FGC garante até R$ 250 mil: como proteger patrimônios maiores na renda fixa
Especialistas explicam como diversificar investimentos entre bancos, prazos e tipos de ativos para reduzir riscos e não depender apenas da proteção do Fundo Garantidor de Créditos
Diversificar entre bancos, prazos e tipos de ativos é uma das estratégias recomendadas por especialistas para proteger patrimônios acima do limite de cobertura do FGC (Foto: Adobe Stock)
Proteger um patrimônio acima de R$ 250 mil em renda fixa exige mais do que apenas contar com a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Embora o mecanismo seja um dos principais instrumentos de proteção do sistema financeiro brasileiro, ele possui limites, atualmente de até R$ 250 mil por CPF por instituição financeira, com teto global de R$ 1 milhão a cada quatro anos. Por isso, planejadores financeiros defendem que investidores com valores maiores devem estruturar a carteira de forma diversificada, reduzindo a dependência dessa proteção.
A primeira camada dessa estratégia passa pela diversificação entre instituições financeiras, prazos e tipos de ativos. Segundo o professor Wagner Pagliato, coordenador do curso de Ciências Contábeis da Unicid, essa é uma das formas mais eficientes de diluir o risco.
“Uma estratégia prática de diversificação envolve três dimensões principais: entre bancos, por prazo e por tipo de emissor”, afirma.
Na prática, isso significa evitar concentrar todo o patrimônio em um único banco ou em um único tipo de produto. “Um exemplo para um investidor com patrimônio entre R$ 300 mil e R$ 400 mil seria distribuir cerca de R$ 200 mil em CDB [Certificado de Depósito Bancário] de um banco médio, R$ 200 mil em LCI [Letra de Crédito Imobiliário] ou LCA [Letra de Crédito do Agronegócio] de outra instituição e entre R$ 50 mil e R$ 100 mil em um banco de grande porte ou no Tesouro Selic“, defende o professor.
Organize seus investimentos
Além da divisão entre instituições, especialistas ressaltam a importância de organizar os investimentos ao longo do tempo. Esse modelo é conhecido como “escada de vencimentos”: parte do dinheiro permanece disponível enquanto outra fica aplicada em prazos maiores.
Pagliato explica que essa estrutura permite equilibrar liquidez e rentabilidade.
“Um exemplo [para o equilíbrio] seria manter 20% com liquidez diária, 30% com prazo de um ano, 30% entre dois e três anos e 20% em prazos mais longos”, afirma.
Dessa forma, o investidor consegue aproveitar taxas mais atrativas de prazos maiores sem abrir mão de uma parcela disponível para emergências ou oportunidades.
Essa lógica também é reforçada por planejadores financeiros que acompanham a gestão de patrimônio de investidores de renda fixa. A professora do Cesuca Lilian Martins, especialista em contabilidade e planejamento financeiro, destaca que a diversificação precisa considerar três níveis de emissores:
Governo;
Sistema bancário; e
Empresas.
Segundo ela, uma solução prática é dividir o patrimônio em três partes, cada uma com objetivos diferentes. Cerca de 30% a 40% do dinheiro deve ficar em aplicações com liquidez, como CDBs com resgate diário ou LCIs e LCAs com prazos curtos. Outra parcela semelhante pode ser direcionada a investimentos de médio prazo (entre um e três anos) como CDBs prefixados e letras de crédito.
Já a terceira parte da carteira busca maior rentabilidade. “Considerando a terceira divisão do patrimônio, em que o objetivo é buscar a maior rentabilidade, pode-se aplicar de 20% a 30% dos recursos em alternativas como CDBs de prazo maior, letras financeiras, debêntures e Tesouro Direto”, explica.
O avanço do patrimônio também muda o foco da estratégia. Quando o investidor começa a se aproximar do limite global do FGC, a preocupação deixa de ser apenas aproveitar boas taxas e passa a envolver gestão de risco de crédito.
“Uma regra simples usada por planejadores financeiros é manter até 20% ou 25% do dinheiro em cada banco, cerca de 30% a 40% em títulos públicos e uma parte com liquidez diária”, diz Martins. Essa estrutura ajuda a equilibrar segurança, liquidez e rentabilidade.
Os títulos públicos, inclusive, costumam ganhar espaço nas carteiras justamente porque não dependem da proteção do FGC. Emitidos pelo Tesouro Nacional, eles possuem risco soberano e podem absorver parte do patrimônio sem que o investidor precise pulverizar recursos em diversas instituições financeiras.
Pagliato observa que essa migração costuma ocorrer principalmente quando o investidor ultrapassa vários limites do fundo garantidor ou quando o cenário econômico exige mais cautela. Nesse contexto, o Tesouro Selic costuma funcionar como uma reserva estratégica. O título apresenta liquidez diária, baixa volatilidade e risco de crédito reduzido.
Pense fora da caixa
Outra frente de proteção envolve ampliar a diversificação para além da renda fixa bancária tradicional. Para o economista Fabiano Siqueira dos Prazeres, professor da Universidade de Franca (Unifran), incluir diferentes classes de ativos pode ajudar a reduzir a dependência do FGC.
“Para o investidor que acumulou cerca de R$ 250 mil em renda fixa, o melhor caminho hoje é diversificar também com dólar, algumas ações de empresas sólidas e instrumentos como LCI e LCA, que possuem isenção de imposto de renda”, afirma.
Ele acrescenta que parte da carteira pode ser direcionada a ativos de proteção patrimonial, especialmente em momentos de maior incerteza econômica.
Na visão do economista, investidores com patrimônio ainda maior precisam ampliar essa diversificação. “Para quem tem valores superiores a R$ 500 mil em renda fixa, a estruturação de uma carteira com imóveis, ouro, dólar e letras de crédito ajuda a garantir estabilidade na rentabilidade e no retorno”, defende.
O FGC não elimina o risco de crédito
Outro ponto essencial é compreender que o FGC funciona como uma proteção, mas não elimina completamente o risco de crédito das instituições financeiras. Por isso, a análise do emissor também deve fazer parte da decisão de investimento.
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O planejador financeiro Carlos Castro, certificado CFP pela Planejar, destaca que mesmo títulos cobertos pelo fundo exigem atenção à qualidade da instituição emissora.
“Mesmo que tenha a cobertura pelo FGC, o seguro não mitiga o risco de crédito, o da instituição ter um default [quando a empresa não consegue pagar uma dívida no prazo acordado]”, afirma.
Por isso, segundo ele, a diversificação precisa ocorrer principalmente entre emissores diferentes, levando em conta também o rating (nota) de crédito das instituições.
Castro reforça ainda a importância da escada de vencimentos como ferramenta de gestão de risco. Ao distribuir aplicações entre prazos curtos, médios e longos, o investidor gera liquidez periódica e reduz a exposição concentrada em um único momento.
“Não deixar tudo concentrado no mesmo vencimento ajuda a diluir o risco de crédito e a ajustar a liquidez da carteira”, diz.
A melhor forma de proteger patrimônios maiores não é depender exclusivamente da garantia institucional do sistema financeiro, como o FGC, mas estruturar uma carteira equilibrada. A combinação entre títulos públicos, renda fixa bancária diversificada, crédito privado de qualidade e ativos de proteção tende a oferecer mais estabilidade e segurança ao investidor no longo prazo.