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Investimentos

O risco de investir em CDBs após Master e Will Bank: o que a taxa de retorno esconde sobre liquidez e emissor do ativo

Episódio reacende debate sobre liquidez real, risco de crédito e por que rentabilidade não deve ser prioridade quando o objetivo é segurança imediata

Por Isabela Ortiz

22/01/2026 | 5:30 Atualização: 21/01/2026 | 21:02

O caso do Banco Master reacendeu o debate sobre os limites do FGC e os riscos de usar CDBs de bancos menores como reserva de emergência, mesmo com taxas atrativas. (Foto: Adobe Stock)
O caso do Banco Master reacendeu o debate sobre os limites do FGC e os riscos de usar CDBs de bancos menores como reserva de emergência, mesmo com taxas atrativas. (Foto: Adobe Stock)

Os casos de Banco Master e Will Bank funcionaram como um divisor de águas para muitos investidores pessoa física. Relatos de atrasos de pagamentos, perda temporária de acesso ao dinheiro e insegurança quanto à efetividade das garantias reacenderam questionamentos sobre o risco de investir em Certificado de Depósito Bancário (CDBs) de bancos menores. A resposta curta é que o produto não deixará de fazer sentido nas carteiras de investimentos, mas os episódios escancaram que a aplicação vai muito além de uma taxa atrativa e do carimbo do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

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Ao longo dos últimos anos, CDBs de bancos médios e pequenos ganharam espaço impulsionados por retornos acima da média, muitas vezes apresentados como uma combinação “sem risco” de rentabilidade elevada e proteção institucional. Os casos Banco Master e Will Bank mostraram que essa leitura é incompleta. Mesmo com a existência do FGC, o investidor ficou exposto à indisponibilidade do dinheiro.

Na avaliação de especialistas, o episódio não invalida a classe de ativos, mas obriga o investidor a diferenciar melhor os papéis que cada produto cumpre dentro da carteira. Um CDB pode ser adequado para determinados objetivos, mas não é automaticamente seguro apenas por contar com garantia formal. A solidez do emissor, o modelo de negócio, a governança e a liquidez real do produto passam a ser critérios centrais.

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O FGC, nesse contexto, continua relevante, mas não resolve tudo. O fundo mitiga perdas financeiras em caso de quebra, mas não garante acesso imediato aos recursos nem substitui a análise do risco de crédito. Quando um CDB depende do FGC para ser percebido como seguro, o risco já se materializou: o ativo perde liquidez e o dinheiro pode ficar travado por um período indeterminado.

Essa distinção ajuda a explicar por que os casos recentes afetaram tanto a percepção de risco dos investidores de CDBs. A promessa implícita de que “está tudo protegido” criou, ao longo do tempo, uma sensação de segurança quase absoluta, que não corresponde à realidade. A planejadora financeira Patrícia Palomo, CFP pela Planejar, aponta que o erro começa no conceito. Para ela, o investidor que compara apenas taxas “ignora o risco de crédito e superestima o papel do FGC“, justamente no momento em que deveria ser conservador ao máximo.

“O caso Master mostrou que o comportamento de busca por retorno diferenciado e o excesso de confiança nas estruturas de proteção podem levar a decisões equivocadas”, enfatiza.

A confusão sobre o alcance do FGC aparece de forma recorrente. Muitos investidores acreditam que a garantia elimina totalmente o risco, quando, na prática, apenas o mitiga. Além disso, há custos pouco percebidos. Mesmo quando o ressarcimento ocorre, ele é feito com base no saldo no momento da liquidação da instituição, sem correção pelo período em que o dinheiro fica indisponível. Isso significa que o investidor perde tempo e rendimento, como mostra esta reportagem.

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Em casos como o do Banco Master e o do Will Bank, CDBs que prometiam cerca de 120% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI, principal parâmetro de rendimento nos investimentos) acabaram, após meses de recursos congelados, anulando o prêmio de risco que justificava a escolha inicial.

Após Master e Will Bank: sinais que o investidor deve observar

Do ponto de vista sistêmico, o episódio também tende a gerar mudanças de comportamento. Matheus Falci, sócio da ONE Investimentos, avalia que, embora o caso tenha origem em um fator específico, o efeito psicológico ganha contornos mais amplos.

“É comum observar um movimento de flight-to-quality (fuga para a qualidade/segurança, em tradução livre), no qual os investidores redirecionam recursos para ativos percebidos como de risco inferior, como títulos públicos federais, crédito privado high-grade (alta qualidade) e títulos de bancos S1 (instituições financeiras de maior porte e importância)”, afirma.

