ocorre já que o ajuste se dá pela taxa de juros. Normalmente esses pós fixados são os ativos que menos sofrem em crises fiscais. Mas claro, há sempre o risco Brasil associado a eles. Há muito tempo não temos uma moratória, mas não podemos eliminar totalmente essa possibilidade.
Aí temos as ações. No geral devem perder valor, já que as taxas de desconto dos fluxos de caixa serão maiores, resultando em valuations menores. As voltadas para o mercado doméstico sofrem mais até porque o crédito fica mais difícil e caro. Bancos têm margens maiores, mas inadimplência maior também. Tendem a ficar no zero a zero.
Já quem pode ter um bom desempenho são as exportadoras, impulsionadas pelo câmbio mais favorável. O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira, pode até subir, dado que na sua composição tem muito de commodities (matéria-prima) e exportadoras. Mas mesmo esse hedge (proteção) pode falhar se houver a chamada crise de dominância fiscal, que é o momento em que a política monetária perde força sendo a economia dominada pela insolvência do setor público.
Outros ativos como fundos imobiliários também devem sofrer com a elevação dos juros, novamente o valuation dos ativos piora. Outros créditos privados também sofrerão, já que o preço do risco aumenta.
Resumo: a maior parte dos ativos locais sofre com uma crise fiscal, ou com a percepção dela. Dá para buscar portos seguros localmente? É difícil. A solução mais simples é diversificar mais e mais com ativos no exterior.
A correlação dos ativos locais com os do exterior num caso de crise fiscal cai muito, podendo mesmo se tornar negativa, o que gera benefícios inegáveis para o investidor brasileiro. Mas é preciso se antecipar. Fazer esse movimento no meio da tempestade é certeza de se desfazer de ativos locais na chamada bacia das almas, isto é, com valor muito baixo.
Esse movimento tem que ser feito enquanto há valor relevante nos ativos locais. Isto é, já.