Para investidores marcados na curva, o ativo permanece temporariamente com o mesmo preço atual e deixa de acumular juros, até que haja informações suficientes sobre o plano de reestruturação para recalcular um novo valor justo. Já para investidores marcados a mercado, o título continua sendo precificado diariamente com base nas taxas ou negócios observados no mercado secundário (como referências da Anbima), de modo que qualquer aumento na percepção de risco se reflete imediatamente em queda no preço do ativo.
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Gabriel Nakaya, analista da Nord, acredita, contudo, que será difícil encontrar compradores para esses títulos no mercado secundário agora. “A liquidez é quase zero”. Ou seja, resta aos investidores esperar que o plano de reestruturação seja aprovado pelos credores da empresa.
A recuperação extrajudicial dá a Raízen a oportunidade de negociar um plano de reestruturação com seus credores durante os próximos três meses. O plano pode exigir uma capitalização do grupo, a conversão de créditos em participação acionária, substituição de dívidas antigas por novas ou venda de alguns ativos. Gabriel Nakaya, analista da Nord, aponta que a venda de partes do negócio pode envolver um campo que a empresa tem na Argentina, que tem alto valor agregado.
Nas mãos dos pequenos
Segundo levantamento feito pela Vitrify, a empresa sucroalcooleira tem R$ 11,4 bilhões em CRAs e debêntures no mercado, sendo R$ 5,7 bilhões para cada classe de ativos. Mas enquanto debêntures estão nas mãos de investidores institucionais, como bancos e gestoras, os CRAs foram vendidos majoritariamente para pessoas físicas: o varejo representa entre 60% e 90% em algumas emissões. A pulverização dos títulos nas mãos de pessoas físicas pode dificultar a aprovação de condições de reestruturação dada uma maior dificuldade de coleta de votos em futuras assembleias, aponta a Vitrify.
Sem garantias
Os títulos não têm garantias. Ou seja, caso a empresa não consiga se reestruturar e avance para a recuperação judicial, os títulos se tornam crédito quirografário. Isso significa que o pagamento pode ser renegociado no plano de recuperação, pode ocorrer alongamento de prazo, pode haver deságio sobre a dívida e os investidores votam no plano via agente fiduciário. Na prática: o fluxo de pagamento do CRA pode ser suspenso ou alterado enquanto a empresa reorganiza suas dívidas.
Se a empresa quebrar, os CRAs sem garantia entram na fila de credores sem preferência. A ordem típica de pagamento é:
- créditos trabalhistas
- créditos com garantia real
- créditos tributários
- credores com privilégios legais
- credores quirografários (onde entram CRAs sem garantia)
Ou seja: os investidores recebem somente depois de quase todos os credores.
Histórico
Os CRAs da Raízen eram comercializados para o pequeno investidor em grandes plataformas de investimentos. O histórico da Raízen era de resultados positivos, e seus títulos tinham rating triple A, considerados os mais seguros do mercado, bem como oferecia rendimento acima do CDI.
Mas a empresa começou a enfrentar problemas na safra 2024/2025 e 2025/2026. Apesar de seu endividamento ser considerado controlado, a empresa enfrentou uma série de problemas operacionais e questões fora do controle da gestão, como queimadas na região Centro Sul, que afetaram a maturação da cana, além de baixo volume de chuva, que atrapalhou a safra, explica Nakaya, da Nord.
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Para completar, os preços de seus produtos (etanol e açúcar) caíram no mercado internacional, e a operação da argentina foi parada para manutenções da refinaria, que se estenderam mais que o previsto.
A empresa realizou desinvestimentos de R$ 5 bilhões na tentativa de solucionar problemas, entre eles usinas que não geravam tanto resultado, mas tinham um valor relevante. Nakaya estima que a empresa ainda precise de R$ 25 bilhões para sanar suas contas. “Com este valor a sua alavancagem será 3x o seu Ebitda. Não sanaria o problema por completo, mas traria um certo alívio à empresa”, conclui.