Segundo ele, eventos de crédito são difíceis de antecipar, mas há sinais que podem ser observados:

  • Conhecer o controlador da instituição;
  • Entender o modelo de negócio;
  • Entender também a composição da carteira de crédito; e
  • Acompanhar indicadores básicos, como lucro líquido, retorno sobre patrimônio (ROE) e Índice de Basileia.

Há também uma leitura mais crítica sobre o papel do FGC no ecossistema financeiro. Para Lucas Sigu, sócio-fundador da Ciano Investimentos, o caso Master foi singular, com indícios de gestão fraudulenta, mas serve como alerta permanente. “Bancos pequenos, médios ou grandes, como qualquer empresa, podem quebrar”, explica. Na visão dele, o excesso de proteção pode gerar incentivos perversos.

“Esse sistema protecionista e paternalista cria a possibilidade de bancos pensarem: ‘Vou crescer porque qualquer coisa meu cliente estará protegido pelo FGC’. Isso acaba atraindo mal-intencionados”, esclarece Sigu.

Ainda assim, ele reconhece que, diante da baixa educação financeira no País, a existência do fundo ainda cumpre um papel, desde que acompanhada de mais capacitação do investidor sobre a relação entre risco, retorno e liquidez.

Opções seguras e sem “risco de liquidação”

Na prática, o debate sobre como construir uma carteira segura após os casos Banco Master e Will Bank acaba convergindo para um ponto comum: como reduzir ao máximo os riscos invisíveis.

Para Patrícia Palomo, o Tesouro Selic se consolida como a alternativa mais robusta justamente por eliminar o risco de crédito privado e oferecer liquidez diária com funcionamento previsível. Fundos DI (fundos de renda fixa de baixo risco) também podem cumprir esse papel, desde que sejam simples, com carteira majoritariamente composta por títulos públicos, taxa de administração baixa e sem exposição a crédito privado.

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O problema, segundo ela, é que “o risco escondido costuma estar na composição da carteira e nos prazos de cotização e resgate”, o que exige atenção redobrada do investidor.

Já as contas remuneradas transmitem uma sensação de segurança que podem não corresponder à realidade, pois dependem da saúde financeira da instituição e nem sempre contam com segregação patrimonial clara.

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Nesse contexto, a diversificação faz sentido, desde que não sacrifique simplicidade e acesso imediato ao dinheiro. “O equilíbrio ideal está em manter uma parte em liquidez imediata, acessível em minutos, e outra em liquidez de um ou dois dias, em estruturas de altíssima segurança”, afirma Palomo.

Matheus Falci, da ONE Investimentos, amplia essa discussão ao lembrar que as escolhas devem ser adaptadas à realidade de cada investidor. Não existe uma regra fixa de “x meses de despesas” válida para todos. Quando bem dimensionada, a carteira do investidor permite que ele busque retornos adicionais em ativos mais arriscados sem comprometer a segurança financeira.

Liquidações extrajudiciais provocaram ajustes de preço e comportamento

Do ponto de vista de mercado, as recentes liquidações extrajudiciais dos bancos também provocaram ajustes de preço e comportamento. Para Lucas Sigu, da Ciano Investimentos, a desconfiança em relação a bancos pequenos já está se refletindo na remuneração dos produtos. Bancos maiores, segundo ele, aproveitaram o momento para reduzir taxas, enquanto CDBs de bancos menores, antes supervalorizados, passaram por um ajuste mais saudável de precificação.

Na visão de Sigu, não há, por ora, um risco sistêmico relevante, e o FGC ainda teria fôlego para lidar com a quebra pontual de mais um ou dois bancos pequenos. O alerta, porém, permanece.

  • Leia também: “Se quebrar outro banco, fica difícil do FGC honrar com as garantias”, diz Marília Fontes

Mesmo quando o ressarcimento pelo FGC acontece, o problema central continua sendo o tempo. Se o investidor precisa do dinheiro no curto prazo, meses de espera tornam a reserva ineficaz. Por isso, Sigu defende que o investidor dê prioridade a concessões, segurança e liquidez. Tesouro Selic aparece novamente como referência, seguido por estruturas de caixa extremamente líquidas e protegidas. CDBs só seriam aceitáveis, segundo ele, em casos muito específicos, emitidos por bancos grandes e sólidos – e ainda assim com cautela.

