Os fundos de crédito privado registraram uma onda recente de saques: foram R$ 12,3 bilhões em resgates líquidos em apenas três semanas, em um movimento que reacende dúvidas sobre a solidez desse mercado em meio ao aumento das incertezas.
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Os fundos de crédito privado registraram uma onda recente de saques: foram R$ 12,3 bilhões em resgates líquidos em apenas três semanas, em um movimento que reacende dúvidas sobre a solidez desse mercado em meio ao aumento das incertezas.
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O fluxo negativo se intensificou após uma sequência de eventos que abalaram a confiança dos investidores — como os pedidos de recuperação extrajudicial de duas grandes empresas, Raízen (RAIZ4) e o Grupo Pão de Açúcar (PCAR3). Crises de endividamento de companhias de peso — a exemplo de Braskem (BRKM5) e CSN (CSNA3) — reforçaram o cenário. O aumento da aversão a risco global, com a escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã, deu ainda mais peso a esse movimento.
Em três semanas, de 20 de março a 6 de abril, praticamente todos os dias registraram resgates líquidos nos fundos de investimento que têm pelo menos 20% da carteira aplicada em crédito privado.
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Apesar do volume expressivo, os resgates representam cerca de 0,6% do patrimônio total desses fundos — que somam R$ 1,9 trilhão sob gestão, segundo levantamento com base em dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) — e, por ora, não configuram um cenário de estresse sistêmico, na avaliação de gestores.

Eduardo Alhadeff, sócio e CIO de Crédito da Ibiúna Investimentos, observa: “O mercado de crédito amadureceu muito, e já coloca no preço dos títulos de dívida rapidamente eventuais problemas. Não vejo os resgates com muita preocupação. Hoje, o risco de algum fundo fechar por causa de resgates é zero.”
A Ibiúna não registrou resgates recentemente. “Acredito isso tenha ocorrido porque não tínhamos nenhum dos nomes de empresas que deram problemas recentemente em nossas carteiras”, diz o CIO.
Entre executivos, a leitura predominante é de que o movimento representa uma correção após anos de forte captação e compressão dos prêmios de risco no crédito privado — e não o início de uma crise.
Para Pedro Rudge, diretor da Anbima, ainda é muito cedo para concluir que o segmento não está em ruptura. “É razoável que ao ver notícias negativas exista alguma volatilidade no mercado e o apetite dos investidores mude. Afinal, houve um sacolejo no preço dos ativos. Mas a Raízen tinha muitos títulos no exterior, e por isso o impacto não foi tão sentido”, argumenta. Rudge lembra ainda que, desde a episódio das Lojas Americanas, em 2023, os fundos ficaram mais diversificados, o que ajuda a evitar problemas em tempos turbulentos como o atual.
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Guilherme Maranhão, presidente do fórum de Mercado de Capitais da Anbima, também não vê anormalidade do lado das emissões de títulos de dívida, que abastecem os fundos e são distribuídos em plataformas de investimento. “Não acho que esse período de ruídos no crédito privado configure estresse sistêmico. Caso estivesse, haveria uma disrupção e não conseguiríamos fazer emissões de títulos de dívida, mas empresas defensivas, como de energia e rodovias, continuam a colocar suas ofertas no mercado. Além disso, o mercado secundário de títulos continua funcionando, diferente do impacto da Covid, quando as negociações cessaram completamente”, aponta.
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Um ajuste costuma ser traduzido em alta do preço. Atualmente as companhias conseguem se financiar no mercado, mas não no mesmo valor registrado há alguns meses. “Existem casos de maior estresse. Mas os preços tendem a se ajustar rapidamente”, completa Maranhão. Questionado se o mercado está preparado para um evento de piora mais expressiva, dado que mais empresas no mercado vêm apresentando problemas, o executivo acredita que, atualmente, o mercado tem instrumentos que permitem que, em cenários de pressão, os preços se movimentem bastante rápido. “Foi algo aprendido com a crise das Americanas (AMER3)“.
