A relevância do ouro decorre de três características essenciais: a escassez real, com um estoque que cresce apenas cerca de 1,5% ao ano (é difícil e custoso garimpar ou extrair ouro); a durabilidade praticamente absoluta, pois não se deteriora (tem características químicas únicas); e a aceitação universal, construída ao longo de milhares de anos.
Na atualidade, todo o ouro disponível acima da superfície cabe em um cubo de aproximadamente 22 metros (nossa estimativa calculada com base nos estoques globais disponíveis), o que ilustra de forma simples o tamanho de sua limitação e sua escassez.
Historicamente, o ouro foi dinheiro de fato. Impérios, rotas comerciais e acordos internacionais se estruturaram em torno dele. Do colapso monetário romano à expansão ibérica e ao sistema de Bretton Woods, que atrelava o dólar ao ouro, sua presença foi constante. Mais do que isso, foi dominante e determinante. Mesmo após 1971, quando os Estados Unidos deixaram de converter dólares em ouro, o metal não perdeu importância, apenas mudou seu papel no sistema financeiro.
Nos últimos anos, possivelmente, desde meados dos anos 2000, quando a política monetária norte-americana começou a ganhar contornos diferentes em razão de grande expansão do crédito, como importante alternativa de investimento, o ouro voltou com força ao debate global. É provável que isso se deva a uma fase de transição de regime macroeconômico, tendo em vista a perspectiva de um cenário marcado por inflação mais persistente, déficits fiscais elevados, tensões geopolíticas frequentes e um movimento contínuo de bancos centrais buscando diversificar reservas e reduzir a dependência do dólar.
Ao mesmo tempo, novos ativos, como as criptomoedas, passaram a disputar atenção, mas o ouro permanece sustentado por algo que não se copia: ele já atravessou milênios respondendo ao mesmo propósito. Não há antagonismo necessário entre essas reservas alternativas — as quais convivem, mas não se substituem. O Bitcoin tem seus atributos de escassez e sua extraordinária e genial arquitetura, porém o ouro possui alguns milênios de “teste de rodagem”.
Para o investidor, o ouro funciona como um componente que reduz volatilidade, protege contra eventos extremos e serve como defesa contra a deterioração gradual do valor das moedas (debasement). Sua utilidade aparece quando sistemas financeiros são pressionados ou quando políticas fiscais e monetárias se afastam demais do equilíbrio. Ao contrário de ativos financeiros tradicionais, o ouro não depende de emissões, contraparte ou regulamentação. Simplesmente existe, com valor reconhecido globalmente.
Os números ajudam a contextualizar. O mercado global de ouro gira em torno de 12 trilhões de dólares (World Gold Council); bancos centrais concentram aproximadamente 17% do ouro acima da superfície; e, desde 1971, o metal apresentou valorização média anual próxima de 8%, praticamente o dobro da inflação no período (CPI americano de 3,9%).
Ainda assim, não é um ativo isento de limitações. Em curto prazo, é sensível aos juros reais, ao dólar e a movimentos especulativos. Em longo prazo, sua performance tende a ser inferior à de ações de economias desenvolvidas, uma vez que não produz renda. Portanto, sua função não é substituir ativos produtivos, mas complementar um portfólio com uma forma de proteção adicional contra instabilidade, excessos fiscais e extravagâncias financeiras.
As formas de acesso ao ouro são diversas. O metal físico oferece máxima segurança, no entanto, exige armazenagem e seguro. ETF são eficientes para liquidez e custo. Ações de mineradoras apresentam potencial de retorno maior, mas com risco corporativo. Tokenização amplia acessibilidade, embora ainda enfrente desafios regulatórios. Contratos futuros permitem hedge mais técnico, porém demandam operação constante. COE têm alguns custos embutidos, mas oferecem facilidade e flexibilidade.
A alocação ideal na carteira varia conforme objetivos e perfil de risco. Em estratégias defensivas, participações entre 5% e 8% costumam ser suficientes. Em portfólios mais agressivos, algo abaixo de 5% tende a ser adequado. Para grandes patrimônios expostos a jurisdições voláteis, percentuais mais elevados, em torno de 10% a 15%, podem fazer sentido, sempre dentro de uma lógica de gestão patrimonial de longo prazo.
No contexto atual, marcado por dívidas recordes, pressões fiscais, tensões geopolíticas e transformações que redefinem a natureza do próprio dinheiro, o ouro mantém seu papel histórico, ou seja, atuar como um seguro contra desequilíbrios estruturais. No Brasil, há ainda um elemento adicional, pois a oscilação cambial acrescenta uma camada de proteção implícita ao investimento em ouro, reforçando seu caráter de preservação.
Vale considerar também as razões recentes que estão interferindo no mercado de ouro. Uma alegada razão tem sido o ambiente de tensões geopolíticas persistentes, que recorrentemente desloca investidores para ativos de proteção. Não discordamos disso, mas discordamos do ranking de motivos. O debasement secular do dólar americano e a perda de confiança (em comparação ao passado dos títulos do governo dos EUA) são a causa primeira a impactar a valorização do ouro e não as razões geopolíticas. A existência de conflitos prolongados – como a guerra entre Rússia e Ucrânia e o conflito na faixa de Gaza –, além da recente questão da Venezuela são importantes, mas talvez menos determinantes do que se pense.
Outro fator de peso no movimento de alta é o ritmo acelerado de compras de ouro por bancos centrais pelo mundo. Muitos países passaram a diversificar suas reservas internacionais em resposta à crescente percepção de que ativos denominados em dólar podem estar sujeitos a riscos geopolíticos e institucionais — como o congelamento de reservas, algo que ganhou destaque após 2022 com os ativos russos não mais disponíveis fora da Rússia. Essa mudança estrutural na composição das reservas tem sustentado uma demanda contínua e robusta pelo ouro.
A valorização também tem sido impulsionada pelas condições monetárias, especialmente a perspectiva de cortes adicionais de juros pelo Federal Reserve. Taxas de juros reais mais baixas sem que se tenha uma inflação na meta fazem os investidores se questionarem sobre a adequação da instância de política monetária. É bom lembrar que, desde 2021, isto é, por cinco anos consecutivos, a inflação nos EUA está acima da meta. Em ambientes de política monetária expansionista, investidores tendem a aumentar sua exposição ao ouro como forma de preservar valor.
Por fim, um elemento complementar (2025), mas decisivo tem sido a fraqueza do dólar e a busca global por diversificação. À medida que o dólar perde força, o ouro naturalmente se torna mais acessível para compradores internacionais, ampliando sua demanda. Paralelamente, cresce o interesse de investidores e instituições em reforçar posições no metal através de ETF e outras formas de investimento, capturando tanto sua função de proteção quanto sua performance superior em momentos de incerteza.
Os desequilíbrios fiscais, notadamente nos EUA, não parecem de fácil reversão. A inflação não deve convergir facilmente à meta nos EUA. Nada sugere que o dólar americano venha a apresentar uma rodada de fortalecimento. Tudo isso, portanto, sugere que as condições que justificaram o movimento de valorização do ouro continuam.
Dessa forma, o momento é de compra de ouro? Em nossa visão, sim. O cuidado é sempre considerar a aquisição de um ativo que subiu mais de 100% em dois anos. Alguma estratégia de compra e acumulação pode ajudar: compra na fraqueza, compra em quedas, acumulação programada, criação de proteções etc.