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Essa visão é reforçada por Valeria Vanessa Eduardo, da Faculdade Anhanguera, que classifica o Tesouro Selic como o ativo mais alinhado às opções seguras, uma vez que contém segurança soberana, liquidez curta e transparência total. Contas remuneradas em grandes bancos podem funcionar pela disponibilidade instantânea, mas escondem riscos como a interrupção da remuneração sem aviso e menor previsibilidade por não serem investimentos formais.

Do lado institucional, a leitura é de que o sistema financeiro brasileiro segue sólido e bem regulado. Fernandes, presidente do Conselho de Administração do Sicoob Credicom, descarta a ideia de efeito dominó, mas reforça que a atenção do investidor deve estar voltada à credibilidade das instituições.

Ética, governança, compliance (conjunto de práticas e controles de uma empresa), auditorias e transparência são elementos centrais, especialmente para quem investe diretamente em títulos bancários. Taxas persistentemente acima do mercado, comunicação pouco clara e incentivos voltados apenas ao crescimento de captação são sinais de alerta que não devem ser ignorados.

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Reserva de emergência como teste de risco dos CDBs

Quando o assunto são alternativas para a reserva de emergência, o consenso entre especialistas diz que a simplicidade e acesso imediato devem vir antes de qualquer tentativa de “bater o CDI”. Para Rafael Costa, fundador da Cash Wise Investimentos, “reserva de emergência precisa estar disponível 24 por 7 e ser extremamente líquida e sem risco“.

Ele vai direto ao ponto ao criticar a busca por retorno nesse tipo de recurso.

“Não faz sentido colocar reserva de emergência em CDB de banco pequeno ou em qualquer investimento que não permita resgate imediato.”

Entre as opções mais citadas estão a poupança (pela liquidez e baixo risco), fundos de liquidez imediata atrelados ao risco soberano e o Tesouro Selic. Em contrapartida, títulos prefixados ou atrelados à inflação (Tesouro IPCA+) não são indicados, pois estão sujeitos à marcação a mercado e podem gerar perdas justamente no momento da necessidade.

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A professora Valeria Vanessa Eduardo, da Faculdade Anhanguera, reforça que “reserva de emergência não é sobre rentabilidade, mas sobre disponibilidade e segurança real”. Para ela, ofertas muito acima de 100% do CDI são um sinal de alerta, não de oportunidade.

“Bancos mais frágeis precisam pagar mais para atrair investidores. O FGC não elimina todos os riscos e o dinheiro não volta imediatamente”, explica a professora.

Liquidez real e emissor sólido sem depender do FGC para parecer sólido

Além disso, ela chama atenção para problemas de liquidez, como carências, multas ou impossibilidade de resgate antecipado, comuns em CDBs mais agressivos. A recomendação passa por verificar se a instituição é supervisionada pelo Banco Central (BC), dar prioridade a produtos com resgate em D+0 ou D+1, sem janelas ou penalidades, e aceitar retornos próximos ao CDI em troca de previsibilidade e preservação de capital.

  • Leia mais: Como compor uma reserva financeira com o método 50-30-20? 

Do lado institucional, a visão é de que instrumentos como o FGC e o Fundo Garantidor do Cooperativismo de Crédito (FGCoop) são importantes para dar robustez ao sistema, mas não substituem a análise individual. João Augusto Oliveira Fernandes, presidente do Conselho de Administração do Sicoob Credicom, destaca que o investidor deve observar concentração por contraparte, qualidade dos ativos e o descasamento entre prazos de captação e de alocação.

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“Retornos acima da média podem refletir prêmios associados a risco de liquidez e menor capacidade de absorção de choques”, alerta. Ele também ressalta o papel da governança na distribuição dos produtos, com avaliação adequada de suitability (teste de adequação que define o perfil do investidor), transparência na comunicação de riscos e alinhamento de incentivos entre instituições, distribuidores e investidores.

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No fim, os casos Banco Master e Will Bank deixou a lição de que não existe investimento mágico. Rentabilidade elevada não compensa a perda de acesso ao dinheiro quando o risco se materializa. CDBs continuam existindo e podem fazer sentido em contextos específicos, mas apenas quando a liquidez é real, o emissor é sólido e o produto não depende do FGC para parecer seguro.

Para quem perdeu a confiança em investir em Certificado de Depósito Bancário (CDBs) de bancos menores, alternativas como Tesouro Selic, fundos de liquidez imediata e até a poupança voltaram ao centro da discussão, lembrando que, em momentos de emergência, o mais valioso não é o retorno extra, mas a certeza de que o dinheiro estará disponível.

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