Bradsaúde: o que analistas veem na nova empresa do Bradesco (BBDC4) que já nasce com R$ 52 bi em receitas estimadas
Reorganização reúne planos de saúde, odontologia, hospitais e diagnósticos em uma única companhia listada via OdontoPrev (ODPV3); analistas veem escala, geração de caixa e potencial de dividendos no longo prazo
Bradesco (BBDC4) cria a Bradsaúde ao reunir ativos de saúde com a OdontoPrev; nova empresa pode nascer com cerca de R$ 52 bilhões em receitas. (Foto: Adobe Stock)
A criação da Bradsaúde marca uma tentativa do Bradesco(BBDC3; BBDC4) de reorganizar e dar mais visibilidade ao seu braço de saúde. Um movimento que, na visão de especialistas, pode fortalecer atributos importantes para investidores de longo prazo, como previsibilidade de receitas, escala operacional, potencial de geração de caixa e dividendos. A nova companhia surgirá a partir da combinação de ativos de saúde do conglomerado com a estrutura da OdontoPrev (ODPV3), que passará a ser o veículo listado no mercado financeiro.
O objetivo é concentrar em uma única plataforma negócios que hoje estão espalhados dentro do grupo, incluindo planos de saúde, odontologia e participações em hospitais e diagnósticos.
Segundo relatório do BTG Pactual, a nova empresa nascerá já com grande escala. Em bases pro forma (estimativas financeiras ajustadas como se uma determinada estrutura ou operação já estivesse em vigor) para 2025, a Bradsaúde teria cerca de R$ 52 bilhões em receitas e R$ 3,6 bilhões em lucro líquido, além de um retorno sobre patrimônio (ROE) estimado em 23,7%, números que indicam um negócio robusto dentro do setor de saúde suplementar.
Para Antonio Pavesi, especialista em finanças e investimentos, a reorganização significa mais do que um ajuste societário. Trata-se de uma mudança estratégica na forma como o grupo pretende posicionar seu ecossistema de saúde.
“No fato relevante, o banco fala explicitamente em simplificar a estrutura, ganhar eficiência administrativa e capturar benefícios com a ampliação de uma oferta integrada de soluções em saúde e odontologia”, afirma.
Na prática, a nova companhia reunirá ativos que vão desde seguros de saúde até investimentos hospitalares e diagnósticos. Entre eles estão participações ligadas à Atlântica Hospitals, parcerias hospitalares com a Rede D’Or (RDOR3) e a participação no grupo de diagnósticos Fleury (FLRY3), formando uma plataforma diversificada dentro do setor.
Estrutura acionária final da Bradsaúde, elaborada pela XP Investimentos.
Transparência e “equity story” mais claro
Um dos pontos centrais da reorganização envolve permitir que o mercado avalie o negócio de saúde separadamente do banco. Hoje, esses ativos ficam diluídos dentro do múltiplo consolidado do conglomerado financeiro. De acordo com relatório da XP Investimentos, a criação de uma empresa listada com governança própria tende a aumentar a transparência e facilitar a precificação do negócio.
Na mesma linha, analistas do Itaú BBA afirmam que a operação tem como principal objetivo destravar valor. Segundo a casa, negócios financeiros historicamente apresentam múltiplos de lucro mais baixos que empresas do setor de saúde.
“A Bradsaúde tende a melhorar transparência e o ‘equity story‘ [narrativa de investimento de uma empresa para o mercado acionário] porque separa o bloco de saúde em uma estrutura única, facilitando acompanhar performance, margem, geração de caixa e retorno do segmento”, explica Pavesi.
