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Investimentos

Dólar a R$ 7 e Bolsa a 100 mil pontos? Descubra o que puxa o pessimismo para 2025

O head de renda variável da Levante traça os cenários mais negativos para o mercado, em um ano dominado pela pauta macroeconômica

Por Luíza Lanza

22/01/2025 | 3:00 Atualização: 21/01/2025 | 21:00

Flávio Conde, head de renda variável da Levante. (Foto: Levante Ideias de Investimento)
Flávio Conde, head de renda variável da Levante. (Foto: Levante Ideias de Investimento)

O ano começou com pessimismo, refletindo o combo de abertura na curva de juros, desancoragem das expectativas de inflação e disparada do dólar que penalizou a Bolsa em 2024. Enquanto investidores tentam calibrar as estratégias de investimento para toda essa volatilidade, há quem esteja se preparando para ainda mais desvalorizações. Flávio Conde, head de Renda Variável da Levante Ideias de Investimentos, traçou três possíveis cenários para Ibovespa, dólar e Selic: e todas são projeções pessimistas para 2025.

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O relatório, obtido pelo E-Investidor com exclusividade, leva em conta variáveis econômicas como Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e Produto Interno Bruto (PIB), mas também balança comercial e resultado primário das contas públicas. E uma premissa: nos últimos anos, as projeções de mercado reunidas pelo Boletim Focus erraram a maior parte dos indicadores.

O ano passado ilustra bem este cenário. O primeiro boletim de 2024 projetava IPCA de 3,90%, mas a inflação terminou em 4,91%. A estimativa de dólar era de R$ 5, no entanto, a moeda americana encerrou o ano a R$ 6,19. A Selic chegou a 12,25% ao ano, também acima dos 9% inicialmente esperados.

Os erros das previsões passadas

As três previsões econômicas para 2025 traçadas por Conde são baseadas nas estimativas do Focus, nas projeções do próprio analista e em uma extrapolação para um cenário de crise, situação em que o governo perderia o controle dos gastos públicos:

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A diferença entre os cenários possíveis para 2025, na visão de Conde, começa na projeção de inflação. Ele explica que a disparada do dólar na reta final de 2024 ainda não foi repassada nos preços dos produtos, um movimento que deve começar a acontecer neste início de ano, pressionando o IPCA. “A indústria ainda está seguindo esses repasses na inflação que, historicamente, vão de 8% a 10% da variação cambial.”

Se a disparada do dólar em 2025 realmente bater na inflação, o Banco Central (BC) seria obrigado a ir além do patamar já contratado de 14,25% ao ano na Selic para fazer o IPCA convergir à meta –  de 3%, com intervalo de tolerância que vai de 1,5% a 4,5%; por isso, a projeção de juros de 16% para 2025. “Os títulos prefixados já estão perto desse patamar”, diz o head da Levante.

A Selic em alta penaliza os resultados das empresas enquanto também elevam o rendimento da renda fixa, fazendo o fluxo de investidores migrar da Bolsa de Valores e o Ibovespa cair.

Dólar a R$ 7: o impacto do problema fiscal do País

O risco fiscal que levou o dólar à máxima histórica em 2024 permanece no radar. Sem um ajuste mais relevante que limite o crescimento dos gastos públicos, os resultados primários prometidos previstos no arcabouço fiscal podem não ser cumpridos. A piora do humor de investidores em 2024 começou quando o Executivo revisou a meta de déficit zero para 0,5% para este ano; e a projeção do Focus vê um resultado negativo em 0,6% do PIB.

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O relatório da Levante destaca que os déficits primário e nominal no País aumentaram a dívida bruta do governo de 53,7% para 74,5% do PIB entre 2012 e 2023. E isso pode continuar a crescer nos próximos anos. A projeção para 2025 da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão vinculado ao Senado Federal, é de que a dívida/PIB alcance 81% já em 2025, podendo ultrapassar 90% em 2027. “Historicamente, as agências de rating de crédito revisam a classificação de países emergentes quando o nível da dívida ultrapassa os 80%. Tudo isso faz pressão no dólar, que sobe pelo risco da dívida”, destaca Conde, que acha que a cotação pode chegar a R$ 7 este ano.

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Nesse cenário, a piora da economia aconteceria em efeito cascata. “O dólar elevado puxa tudo para pior; mais inflação, juros para cima, a Bolsa para baixo”, explica o head da Levante. “Toda a discussão de 2025 deve ser em cima do endividamento do País.”

