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Mercado

Entenda a situação do petróleo com a guerra no Irã e como afeta todo o mercado

Volatilidade da commodity gera pressão inflacionária pelo mundo, podendo impactar ciclos de juros inclusive no Brasil; dúvida é até onde o conflito se estenderá

Por Luíza Lanza

09/03/2026 | 18:57 Atualização: 10/03/2026 | 21:15

Petróleo dispara e chega perto de US$ 120 após escalada da guerra no Oriente Médio e bloqueio do Estreito de Ormuz. Alta da commodity eleva aversão ao risco global. (Imagem: Adobe Stock)
Petróleo dispara e chega perto de US$ 120 após escalada da guerra no Oriente Médio e bloqueio do Estreito de Ormuz. Alta da commodity eleva aversão ao risco global. (Imagem: Adobe Stock)

A piora da guerra entre Estados Unidos e Irã interrompeu o bom momento que os mercados de investimentos globais viviam em 2026. Antes do exército americano e Israel atacarem Teerã em 28 de fevereiro, predominava entre investidores maior apetite a risco, um movimento que vinha beneficiando especialmente o Brasil.

Leia mais:
  • Escalada da guerra contra o Irã pode desacelerar corte da Selic pelo Copom; veja projeções do mercado
  • Taxas nas alturas: o impacto da guerra no Oriente Médio no Tesouro Direto
  • Depois de saltar acima de US$ 100 por barril, petróleo perde força com declarações de Trump sobre a guerra
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O conflito no Oriente Médio colocou o capital global em compasso de espera. O Ibovespa, que flertava com 192 mil pontos, caiu para 181 mil.

Mas a maior reação foi no petróleo. O barril Brent chegou a quase US$ 100 nesta segunda-feira (9), o maior valor desde 2022, quando eclodiu a guerra entre Rússia e Ucrânia. A escalada na cotação do petróleo ocorre após cortes de produção por grandes países do Golfo e a paralisação quase total do tráfego comercial no Estreito de Ormuz, rota marítima estratégica por onde passa cerca de um quinto da produção mundial da commodity.

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Não fosse a sinalização dos ministros de Finanças do G7 quanto à liberação de reservas para controlar a alta do preços, a cotação poderia ter fechado a sessão em valorizações muito maiores. Mais cedo, no pico do movimento, registrado mais cedo, o petróleo do tipo Brent para maio chegou a saltar 26,56%, para US$ 117,62 o barril, enquanto o WTI para abril disparou 30,13%, a US$ 118,76. Esses foram os maiores ganhos diários já registrados para os contratos futuros da commodity.

Porém, novas declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foram recebidas com euforia no mercado global, que tirou o petróleo do positivo e o fez mergulhar em direção a uma queda nos contratos futuros do WTI e do Brent, em Nova York.

Em entrevista à rede CBS, Trump afirmou que o conflito com o Irã está perto de ser concluído. Ele negou o desfecho breve da guerra, logo depois, em entrevista coletiva, mas afirmou que a invasão realizada no Irã foi “um sucesso”. Considera que ofensiva americana será uma “incursão de curto prazo” em razão do enfraquecimento militar iraniano, como mostra reportagem do Estadão.

Assim, nesta terça-feira (10), os contratos do petróleo despencaram, levando os preços ao redor dos US$ 87 o barril.

O petróleo hoje fechou em queda forte e devolveu parte dos recentes ganhos à medida que o mercado começou a reprecificar o risco geopolítico no Oriente Médio. O gatilho veio de Washington: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse na última segunda-feira que a guerra pode terminar em breve e mencionou a possibilidade de aliviar sanções relacionadas à commodity.

Nesta terça-feira (10), o barril do WTI para abril caiu 11,9%, a US$ 83,45, enquanto o Brent para maio recuou 11,2%, na faixa de US$ 87,8.

Alta da inflação?

O petróleo é um dos grandes vetores de inflação ou desinflação global. Em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o conflito entre dois grandes produtores da commodity fez o preço disparar. Logo após a eclosão da guerra no Leste Europeu, em fevereiro daquele ano, o Brent deu um salto de quase 20%.

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Como a Petrobras (PETR4) seguia a política de paridade internacional (PPI), política posteriormente alterada pelo Governo Lula, a estatal repassou a valorização do petróleo e do dólar para os combustíveis nas refinarias. A gasolina e o diesel no Brasil subiram, um peso importante para a alta a inflação brasileira naquele ano.

A gasolina é o time de maior peso individual na composição do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Cada 1% de alta no preço nas bombas de combustíveis costuma elevar em 0,5 ponto percentual, destaca a equipe macroeconômica do Inter.

