Como investir em renda fixa com guerra no Irã e queda da Selic: CDI, prefixado ou IPCA+
Ciclo de cortes de juros deve começar nesta semana, após reunião do Copom; especialistas avaliam se aplicar o dinheiro no pós-fixado ainda é a melhor opção
Guerra no Irã tem impacto na inflação efeito nos juros. Preço da gasolina disparou. (Foto: AdobeStock)
A guerra no Irã deixou mais complexo o trabalho do investidor que precisa decidir onde investir na renda fixa. O ciclo de cortes da Selicdeve começar nesta semana, mas aplicar o dinheiro em ativos pós-fixados ligados ao CDI ou ao Tesouro Selic parece ser a melhor opção em relação a estratégias de travar juros ainda elevados em papéis prefixados ou atrelados à inflação, como os IPCA +.
Pedro Vendramini, sócio One Wealth Management, acredita que não faz sentido, neste momento, ampliar o risco da carteira. Na visão dele, os juros reais de um papel IPCA + não conseguem bater o CDI no curto prazo. E, no longo prazo, a nova conjuntura geopolítica deixa o investidor exposto às incertezas.
“Quando estica muito o prazo (do vencimento do papel), vai-se correr o risco das intempéries que podem acontecer até o fim dessa crise. No curto prazo, tanto para indexadores de inflação ou prefixados, você praticamente tem o retorno esperado do CDI”, compara.
No juro real pago no Brasil atualmente, aplicações atreladas ao CDI ou à Selic não apenas preservam o valor do capital como também fazem o patrimônio crescer acima da alta dos preços.
O mercado financeiro precifica o CDI em torno de 12% ao ano para os próximos dois anos e inflação média de 4%. Na prática, isso geraria 8% de ganho real por ano. Juro real é justamente o rendimento que sobra depois de descontar a inflação. “Juro real de 8% é bastante interessante, continua sendo um patamar relevante”, opina Vendramini.
Como o DI futuro mostra a expectativa de juros no Brasil
O especialista de investimentos no Santander Brasil, Tiago Velloso, concorda que o melhor já passou em relação à estratégia de aplicar em títulos prefixados para travar o rendimento em juros mais altos. “O mercado já precificou boa parte do início do ciclo de cortes de juros. A grande janela de travar taxas muito elevadas diminuiu”, conta. Ele, no entanto, acredita que ainda há espaço porque os juros atuais ainda estão em um nível historicamente alto. “A diferença é que o potencial de ganho tende a ser menor do que era alguns meses atrás”, diz.
O mercado de juros é precificado pelo DI futuro, contrato negociado na Bolsa de Valores que reflete a expectativa para a taxa de juros do Certificado de Depósito Interbancário (CDI). Funciona como referência para precificar juros no Brasil.
Um exemplo vem do DI futuro com vencimento em janeiro de 2027. Desde abril do ano passado, auge da crise do Tarifaço de Donald Trump, até 27 de fevereiro, antes dos ataques ao Irã, esse título saiu do patamar de 15% para 13,7%, mas voltou a subir com a nova crise do Oriente Médio e, desde a semana do dia 11 de março, quebrou o teto dos 14%, mesmo nível de julho de 2025.
Vendramini reconhece que a expectativa de cortes – o Comitê de Política Monetária (Copom) anuncia a decisão sobre a Selic na quarta-feira (18) – dá um certo conforto para o investidor assumir um pouco de risco, investindo em um indexador que não seja a taxa básica de juros da economia ou que tenha proteção inflacionária.
Ele lembra que a redução dos juros no Brasil não será proeminente e estará sempre sujeita às condições externas, que pioraram de duas semanas para cá, e que têm impacto nos preços e na inflação. Antes de arriscar um pouco mais, avalia, é preciso entender a permanência desse novo conflito.
Crise do petróleo reflete primeiro na inflação
Na última semana o preço da gasolina e diesel nos postos do Brasil dispararam por causa dos efeitos do fechamento do Estreito de Ormuz, principal via do petróleo mundial. O governo agiu para tentar segurar os preços, extinguindo a cobrança do PIS/Confis e aumentando criando uma alíquota temporária de 12% sobre exportações. Uma medida que pode não ter efeito sobre os preços, segundo avaliação de especialistas.
Quando ocorre um choque de oferta envolvendo petróleo, o primeiro impacto global esperado é inflacionário e isso faz com que os juros futuros subam, porque o mercado passa a precificar que os bancos centrais podem cortar as taxas mais devagar.
“Por mais que a gente tenha a perspectiva de queda de juros, na próxima reunião do Copom e do FOMC (comitê dos EUA), há um componente de incerteza que não estava no preço há duas semanas atrás”, afirma o analista.
