Aplicativos de contas globais: volatilidade do dólar leva viajantes a buscar previsibilidade, menor custo e rendimento em moeda estrangeira. (Foto: Adobe Stock)
Com o dólaracima dos níveis pré-pandemia (na casa de R$ 4,50) e oscilando semana após semana, planejar viagem internacional em 2026 passou a exigir mais estratégia do que entusiasmo. A moeda americana recuou mais de 6% no acumulado até fevereiro e segue sujeita a movimentos bruscos. Em um cenário em que cada centavo no câmbio pode pesar no orçamento, saiba como se planejar financeiramente para viajar sem surpresas na fatura.
Os números ajudam a dimensionar essa volatilidade. Dados da Exchange-Rates.org mostram que, em janeiro desse ano, o dólar chegou a R$ 5,5199 e caiu ao longo das semanas, atingindo R$ 5,1725 ontem (23). No acumulado do ano até então, a taxa USD/BRL recuou 6,29%. A média de fevereiro foi de R$ 5,2195, maior que o dólar para março, que atingiu máxima de R$ 5,1900. Ou seja, concentrar toda a compra de moeda em um único dia tornou-se arriscado, o viajante pode pagar bem mais caro ou, com sorte, mais barato.
Diante desse cenário, a forma de pagar no exterior deixou de ser um detalhe operacional e passou a integrar o planejamento financeiro estratégico. Cartões de crédito internacionais seguem populares, mas contas globais e cartões multimoeda ganharam espaço. O dinheiro em espécie, por sua vez, perdeu protagonismo.
Para Manuel Beaudroit, CEO da belo, o problema não é usar o cartão de crédito, “mas usá-lo sem entender o custo real daquela conversão”. Pequenas taxas, explica, acumulam-se ao longo da viagem e podem gerar impacto relevante no orçamento, muitas vezes percebido apenas quando a fatura chega.
O planejador financeiro Diego Endrigo, CFP pela Planejar, detalha os três fatores que tradicionalmente encarecem a operação no crédito internacional. “Primeiro, há a incidência de IOF [Imposto sobre Operações Financeiras] sobre compras internacionais, conforme regra da Receita Federal”, afirma. Em seguida, entra o spread cambial (a diferença entre o preço de compra e o de venda da moeda) aplicado pela instituição financeira sobre a cotação. “Terceiro, a conversão da compra não ocorre no dia do gasto, mas na data de fechamento da fatura“, acrescenta.
Essa dinâmica transfere ao consumidor o risco da variação cambial. Se o dólar sobe entre a data da compra e o fechamento da fatura, o valor final aumenta. A combinação de IOF, spread e variação pode elevar o custo significativamente acima do dólar comercial.
Hoje, porém, o IOF foi equalizado em 3,5% para operações internacionais, tanto no crédito quanto no débito. Para Carlos Castro, também CFP pela Planejar, isso altera a lógica anterior. “A afirmação de que o cartão de crédito costuma ser mais cara por causa do IOF não é mais uma verdade automática. Agora, a diferença está muito mais no spread“, afirma.
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Essa margem pode variar de 1% a 5%, dependendo do banco ou da fintech, e é aí que reside boa parte da diferença de custo.
Nesse contexto, contas globais e cartões multimoeda ganham espaço. Plataformas como Wise e Nomad permitem comprar moeda estrangeira previamente e manter saldo em dólar (ou outras moedas), utilizando um cartão de débito vinculado a esse saldo. A principal vantagem está na previsibilidade. Como explica Endrigo, “o imposto incidente na compra da moeda é menor do que no cartão de crédito, e o câmbio é travado no momento da conversão”. Assim, o cliente sabe exatamente quanto pagou e elimina o risco de surpresas na data de fechamento da fatura.
Castro reforça que, no cartão multimoeda de débito, o câmbio é fixado no momento da remessa de recursos.
“Do ponto de vista do planejamento financeiro, a previsibilidade no cartão de débito é maior em relação ao cartão de crédito, porque você já trava o câmbio”, diz.
Além da previsibilidade, os custos tendem a ser mais transparentes, já que a taxa aparece embutida na cotação exibida no aplicativo. Em contrapartida, não há parcelamento e, em muitos casos, os programas de recompensas são mais limitados. Ainda assim, segundo dados internos da belo, a previsibilidade e a redução de taxas podem gerar economia entre 5% e 12% no custo total da viagem – o equivalente a até R$ 1.200 em um orçamento de R$ 10 mil.
Apps com rendimento em dólar
Tradicionalmente, comprar dólar significava deixar o dinheiro parado.
“O dólar em si não ‘rende’ juros como um CDB [Certificado de Depósito Bancário] ou uma conta poupança. A rentabilidade de investir em dólar vem da variação da taxa de câmbio”, lembra a XP.
Se a moeda se valoriza frente ao real, há ganho; se se desvaloriza, há perda.
Hoje, porém, algumas plataformas permitem que o saldo em dólar gere rendimento. O Dolar App, por exemplo, permite depositar reais via Pix e converter para dólar com taxa mencionada em torno de 0,5%. O saldo pode render 2,5% ao ano no plano Standard ou 4% ao ano no Premium, e a empresa afirma trabalhar com bancos parceiros nos EUA, oferecendo proteção de até US$ 250 mil.
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A Nomad, por sua vez, funciona como conta corrente nos Estados Unidos para brasileiros. A conversão ocorre com taxa a partir de 1% e encargos de até 3,5%. A plataforma oferece a opção de Savings, que rende em dólar. Já a Wise permite converter reais usando o câmbio comercial, com spread geralmente entre 0,8% e 1%, e possibilita rendimento sobre o saldo em USD ao ativar a opção de ativos, baseada em fundos de mercado monetário.
Para quem deseja ir além do saldo parado, há plataformas como a Webull, que oferece rendimento de até 3% ao ano sobre o dinheiro não investido na conta em dólar, além de acesso a ações e ETFs (Exchange Traded Funds) no mercado americano, com comissão zero para ações (havendo, contudo, taxas regulatórias específicas em operações de venda e no mercado de opções).
E qual app escolher?
Na hora da decisão, vale comparar a transparência na formação da taxa de câmbio, o nível do spread, a facilidade operacional do aplicativo, a segurança regulatória e os custos totais.
Além dos apps de conta global e investimento, organizar o orçamento também faz diferença. Ferramentas como Spendee (para finanças compartilhadas), Organizze (para registro simples de despesas) e Mobills (com metas e relatórios detalhados) ajudam a acompanhar quanto já foi convertido, quanto ainda falta acumular e qual é o impacto das variações cambiais no planejamento.
Em um cenário de dólar volátil e maior consciência sobre custos “invisíveis”(como IOF e spread), pagar no exterior deixou de ser apenas uma questão de conveniência. Com contas remuneradas e planejamento digital, seus dólares podem não apenas esperar a viagem, mas também trabalhar até lá.