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Investimentos

Renda fixa é opção segura, mas você também pode perder dinheiro

Ao investir em renda fixa, o investidor pode ganhar menos do que esperava, perder dinheiro ou até ter problemas para receber

Por Thiago Lasco

02/04/2020 | 7:00 Atualização: 03/10/2022 | 11:20

Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

As aplicações financeiras em renda fixa sempre foram vistas pelo investidor como uma opção segura, além de um importante colchão de liquidez nas carteiras.

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Mas a crise causada pelo novo coronavírus mostrou que quando o assunto é investimento, não há porto seguro. Nas primeiras semanas da pandemia, esses ativos se tornaram mais atraentes por conta das incertezas nos mercados.

O que muitos não sabem, no entanto, é que a renda fixa também tem seus riscos. O investidor pode ganhar menos do que esperava, perder dinheiro ou, em situações excepcionais, até ter problemas para receber.

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Enquanto a renda variável é cercada pela imprevisibilidade, pois o valor das ações pode sofrer oscilações bruscas ao sabor dos acontecimentos, a renda fixa se caracteriza por uma maior segurança, sejam títulos pré-fixados ou pós-fixados.

Os pré-fixados são aqueles que você sabe desde o início qual será a rentabilidade final, enquanto os pós-fixados têm um indicados que fará a composição da remuneração.

Independentemente da escolha, o mais importante é que o poupador saiba qual será o critério de remuneração – com isso, basta deixar o tempo fazer o resto.

Não por acaso, a renda fixa é a queridinha dos mais conservadores, que preferem a proteção do patrimônio a correr sustos em busca de maiores ganhos. Mas, na verdade, embora seja uma opção mais segura, ainda assim a receita para o sucesso depende do tipo de aplicação e de quando o investidor tenta fazer o resgate.

Títulos pós-fixados: risco de crédito (pequeno)

Nos títulos pós-fixados, a rentabilidade do título acompanha um indicador financeiro, como a taxa Selic. O investidor não sabe de antemão quanto irá receber no vencimento, ele sabe apenas que os ganhos corresponderão a um percentual desse indicador: 110% do CDI (que acompanha a Selic), por exemplo.

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O sobe e desce da taxa de juros vai interferir na rentabilidade. O investidor do exemplo acima não deixará de receber 110% do CDI, mas isso significará um ganho maior ou menor conforme a Selic suba ou caia. De qualquer forma, o retorno será positivo.

O risco de não receber está ligado à saúde financeira do emissor, que pode ser o próprio governo (no caso de títulos do Tesouro Direto) ou uma instituição financeira (no caso de um CDB ou caderneta de poupança, por exemplo). É o chamado risco de crédito: quando o devedor não consegue cumprir com suas obrigações.

“O risco do título público é o risco-país: muito remoto. A chance de perder dinheiro é praticamente zero, o investidor só não recebe se o país quebrar”, afirma Erick Scott Hood, gestor da Guide Investimentos.

Já as cadernetas de poupança e os títulos de CDBs, LCIs e LCAs contam com a proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Se a instituição que recebeu a quantia quebrar, o FGC indeniza o investidor, dentro de um limite.

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“O socorro do FGC é de até R$ 250 mil por CPF, em cada instituição financeira. E não pode passar de R$ 1 milhão no total. Se o investidor tiver cinco investimentos de R$ 250 mil e os cinco bancos quebrarem, ele irá receber R$ 1 milhão – e deixará de receber R$ 250 mil”, diz André Souza Fernandes, superintendente de produtos financeiros da Ágora Investimentos.

Títulos prefixados: marcação a mercado

Nos títulos prefixados, a regra é diferente. O investidor já sabe quanto receberá no final do período de aplicação – 7% sobre o montante aplicado, por exemplo. Muita atenção para este trecho da frase anterior: “no final do período de aplicação”. Ou seja, é preciso carregar o título até o vencimento para receber a remuneração prevista.

“Se ele carregar o título até o vencimento, vai receber exatamente o que foi combinado, sem surpresas. O risco de flutuação – para cima ou para baixo – existe quando o título é vendido no meio do caminho, antes do fim do prazo”, afirma Fernando Fridman, head de produtos da Ourinvest.

Isso acontece porque, no caso de venda antecipada, o título não terá o valor pago na compra: em vez disso, será avaliado pelo valor de mercado. O que determina esse valor de mercado é a taxa de juros vigente no momento da venda. Pode ser que, entre a compra e a venda, a taxa de juros tenha mudado e isso fará toda a diferença.

“Se a taxa de juros oscilar para cima, o juro praticado no momento da venda passará a ser maior que o oferecido pelo título. Com isso, o título que paga uma taxa menor será menos atrativo e, portanto, ele será vendido com deságio. O investidor perde dinheiro”, explica Fridman.

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“Por outro lado, se a taxa de juros oscilar para baixo, o juro praticado no mercado passará a ser menor que o oferecido pelo título. Com isso, esse papel se tornará mais atrativo e, portanto, será valorizado na hora da venda. O investidor ganha dinheiro.”, diz.