Ibovespa a 100 mil pontos? Entenda para se preparar

As projeções feitas para a Bolsa brasileira ainda indicam certa recuperação. Como mostramos aqui, corretoras veem o Ibovespa superando os 140 mil pontos este ano, apesar dos desafios. Isso significaria uma valorização de pelo menos 16% – muito além dos cenários traçados pela Levante. Mesmo na projeção mais otimista feita pela casa, que leva em conta as expectativas mais atuais do Focus, o IBOV não iria muito além dos atuais 120 mil pontos. Nas mais pessimistas, a Bolsa teria um ano de perdas significativas, abaixo dos 100 mil pontos.

Esse descasamento entre os cenários econômicos brasileiros traçados por Flávio Conde e as projeções que vêm sendo divulgadas ao mercado se deve, segundo ele, a dois fatores principais. Ele argumenta que é raro ver uma corretora cravar uma desvalorização; até mesmo, contraproducente, uma vez que poderia desestimular o aporte de investidores e impactar os negócios. “Gestoras costumam fazer projeções mais realistas, só que não publicam”, afirma.

Mas há um outro ponto: a dominância macro. Um argumento muito comum no mercado é que as ações brasileiras estão baratas, com múltiplos muito descontados para resultados trimestrais que ainda estão fortes. “Se fosse apenas por causa dos resultados das empresas, a Bolsa tinha que estar hoje em 140 mil pontos”, diz Conde. “Na minha opinião, as projeções estão falhando em considerar o impacto que a piora do macro trará. Não adianta falar que o P/L (preço sobre lucro) está baixo, se esse lucro provavelmente não vai ser igual.”

Para além dos desafios fiscais no Brasil, a volta de Donald Trump nos Estados Unidos promete agravar a volatilidade global em um contexto que já conta com conflitos geopolíticos pelo planeta, e desaceleração da economia na China e na Europa. “A boa notícia que poderia acontecer em 2025 é Trump não aumentar o imposto de importação, como prometido. Isso não causaria mais inflação e o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) poderia continuar a cortar os juros por lá”, diz Conde.

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Para não depender tanto dos humores do mercado internacional e reverter as projeções negativas para 2025, o Brasil teria uma única saída: fazer o dever de casa em relação ao fiscal, aumentando os esforços no Executivo e no Legislativo para reduzir o ritmo do crescimento de gastos e controlar a trajetória da dívida. E, assim, reconquistar a confiança de investidores. “A chance é essa. Mas eu não vejo tal disposição”, pontua o head da Levante.

Como proteger os investimentos no cenário pessimista de 2025

Desde 2024, o investimento em ações ou em outras classes de ativos da renda variável ganhou um concorrente forte com a volta do 1% ao mês na renda fixa. Com altos retornos em ativos de risco mais baixo, o fluxo de investidores na Bolsa minguou. Afinal, por que apostar no Ibovespa, se as perspectivas ainda estão negativas?

Para Conde, o investimento em ações deve ser feito de forma constante, visando o longo prazo. Por causa disso, ainda que os cenários traçados estejam corretos e a Bolsa brasileira caia mesmo em 2025, o investidor não deve abandonar o ritmo de aportes. “Historicamente, é melhor estar comprado todo mês ao longo de 30 anos do que passar um ano muito comprado, outro, fora. É aí que o investidor acaba perdendo as oportunidades”, diz.

O caminho para 2025, portanto, é escolher ativos defensivos que consigam entregar performances menos negativas no curto prazo e que ainda apresentem boas janelas de ganho no longo prazo. Em um cenário de Ibovespa a 100 mil pontos este ano, o analista montou uma carteira com 12 papéis que seriam mais resilientes devido às características do negócio e saúde da empresa.

São exportadoras, que ganham com a alta do dólar, como BRF (BRFS3) e JBS (JBSS3) entre os frigoríficos; SLC Agrícola (SLCE3), Kleper Weber (KPLE3), BrasilAgro (AGRO3) e 3Tentos (TTEN3) no agronegócio; e Weg (WEGE3), Suzano (SUZB3), Embraer (EMBR3) e Gerdau (GOAU4) no setor industrial. E seguradoras, que se beneficiam dos juros altos, como BB Seguridade (BBSE3) e Caixa Seguridade (CXSE3).

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