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Investimentos

Nem a Selic escapa da polarização na internet

Levantamento inédito e exclusivo da Orbit mostra internautas divididos sobre o Copom ter mantido a taxa básica de juros em seu piso histórico

Por Isaac de Oliveira

14/12/2020 | 4:50 Atualização: 10/08/2021 | 9:04

A reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), encerrada na quarta-feira (9), tinha um ingrediente picante que poderia mudar a decisão esperada pelo mercado financeiro. O IPCA, a inflação oficial do Brasil, alcançou 4,31% em 12 meses, encerrados em novembro.

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Somente o grupo alimentos e bebidas acumula uma alta de 15,94%, o maior valor desde outubro de 2003. Mesmo com essa pressão nos preços, o consenso dos analistas era de manutenção da Taxa Selic. “Esse patamar atual de 2,00% é um estágio para continuar estimulando a recuperação da economia”, disse Carlos Kawall, diretor do Asa Investments e ex-secretário do Tesouro Nacional.

Em tempos marcados pelo extremismo, nem o juro básico da economia escapou da polarização. Um levantamento inédito produzido com exclusividade para o E-Investidor pela Orbit Data Science, uma empresa que utiliza a inteligência artificial para reunir dados sobre comportamento social e de consumo, identificou que há um descasamento entre a decisão do Copom, a opinião dos especialistas e os comentários publicados por usuários de sites de notícias e redes sociais.

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A discussão, claro, não é política. Mas é interessante mostrar que uma decisão técnica da autoridade monetária repercute além desse consenso. A análise de 2.706 comentários nos dois dias seguintes à decisão do comitê mostra que 55,08% do que foi postado em sites de notícias e nas redes sociais eram contrários à manutenção da taxa básica de juros, a Selic, em 2% ao ano (a.a.).

“A polarização é interessante. Não teve uma grande predominância de concordância ou condenação da decisão”, diz Fernando Hargreaves, diretor de projetos da Orbit. “Às vezes, a política é incorporada à discussão sobre a Selic, mas a questão política não afetou tanto o debate.”

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Do ponto de vista econômico, a Selic em 2% a.a. cumpre o papel de manter a inflação próxima ao centro da meta estipulado pelo BC, de 4% em 2020. “Os principais fatores atrelados às críticas são a pressão inflacionária, os juros bancários praticados e o impacto negativo na poupança”, diz Caio Simi, CEO da Orbit. “Os que apoiaram a manutenção elencam fatores como produção, emprego e consumo, além de relativizar a pressão inflacionária apontada pelos críticos.”

“Como aquele que põe em prática a política monetária, a função do BC é perseguir a meta de inflação, e ele cumpriu”, diz Michael Viriato, professor de finanças do Insper. “Por vários anos, ela veio abaixo da faixa de possibilidade e este ano vai sair, finalmente, muito próxima.”

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Viriato, também sócio da Casa do Investidor, explica que a taxa também ajudou a zelar pela fluidez do mercado financeiro, reduzindo a carga para empresas com maior dificuldade e até para o governo, que teve alto investimento em programas emergenciais.

“Na medida em que o custo do dinheiro – a liquidez dele – diminui, mais pessoas pegam dinheiro para investir, para comercializar bens e serviços, e isso puxa a inflação para cima. Na hora que o BC eleva a taxa Selic, ele aumenta o custo do dinheiro. Com isso, as pessoas comercializam menos e a inflação tende a ser pressionada”, explica o especialista.

A Selic e os investimentos

Um ponto, porém, chama a atenção nos comentários: a reclamação sobre o impacto da Selic na poupança. Com o juro em baixa e a inflação em alta, o retorno real para o poupador será negativo na caderneta, ou seja, o poder de compra será menor. Esse comportamento está ligado ao velho País do rentismo, que se beneficiava de um rendimento real sem esforço.

Agora, há a necessidade de mudança no perfil dos investidores, que precisam se adaptar à nova realidade. Os conservadores, por exemplo, estão pressionados a correr mais risco na renda variável para ter melhores retornos nas aplicações, já que a renda fixa perdeu atratividade com os juros achatados.

“A Selic baixa é boa para a economia em geral. Mas para quem investe e vive de renda ela é um desafio”, afirma Myrian Lund, professora da FGV e planejadora financeira. “No Brasil, há 20 anos, ganhava-se 20% a.a. acima da inflação. Há dez anos, ganhava-se 10%. Há cinco anos, eram 4%. Agora está negativo com a Selic em 2% a.a. e a inflação em 4,3%.”

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Os caminhos da Selic em 2020 e o que esperar de 2021

O final deste ano para Selic, em 2%, é bem discrepante do que se viu no início (4,50%), quando não se imaginava que os primeiros casos de coronavírus na China se tornariam, em poucos meses, uma pandemia global.

A crise levou a uma derrubada geral nos juros pelo mundo afora. Nos Estados Unidos, o Fed levou o juros a zero. No Brasil, esse patamar chegou a ser cogitado entre economistas, mas não se desenhou na prática.

Na primeira reunião do ano, em 5 de fevereiro, a taxa básica de juros caiu de 4,50% para 4,25% ao ano, iniciando a sequência de ajustes. Em 18 de março, o comitê fez um corte 0,50 ponto porcentual, e a Selic foi para 3,75% ao ano. Em 6 de maio, o ajuste foi ainda mais agressivo, 0,75% ponto percentual, derrubando a taxa para 3%. O corte se repetiu no encontro seguinte, em 17 de junho, e a Selic foi a 2,25% ao ano. Até que em 5 de agosto, o Copom ajustou a taxa em 0,25 ponto porcentual, e a Selic atingiu o piso histórico de 2% ao ano, que se manteve nos três encontros subsequentes, em 16 de setembro, 28 de outubro e 9 de dezembro.

Para 2021, as projeções são variáveis. De um total de 47 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, as expectativas vão desde uma Selic estável em 2,0% até um aumento dos juros a 4,75% ao ano. A mediana é de 3,0%.

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“A taxa vai subir, mas vai continuar menor do que as pessoas que vivem de renda gostariam”, diz Viriato. “É possível que ela atinja até 4% ao final do ano, um número ainda pouco significativo, porque a inflação tende a ficar também por volta de 4%. Ou seja, aqueles que pretendem ter os seus recursos em liquidez têm um prêmio a pagar que é não ganhar juros reais, acima da inflação”, projeta o professor do Insper.

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