Potencial de reprecificação na Bolsa
Em suas estimativas iniciais, o Itaú BBA calcula que a Bradsaúde deve começar com valor de mercado em torno de R$ 37,6 bilhões, o que implicaria um múltiplo Preço/Lucro (P/L) de 9,6 vezes. Caso investidores passem a precificar a companhia mais próxima dos múltiplos observados em empresas comparáveis do setor – por volta de 12,7 vezes o lucro – haveria espaço para uma valorização adicional no preço da ação. Nesse cenário, os analistas estimam potencial de valorização de cerca de 7% para a participação do Bradesco na nova companhia.
Além da reprecificação, o banco também destaca que a reorganização melhora a eficiência de capital do banco, com impacto positivo estimado de aproximadamente 62 pontos-base no índice de capital Common Equity Tier 1 (CET1, que indica a solidez financeira de um banco) após a conclusão da operação.
Estrutura acionária e flexibilidade futura
Pelo desenho inicial da transação, o Bradesco deverá manter 91,35% de participação na Bradsaúde, enquanto os acionistas minoritários da OdontoPrev ficarão com 8,65% do capital.
Segundo o Itaú BBA, o baixo free float (porcentual de ações que circula livremente na Bolsa de Valores e pode ser negociado pelos investidores) inicial cria opcionalidade para ofertas secundárias futuras, que podem aumentar a liquidez da ação, alinhar a empresa aos requisitos de dispersão do Novo Mercado e, eventualmente, gerar recursos adicionais para financiar crescimento ou reforçar o caixa do banco.
Escala e crescimento no setor de saúde
O Bradesco anunciou a Bradsaúde para consolidar na Odontoprev as participações societárias de diversos negócios no segmento de saúde do banco. (Imagem: Drazen em Adobe Stock)
Outro fator que pode reforçar o perfil estrutural do negócio vem dadiversificação dentro do ecossistema de saúde. A nova empresa nasce com presença em diferentes verticais do setor – seguros, odontologia, hospitais e diagnósticos. Segundo o relatório do BTG, a nova estrutura cria uma plataforma capaz de acelerar a expansão nessas áreas, com maior flexibilidade de alocação de capital e possibilidade de futuras captações no mercado.
“A estrutura corporativa deve aumentar significativamente a flexibilidade de alocação de capital e facilitar futuras captações”, destaca o relatório.
A XP também aponta que a companhia já surge como um dos maiores players do setor de saúde suplementar no País, com cerca de 12% de participação no mercado de seguros de saúde.
A estratégia, no entanto, não passa por verticalização completa. A gestão deixou claro em conferência com investidores que pretende manter uma abordagem baseada em parcerias com operadores hospitalares, preservando um modelo de rede aberta.
Eficiência operacional e geração de caixa
Do ponto de vista financeiro, a consolidação dos ativos em uma única companhia pode aumentar a eficiência operacional e melhorar a previsibilidade de resultados, duas características valorizadas por investidores que buscam ações de longo prazo.
Segundo Pavesi, concentrar decisões estratégicas e a alocação de capital em um único centro pode gerar ganhos de sinergia entre diferentes frentes do negócio.
“Em tese, a consolidação pode, sim, tornar o caixa mais eficiente e previsível, porque concentra decisão estratégica comercial e alocação de capital em um único centro, com potencial de sinergias entre planos, rede própria/serviços e odontologia”, explica.
Bradsaúde pode pagar dividendos?
Para investidores interessados em renda passiva, a questão central envolve saber se a Bradsaúde pode se tornar uma boa pagadora de dividendosao longo do tempo. Neste ponto, a avaliação dos especialistas ainda é cautelosa. Pavesi ressalta que, embora a nova estrutura possa aumentar a eficiência e a rentabilidade, o foco inicial da reorganização não está na distribuição imediata de proventos.
“Se a estrutura aumentar eficiência, escala e rentabilidade do bloco de saúde e se isso se traduzir em mais caixa e retorno, a capacidade de distribuição pode melhorar ao longo do tempo”, ressalta. Mas, afirma, o objetivo imediato da Bradsaúde, após o anúncio do Bradesco, é organizar, integrar e evidenciar valor.