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Alhadeff acredita que o crédito não é e não deve ser mais visto como um apêndice da renda fixa, mas sim uma classe de ativos consolidada e grande que vive ciclos, o que é “absolutamente normal”.
Se o dinheiro saiu dos fundos de crédito, ele não foi muito longe — mas mudou de mãos e de apetite por risco.
Segundo relatórios de instituições como Bradesco BBI, Banco ABC, Itaú e Anbima, os recursos têm migrado, neste ano, para estratégias mais defensivas dentro da renda fixa, afirma Henry Subtil, diretor de investimentos da RB.
Os principais fluxos vão para fundos de baixa duration — mais resilientes em momentos de estresse —, além de carteiras com maior exposição a títulos públicos ou crédito de grau de investimento, considerados mais líquidos e de melhor qualidade.
O movimento indica uma busca por renda fixa mais previsível e líquida — com menor risco de oscilação em um ambiente mais incerto.
“Isso mostra que o investidor quer renda fixa, mas quer uma renda fixa ‘segura’, com menor risco de oscilação e maior previsibilidade de caixa. Ou seja, não basta ser crédito, tem que ser um crédito que o investidor entende, confia e consegue carregar com tranquilidade nesse cenário”.
Esse fluxo foi mais difícil de mensurar nas últimas semanas, mas o executivo aponta que tem visto uma realocação dentro da própria indústria de fundos e um aumento do volume das negociações de CDBs, LCIs e LCAs no mercado secundário, que indica que os investidores estão buscando alternativas em função dos spreads mais ‘amassados’ no mercado primário. Isso acontece quando muitos deles desejam investir nos produtos, mas os bancos não têm muita necessidade de captar esses recursos.
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Alhadeff, da Ibiúna, diz que o fluxo certamente não está indo para fundos multimercados e nem fundos de ações, que são aplicações de maior risco. “Esse dinheiro provavelmente está sendo realocado em produtos bancários, como CDBs, LCIs, LCAs. Ou seja, para produtos mais conservadores do que os fundos de crédito”. Maranhão concorda, e inclui ainda títulos públicos na lista: “Essa é a dinâmica usual do mercado em um ambiente de aversão a risco”. Rudge lembra ainda os fundos de renda fixa que têm títulos públicos na carteira.
É o que está acontecendo no Banco Inter. Em evento recente, executivos da Inter Asset apontaram que, antes da guerra no Oriente Médio, os investidores ensaiaram um aumento no apetite ao risco, mas, com a eclosão do conflito entre Estados Unidos e Irã, além das recuperações extrajudiciais de Raízen e GPA, esse fluxo parou. Resultado: fundos e produtos bancários com liquidez diária ganharam espaço. “Não há convicção: colocaram o dinheiro para descansar, pois estão em compasso de espera”, disse o CEO Daniel Castro.
Em momentos de estresse, entra em cena o chamado “efeito extrato”: ao ver perdas na marcação a mercado, o investidor reage — muitas vezes no pior momento. Recebe a marcação a mercado de seus títulos e cotas, e decide realocar rapidamente os recursos, explica Fabio Aguiar, da Mirabaud. Mas atitudes intempestivas costumam deixar “dinheiro na mesa”. “Quando ele sai de um fundo e transfere seu dinheiro para outra aplicação, as alíquotas regressivas do IR são ‘zeradas’, e ele terá de ficar ao menos dois anos no novo investimento para não pagar tributos maiores”.
A comunicação entre gestor, assessor e investidor é fundamental nestes casos, aponta Aguiar. “Buscamos dar transparência do que temos em carteira, perspectivas, se estamos com caixa e que optamos por reduzir o prazo de retorno dos títulos da carteira
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O fato é que períodos voláteis como o atual deixam o risco embutido no crédito privado mais claro ao investidor, acredita Alhadeff, da Ibiúna. “As empresas dão mais retorno do que o Tesouro brasileiro porque têm mais risco”. A visão é reforçada por Rudge da Anbima. “É uma classe que tem risco e pode ser volátil. Não pode ser vista como um CDI plus”.
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