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Fusão com AES (AESB3) põe em xeque tese de investimentos da Auren (AURE3) às vésperas de importante decisão dos acionistas

Empresa de dividendos ou de crescimento? Quanto vai ser a diluição acionária da Auren? Qual a melhor escolha para quem tem AESB3? Especialistas respondem as perguntas difíceis

Por Murilo Melo

18/10/2024 | 3:00 Atualização: 19/10/2024 | 9:20

(Foto: Envato Elements)
(Foto: Envato Elements)

A aquisição da AES Brasil (AESB3) pela Auren Energia (AURE3) deve ter o processo de fusão finalizado no dia 31 deste mês e pode forçar acionistas focados em dividendos a reverem suas teses de investimento. Isso porque já existem sinais de uma mudança de estratégia da empresa, que agora deve dar prioridade ao crescimento da companhia em vez de pagamentos de proventos. O anúncio da Auren confirmando a compra da AES Brasil foi feito no dia 15 de maio por meio de fato relevante, com investimento de R$ 7 bilhões.

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A crença nessa mudança, segundo especialistas, está fundamentada no fato de a Auren se consolidar como a terceira maior geradora de energia do País, ficando atrás apenas da Eletrobras (ELET3; ELET6) e da Engie Brasil (EGIE3). Com a compra da AES Brasil, a Auren aumenta sua capacidade instalada em 5,2 gigawatts (GW), totalizando 8,8 GW de energia renovável, e se torna a maior comercializadora de energia do Brasil. A expansão altera o foco da companhia, de pagamento regular de dividendos para o crescimento da organização. A expectativa dos estrategistas financeiros é de que a Auren mantenha dividendos limitados nos próximos anos.

O analista de valores mobiliários da EQI Research, João Pedro Zanott, diz que, até a transação, o principal atrativo para investir na Auren eram seus dividendos consistentes — a empresa pagou R$ 1,5 bilhão em proventos extraordinários ao final de 2023; em março, a elétrica distribuiu mais de R$ 400 milhões. Agora, tudo indica que essa tese pode mudar. Ao menos até o médio prazo.

Embora ainda não dê para saber o nível exato de endividamento da empresa considerando a fusão com a AES Brasil, diz Zanott, a alavancagem deve chegar próximo de cinco vezes a relação dívida líquida/Ebitda, que representa o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização. Com esse nível de endividamento, a prioridade da Auren, de acordo com o analista, deve passar para a redução da alavancagem para algo em torno de 3 vezes a 3,5 vezes antes de retomar o pagamento de dividendos maiores no futuro.

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Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos, concorda com a linha de pensamento de Zanott. Para ele,  a nova companhia, firmada após a fusão, é uma “excelente estratégia” de mercado, mas que, justamente por conta da alta alavancagem, a Auren vai precisar pensar em crescimento em vez de focar em distribuição de dividendos. Mas isso, segundo ele, é temporário. A Auren, afirma ele, terá uma forte geração de caixa que permitirá uma desalavancagem rápida do negócio. “O investidor que deseja dividendos mais altos vai precisar trocar de ativo”, diz.

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Mas a Auren não é vanguardista nessa mudança de prioridade. Diversas empresas, como Engie e CPFL (CPFE3), já passaram por momentos de grandes investimentos e optaram por crescer ao invés de pagar grandes dividendos.

Hoje, a CPFL, por exemplo, se tornou uma grande pagadora de proventos. Isso acontece porque, conforme Zanott, a partir do momento que as empresas decidem investir em novos projetos ou adquirir outras companhias é natural que a alavancagem aumente e os dividendos sejam reduzidos. “No geral, uma vez que esses projetos entram em operação, as empresas entram em uma trajetória de desalavancagem, pois esses ativos geram bastante caixa e permitem o retorno do pagamento de proventos no futuro”, explica.

Como devem ficar os dividendos da Auren e da AES?

Atualmente, a política de dividendos da AES Brasil determina a distribuição de 25% do lucro líquido, que no primeiro trimestre deste ano atingiu R$ 250 milhões. Com base neste resultado (no segundo trimestre a empresa apresentou prejuízo e, por isso, o primeiro período foi utilizado para o cálculo), a projeção anual seria de um lucro por ação (LPA) de R$ 1, resultando em um dividendo por ação (DPA) de R$ 0,25. No entanto, especialistas afirmam que essa distribuição deve ser revista com a nova estrutura da empresa após a fusão.