Mas há uma diferença importante: desde a extinção do PPI, em 2023, a Petrobras não tem mais a obrigação de repassar as oscilações do petróleo imediatamente. “Nesse momento, a Petrobras tem uma margem para absorver esse choque, pelo menos incialmente, uma vez que o preço de distribuição tem ficado acima do preço importado ao longo desse início de 2026, diferentemente do que vimos em 2022, quando o conflito na Ucrânia iniciou em um momento em que os preços domésticos já estavam defasados em cerca de 10% frente ao internacional”, dizem André Valério e Gustavo Menezes.

O entendimento dos especialistas é que, embora o aumento do petróleo traga riscos inflacionários via combustíveis, a Petrobras tem margem para absorver o choque no curto prazo e a apreciação do real e a menor sensibilidade recente do IPCA ao repasse cambial indicam que a economia brasileira deve atravessar o episódio atual com impactos inflacionários limitados e temporários.

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O real também tem papel importante nessa história. Desde que a guerra no Oriente Médio começou, o dólar teve dias de forte alta contra a grande maioria das moedas globais. Mas o movimento tem sido menos dramático contra a moeda brasileira. Como o País é um exportador da commodity, a divisa nacional acaba exposta às oscilações de preço: quando o preço do petróleo sobe 1% na semana, o real tende a se apreciar 0,1% frente ao dólar, calcula o Inter.

Nesta segunda-feira, por exemplo, o dólar à vista teve queda de 1,52% contra o real, a R$ 5,165, ainda que estivesse em alta no exterior.

Para Lucca Bezzon, analista de inteligência de mercado da Stonex, a distância do País também ajuda. “Observamos que outros grandes exportadores de petróleo, principalmente no Oriente Médio, mas também os Estados Unidos e outros produtores relevantes, têm algum tipo de relação direta ou indireta com o conflito. O Brasil, por sua vez, é um dos poucos exportadores relevantes que, ao que tudo indica, não tem envolvimento com a situação. Isso pode estar favorecendo algum fluxo de capital para o país, considerando que não há expectativa de uma disrupção relevante nas exportações brasileiras de petróleo”, diz.

Essa reação mais contida no câmbio também pode ajudar a amenizar os efeitos do conflito no Brasil.

Impacto na Selic?

Se o conflito perdurar, a pressão inflacionária gerada pela alta do petróleo e do dólar pode fazer o Comitê de Política Monetária (Copom) alterar a trajetória de juros no Brasil. O grupo se reúne na próxima semana, entre os dias 17 e 18, e deve iniciar o ciclo de cortes na Selic; a primeira redução em quase dois anos.

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Antes dos EUA atacarem o Irã, o mercado esperava que a reunião de março traria um corte de 0,5 ponto percentual. Agora, no entanto, já não há tanto consenso. Como mostramos aqui, aumentaram as chances de um ajuste de 0,25 p.p.

A economista-chefe da Mirae Asset Brasil, Marianna Costa, concorda que o acirramento das tensões tende a elevar a cautela da autoridade monetária, mas, por ora, não altera o cenário-base. “A curva de juros precifica que o ciclo terá início com um corte de 50 pontos base (pb)”, diz. Para ela, o aumento das tensões pode reduzir as chances de uma aceleração no ritmo de cortes ao longo do ano, tornando o ciclo de afrouxamento um pouco mais lento. “Do ponto de vista do Copom, o que realmente preocupa não é o choque pontual, mas sua persistência e capacidade de contaminar expectativas”, complementa Costa.

Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, afirma que a chance de um corte de 25 pb aumentou, mas ele trabalha com a uma probabilidade de 30% de isso acontecer, contra 70% do corte de 50 bp. Para o executivo, a Selic terminal, ao final de 2026, pode subir marginalmente, algo como 25 pb, “muito mais por prêmio de risco do que por mudança estrutural”.

Aos poucos, essa incerteza começa a aparecer até no Boletim Focus. Na edição desta segunda-feira (9), a primeira após a piora no cenário internacional, a mediana das projeções para a Selic ao final de 2026 subiu de 12,00% para 12,13%. As projeções para 2027, 2028 e 2029 não se alteraram.

A curva de juros também sofre

A incerteza em relação ao futuro da inflação e da Selic nesse novo contexto global tem feito peso na curva de juros brasileira. Há uma semana, a taxa de depósito interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 era de 13,296%. Na tarde desta segunda-feira, operava em 13,505%.

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A pressão foi maior no curva longa. O DI para 2029 foi de 12,728% na última segunda-feira (2) para os atuais 13,315%, enquanto o vencimento de janeiro de 2031 avançou de 13,117% para 13,600%.

Isso se refletiu na precificação dos títulos do Tesouro Direto. O Tesouro IPCA+ 2032 está sendo oferecido com o maior retorno da série histórica do ativo, iniciada este ano, de 7,80% de juro real por ano. Antes da guerra começar, no fechamento de fevereiro, a taxa era de 7,39% ao ano. O retorno do IPCA+ com vencimento em 2040 foi de 6,96% para 7,29% no mesmo período.

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