Essa operação de precificação do título conforme o valor do momento é conhecida em “economês” como marcação a mercado. Achou tudo muito confuso? Calma! O sócio-diretor da Ativa Investimentos, Luís Barone, explica de um jeito bem didático.

“Digamos que eu investi R$ 100 mil em um título público de três anos, com taxa prefixada de 7% ao ano. Considerando juros simples para facilitar a compreensão, eu terei R$ 121 mil no final dos três anos. Depois de um ano, meu título estará valendo R$ 107 mil, na marcação de curva dele”, propõe o especialista.

“Só que a taxa de juros vigente, que era de 7% ao ano quando eu comprei o título, subiu para 10% ao ano. Ou seja, agora o governo está vendendo o mesmo título oferecendo uma remuneração de 10% para o investidor. Se eu fizer a venda antecipada do meu título de três anos agora, depois de um ano, quanto ele valerá?”, prossegue Barone.

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“Ele valerá R$ 121 mil, dividido por 1,2 (10% ao ano, 2 anos faltando para o vencimento). O resultado da conta é R$ 101 mil. E não os R$ 107 mil que eu ganharia originalmente. Qual é o meu risco? Eu coloquei R$ 100 mil e vou ganhar só 1%, o meu custo pelo resgate antecipado foi de 6%. Nesse exemplo, eu não cheguei a perder dinheiro, mas deixei de ganhar aquilo que achava que iria ganhar.”

No caso de títulos atrelados à inflação, o raciocínio é o mesmo. Se você comprou um papel do Tesouro Direto (NTN-b, também conhecido como Tesouro IPCA) que pagava, no vencimento, a variação do IPCA mais 4% e, na hora da venda antecipada, o governo estiver oferecendo esse título pagando o IPCA mais 5%, você perderá dinheiro.

Diante desse cenário, se, por outro lado, a nova taxa oferecida for IPCA mais 3%, o seu papel valerá mais do que o que você pagou e você terá lucro na revenda.

Moral da história? Antes de comprar um título prefixado ou atrelado à inflação, é preciso pensar com calma por quanto tempo você pretende deixar o dinheiro aplicado. Para não ter nenhuma surpresa, só mesmo ficando com o papel na mão até o fim do prazo.

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“Se você estiver confortável com o nível de retorno do título que comprou, fique com ele até o vencimento”, recomenda Fridman, da Ourinvest. “Mas é claro que mudanças de planos podem levar você a mudar de ideia (e vender o título antes do que esperava): resolvi casar, achei um apartamento maravilhoso, essas coisas acontecem”, explica.

Quanto mais longo for o vencimento do título, maior será a remuneração. Por outro lado, será mais difícil para você prever que não precisará movimentar o dinheiro durante tanto tempo. E também mais difícil será prever o comportamento da taxa de juros em um horizonte tão amplo.

É por isso que se diz que os investimentos prefixados têm risco maior. Mas, se você não vender o papel antes do vencimento, não terá nenhuma surpresa ao final.

Crédito privado: risco de crédito, maior

Vamos também falar sobre riscos do crédito privado, uma modalidade de investimento menos acessada pelo pequeno investidor, mas que também faz parte da renda fixa.

Nesse tipo de investimento, o poupador não está emprestando dinheiro para o governo (como no Tesouro Direto) ou para uma instituição financeira (como na poupança e no CDB), mas sim para uma empresa não financeira.

Os exemplos mais conhecidos de crédito privado são a debênture incentivada, o CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários) e o CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio).

Esses papéis também podem ser prefixados, pós-fixados ou atrelados à inflação – hoje há debêntures que pagam a variação do IPCA mais 4%, por exemplo – e não são sujeitos à incidência de Imposto de Renda.

O risco do investidor também é o risco de crédito: a empresa pode quebrar e não honrar com suas obrigações. Neste caso, porém, o investidor não conta com a proteção do FGC, o que torna a operação muito mais arriscada.

Na prática, o risco depende da capacidade de pagamento da empresa que emite o título: uma debênture emitida pela Petrobras ou pela Vale não é tão arriscada, se considerarmos que a chance de essas empresas quebrarem é pequena.

Já uma academia de ginástica está mais sujeita a oscilações em sua capacidade de pagamento – vide o que ocorreu, por exemplo, em tempos de coronavírus, que forçou esses estabelecimentos a interromper as atividades por tempo indeterminado.

“O crédito privado é uma seara mais complexa para o pequeno investidor. Dependendo da empresa para quem ele vai emprestar, é um risco para o qual ele pode não estar acostumado”, diz Barone, da Ativa Investimentos.

“É preciso ter estômago para oscilações, porque a taxa de juros oscila e a capacidade de pagamento do tomador final também oscila. O investidor tem de tentar escolher setores em que o risco é menor. Por isso, é melhor procurar um gestor profissional para ajudá-lo na escolha do ativo”, explica o especialista.

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