Prefixados valem a pena após a alta recente das taxas?
O efeito disso é prejuízo no curto prazo para quem está travado no prefixado, mas na visão de Velloso as ameaças não invalidam a estratégia. “O risco existe porque o preço do título pode oscilar mais no caminho. O investidor que carrega até o vencimento, ou que tem horizonte mais longo, continua com um ativo que ainda oferece uma taxa historicamente elevada.” Veja aqui como a renda fixa pode mudar.
Para ele, ainda é possível para o investidor travar juros altos, mas é importante entender que, quanto maior o prazo de vencimento do papel, mais longo é o tempo necessário para recuperar o investimento e mais sensível é o título às oscilações de juros ao longo do caminho, característica conhecida no mercado como “duration“. “Isso significa mais risco demarcação a mercado, mas também potencial de retorno maior se a curva fechar”, diz.
Na primeira frente estão os prefixados, que ainda carregam taxas elevadas em termos históricos. Na segunda estão os títulos IPCA+ com juros reais altos, que continuam oferecendo proteção contra inflação e uma taxa real bastante atrativa. “Mesmo com o início esperado de cortes da Selic, o nível absoluto de juros no Brasil continua alto. Isso mantém a renda fixa com uma relação risco/retorno interessante, principalmente para quem quer travar taxa por mais tempo.”
Prédio do Banco Central, cujo Comitê de Política Monetária (Copom) anuncia decisão sobre juros nesta quarta-feira (18).(Imagem: Maya Photos em Adobe Stock)
Edson Mendes, sócio-fundador da Private Investimentos, enxerga também que os títulos IPCA + ainda entregam uma boa correlação de ganho e proteção. “A estratégia em IPCA+ segue interessante porque tem um componente de juro real que é o pós fixado – ou seja, a inflação – mais um prêmio ajustado ao risco prefixado”, comenta.
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Na tarde desta segunda (16) o site do Tesouro Direto marcava um rendimento fixo acima da inflação de 7,91% para o título do Tesouro IPCA+ com vencimento em 2032 . Na prática, somado à inflação (3,81% de IPCA) esse título paga hoje juros de 12% ao ano. O prefixado de mesmo vencimento, rendia 13,89% no mesmo dia. A Selic paga 15%.
Por causa da guerra, o mercado reduziu a previsão de corte da Selic para o final de 2026, de 12% para 12,25%, na mediana apurada no Boletim Focus do Banco Central com os agentes de mercado publicado no dia 16 de maço.
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Riscos no crédito privado exigem mais cautela
Estar posicionado em juros não significa, necessariamente, manter todo o dinheiro em disponibilidade imediata. Parte dos recursos pode estar alocada em instrumentos de renda fixa com prazos mais longos, alguns deles com benefícios fiscais que tornam o retorno final, em teoria, mais eficiente.
Entre essas alternativas estão as Letras de Crédito Imobiliário e do Agronegócio (LCIse LCAs), emitidas por bancos, além das debêntures incentivadas (títulos de dívida voltados ao financiamento de projetos de infraestrutura) e dos Certificados de Recebíveis Imobiliários e do Agronegócio (CRIse CRAs), instrumentos lastreados em créditos desses setores e que contam com isenção de Imposto de Renda para a pessoa física.
Os juros muito altos, no entanto, geram riscos adicionais que o investidor precisa ficar atento. Problemas com títulos emitidos por empresas como Raízen (RAIZ4), Pão de Açúcar (PCAR3), Braskem (BRKM5) e CSN (CSNA3) demonstram que o mercado de crédito vem enfrentando problemas. No caso da Raízen, a companhia pediu recuperação extrajudicial e há risco real de calote ou perdas para os investidores de seus títulos. Pagamentos de CRAs que vencem em março, por exemplo, estão suspensos.
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Eleições de 2026 podem mexer com a curva de juros
Papeis mais líquidos, por outro lado, dão segurança para ter dinheiro disponível e aproveitar oportunidades, sem precisar vender outros investimentos às pressas, ou mesmo correr risco de calote.
Outro elemento que o investidor deve levar em conta sobre renda fixa é a eleição de outubro, que deve influenciar o comportamento da curva de juros no Brasil.
Neste caso, o elemento principal vem do risco fiscal ditado pela direção dapolítica fiscal dos principais candidatos. “Se houver consolidação de um candidato visto como comprometido com equilíbrio fiscal e controle da dívida pública, a tendência é de queda do prêmio de risco. Isso normalmente puxa os juros futuros para baixo e favorece quem travou taxas antes desse movimento”, comenta Velloso.
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Por outro lado, se houver aumento da incerteza fiscal ou deterioração da percepção de responsabilidade fiscal, o mercado financeiro tende a exigir juros mais altos para financiar o governo.