Bradespar (BRAP4) ou Vale (VALE3) para dividendos? Papel da holding está sendo cotada a um terço do preço da ação da mineradora, mas decisão de compra vai além do desconto. (Imagem: Maya Photos em Adobe Stock)
Comprar a ação da holdingou da empresa controlada é uma dúvida frequente entre investidores, porque as primeiras costumam negociar com desconto em relação às subsidiárias, o que pode representar uma oportunidade. E um caso recente salta aos olhos: Bradespar (BRAP4) ou Vale (VALE3) para dividendos, tendo em vista que enquanto o papel da mineradora atinge a casa dos R$ 85, a ação da holding está sendo negociada por quase um terço desse preço.
Antes de investir, porém, é importante avaliar se esse desconto se explica apenas pela estrutura da holding ou se reflete outros fatores de risco no médio e no longo prazo.
A ação da Vale subiu com força nos últimos meses. Segundo o TradeMap, as ações VALE3 avançaram 59,88% nos últimos seis meses e, em 2026, já acumulam ganhos de 11,28% até o fechamento do pregão de segunda-feira (26). O papel está sendo impulsionado por surpresas positivas com o minério de ferro e ganhos de eficiência de custos. No passado, analistas não esperavam que o produto de exportação da empresa alcançasse US$ 100 a tonelada, patamar que acabou sendo superado por vários meses. As projeções para 2026 se encontram entre US$ 95 e US$ 120.
Com as ações da mineradora cotadas a R$ 85,35, o espaço para valorização de VALE3 fica mais limitado. E para quem busca dividendos, quanto mais elevada a cotação menor o retorno com proventos, medido pelo chamado dividend yield(DY), que divide o preço do papel por quanto ele distribui aos acionistas. No caso da mineradora brasileira, analistas projetam DY anual entre 6% e 10% em 2026.
Por outro lado, os papéis da holdingBradespar (BRAP4) estão sendo negociados a R$ 24,15, cerca de um terço da cotação de VALE3, e surgem como alternativa para quem busca maior retorno em dividendos, de até 12%.
Assim, o E-Investidor consultou analistas e reuniu os principais pontos a se avaliar antes de comprar a ação da Bradespar para se expor à Vale com o objetivo de buscar dividendos maiores por um preço menor.
Preço não é valor
Igor Guedes, analista da Genial Investimentos, afirma que o preço da Bradespar bem abaixo do papel VALE3 não significa que a ação seja mais barata. “Bradespar custar um terço do que custa a Vale não é a conta correta a se fazer”, diz. Segundo ele, uma ação de R$ 10 pode ser mais cara do que outra de R$ 20.
Guedes explica que o preço depende do valor de mercado dividido pelo número total de ações da companhia e que o que define se um papel está caro ou barato são os múltiplos, como o EV/Ebitda, que relaciona o valor da empresa (EV) ao lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda). Neste momento, o múltiplo para VALE3 se encontra em 7,28 e o de BRAP3, 8,10. Por esse dado, Vale está mais barata que Bradespar.
Porém, se o desconto de holding entrar na conta, BRAP3 surge como opção mais barata que VALE3.
Quando a soma do valor de mercado das participações da holding em outras empresas fica abaixo do valor de mercado das ações da própria holding, analistas identificam aí um desconto. No caso da Bradespar, que tem investimento apenas na Vale e em nenhuma outra companhia mais, o tal desconto de holding chega hoje a 36,3%, acima da média histórica de 20%. O atual patamar do desconto de holding é o maior dos últimos 12 meses e um dos mais elevados em 5 anos.
Para o analista, esse desconto reflete um movimento de mercado. “Fundos passivos aumentaram posição em Vale, um fluxo que não veio para Bradespar, o que justifica a diferença de preço entre as ações. E investidores estrangeiros impulsionaram a cotação comprando VALE3 e os ADRs(recibos que permitem comprar nos EUA ações de empresas não americanas) lá fora”, afirma.
Bradespar tem risco embutido
O Bradesco é a companhia controladora da holding Bradespar (BRAP3), que possui investimentos unicamente em Vale (VALE3) e se remunera via dividendos da mineradora. (Imagem: Adobe Stock)
Alguns analistas afirmam que o desconto da BRAP4 reflete riscos no curto e médio prazo. Lucas Lima, analista-chefe da VG Research, destaca a disputa judicial entre Bradespar e Litel, empresa formada por grandes fundos de pensões, que pode gerar impacto de R$ 1,4 bilhão, podendo ultrapassar R$ 3 bilhões com correções monetárias e de juros. A disputa envolve o suposto descumprimento de um contrato de opção de compra à época da privatização da mineradora. “Até hoje as empresas discutem quem deve pagar essa multa. Na última decisão, em 2021, a Bradespar perdeu e recorreu”, lembra.
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Segundo Lima, se a Bradespar arcar com a indenização, pode haver nova queda nas ações BRAP4.
“Com multa de R$ 1,4 bilhão, o desconto recuaria para 28%. Mas com perda de R$ 3,5 bilhões, pode cair para 13%”, calcula.
Ele ressalta que o processo é demorado e complexo.
Regis Chinchila, head de Research da Terra, aponta riscos de governança. “O payout(porcentagem do lucro distribuído a acionistas) líquido da Bradespar pode variar por ano”, comenta, porque a holding pode mudar sua estratégia de alocação de capital ou não dar prioridade ao repasse dos proventos que recebe da Vale.
Como a Bradespar remunera o acionista?
Guedes explica que a Bradespar tem como principal fonte os dividendos e os juros sobre capital próprio (JCP) da Vale, mas esses valores não são repassados automaticamente nem de forma integral. “Pelo seu estatuto, a Bradespar se vê obrigada a distribuir no mínimo entre 25% e 30% do seu lucro líquido ajustado”, aponta.
Segundo ele, a holding retém parte do dividend yield, cerca de 2 pontos porcentuais em relação ao que a Vale paga. Por exemplo, se a mineradora remunera o acionista com um DY de 10%, a holding só repassa 8%. “Mas ao levar em consideração que o desconto de holding está aumentando em relação à média histórica, o dividend yield da Bradespar pode desacelerar menos do que a Vale”, avisa.
Bruno Oliveira, analista do Vida de Acionista, alerta que a Bradespar pode pagar apenas o mínimo.
“A holding não tem a obrigação de distribuir proventos generosos”, afirma.
Ele também observa que, se o desconto diminuir, pode não haver mais oportunidade atrativa em BRAP4. A Vale é mais previsível e distribui 30% do Ebitda ajustado, menos o investimento corrente, com pagamentos semestrais em março e setembro.
Vantagens e riscos de Bradespar
Chinchila afirma que a principal vantagem da Bradespar vem do desconto de holding, que permite exposição aos fundamentos da Vale pagando menos pela ação. “Isso resulta em um dividend yield superior e um valuation(valor de mercado da empresa) mais descontado”, aponta. Chinchila lembra ainda, por outro lado, da exposição direta aos riscos da Vale, como volatilidade do minério, dependência da China e riscos ambientais e regulatórios.
Hugo Queiroz, analista da L4 Capital, destaca que Bradespar oferece exposição à tese do minério de ferro e vê potencial de valorização entre 20% e 30% em BRAP4, além dos dividendos. “Para 2026, o retorno total (valorização e proventos) pode chegar a 15%”, afirma.
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Entre os riscos, Queiroz cita a menor liquidez por ser uma small cap(companhia considerada pequena quando comparadas com as demais na Bolsa), além de questões de governança, já que o Bradesco (BBDC3; BBDC4), controlador da holding, pode dar prioridade ao controle ante os dividendos.
Trocar Bradespar por Vale?
Os analistas não têm consenso sobre investir em Bradespar. Para VG Research e Vida de Acionista, a troca não faz sentido. Já Terra, Genial e L4 Capital enxergam oportunidade em alguns cenários.
Nos últimos cinco anos, a Vale apresentou dividend yield médio de 10,96%, enquanto a Bradespar registrou 19,10%, segundo o Investidor10. Para 2026, analistas projetam até 10% para a Vale e até 12% para a Bradespar. Pelo consenso do TradeMap, que considera a visão de grandes bancos e corretoras, a média de DY esperado é de 7,60% para Vale e 10% para Bradespar.
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Recomendações de bancos e corretoras para VALE3 e BRAP3
Além das análises para investidores que adotam a estratégia de ganhar com dividendos, as casas também fazem recomendações para a compra das ações das companhias, levando em consideração não apenas a remuneração passiva, mas também o potencial de valorização do preço do papel. Assim, entre oito recomendações consultadas pela reportagem, seis indicam compra de Vale e duas classificam o papel com status “manter”. Para Bradespar, apenas uma casa recomenda compra e outra, “manter”.
Guedes, da Genial, afirma que quando o desconto da Bradespar aumenta, investidores tendem a migrar para a holding. “O benefício estaria ligado apenas a aproveitar a janela de desconto, mas requer monitoramento”, diz. Mas quando o desconto atinge a média histórica é natural uma migração novamente para os papéis da Vale, pressionando a cotação de BRAP4.
Também vale a pena observar…
Por ser exposta à Vale, a Bradespar também sofre impacto dos fundamentos da mineradora. Sergio Biz, analista do GuiaInvest, afirma que com o Produto Interno Bruto (PIB) da China entre 4% e 4,7% e o minério acima de US$ 100, a Vale deve continuar gerando caixa e tendo eficiência nos custos, mas os dividendos antecipados em 2025 podem reduzir o retorno ao acionista neste 2026. Contudo, Biz não descarta alta no dividend yield se a empresa distribuir mais de 30% do Ebitda ajustado.
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João Ascoli, especialista da Amplus Capital, aponta que menores indenizações referentes aos acidentes de Mariana e Brumadinho em 2026 podem melhorar a previsibilidade dos proventos. Ele também destaca a importância de metais básicos como cobree níquelna geração de receita. “Estas commoditiespossuem fundamentos sólidos, janelas estruturais de investimento e já contribuíram com valorização recente da Vale”, afirma.
Sobre o projeto Simandou, mina africana localizada em Guiné e sob controle de concorrentes da Vale, Ascoli afirma que a iniciativa surgiu por pressão geopolítica da China, que busca maior acesso à cadeia de suprimentos. Apesar de ser atrativa no papel, ele destaca que a exploração tem se mostrado complexa e enfrenta grandes desafios logísticos.
“É um projeto que terá um impacto menor do que esperado pelo mercado. Simandou é um grande desafio, em um país muito instável, a 600 km de portos”, diz. Segundo ele, a oferta não será suficiente para cobrir toda a demanda e a capacidade total de produção de Simandou só deve ser atingida em 2030.