Antes do anúncio da aquisição, a Auren apresentava uma situação financeira estável, com baixo nível de alavancagem, caixa robusto e alta taxa de conversão de Ebitda em fluxo de caixa operacional, o que favorecia a distribuição de dividendos. As estimativas pré-fusão apontavam para um dividendo de R$ 0,72 por ação, resultando em um dividend yield (DY, rendimento de dividendos) de 6,3%. No entanto, com a incorporação da AES Brasil, essa previsão também deve ser revisada para ajustar as finanças da nova gigante do setor elétrico.

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Durante a fase de integração, os dividendos devem ser limitados, projeta o CEO da Melver, edtech especializada em formação de assessores de investimento, Raony Rossetti. Focada em reduzir o endividamento, a nova empresa formada após a fusão, segundo o especialista, deve manter um pagamento mínimo de dividendos nos próximos anos. As empresas combinadas terão uma alavancagem de 4,9 vezes, o que força um ajuste na política de dividendos para dar prioridade à desalavancagem e às sinergias com a AES Brasil, o que significa que os pagamentos elevados de proventos devem ser adiados.

Rossetti diz que essa mudança nos dividendos vai pressionar o valor dos papéis em um primeiro momento. No entanto, se a integração for bem executada e as sinergias planejadas se tornarem realidade, ele projeta que o Ebitda da empresa alcance R$ 3,6 bilhões ainda neste ano.

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Para o especialista, o crescimento deve valorizar a Auren no médio e no longo prazos, compensando os efeitos negativos iniciais da diluição. “Com um portfólio diversificado que abrange hidrelétricas, energia eólica e solar, a Auren amplia a sua capacidade de comercialização de energia, fortalecendo a competitividade da empresa. A companhia terá a oportunidade de explorar sinergias operacionais, reduzir custos e aumentar a escala para futuros investimentos”, analisa.

Como será a operação do negócio Auren-AES?

A AES Brasil será oficialmente incorporada pela ARN Holding Energia, que, em seguida, também será absorvida pela Auren, concluindo o processo de fusão entre as empresas. Com isso, 31 de outubro será o último dia de negociação das ações da AESB3 na B3, a Bolsa de Valores brasileira. É a partir daí que a ARN passa a emitir novas ações e oferecerá três opções de troca aos acionistas da AES Brasil.

Os investidores devem escolher a opção que melhor se adequa ao seu perfil. As três incluem diferentes combinações de ações ordinárias e preferenciais, permitindo que os acionistas ajustem sua participação conforme suas preferências de voto e recebimento de dividendos.

As ações de quem é acionista da Auren permanecerão as mesmas, mas haverá uma diluição à medida que os acionistas da AES Brasil recebam novos papéis da Auren, conforme o processo de fusão. Já para os acionistas da AES Brasil, a escolha entre as três opções vai até 29 de outubro:

  • Receber 9 ações ordinárias e 1 ação preferencial;
  • Receber 5 ações ordinárias e 5 ações preferenciais;
  • Receber 10 ações preferenciais.

Após o reajuste nos valores de resgate e substituição, a relação entre as opções para os acionistas se dará desta forma:

  • Opção 1 (padrão): receber 90% do valor em ações ordinárias da Auren e 10% em dinheiro. Para cada ação da AES, o acionista receberá 0,67498865568 ação da Auren mais R$ 1,18438832610.
  • Opção 2: receber 50% do valor em ações ordinárias da Auren e 50% em dinheiro. Isso equivale a 0,37499369760 ação da Auren mais R$ 5,92194163050.
  • Opção 3: receber 100% do valor em dinheiro, ou seja, R$ 11,84388326100 por ação.

Embora o valor oferecido seja inferior ao esperado para a AES Brasil, especialistas consideram que para acionistas com visão de longo prazo, a opção que envolve o menor pagamento em dinheiro, mas, em contrapartida, a maior quantidade de ações da Auren (opção 1) é a mais vantajosa.

De acordo com Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos, os investidores que escolherem essa alternativa podem capturar os benefícios de sinergias e ganhos futuros a um preço atraente, apesar de a opção 3 oferecer maior valor financeiro imediato. “O acionista precisa ser paciente nesse momento ou trocar por outro ativo que tem dividendos mais atrativos no curto prazo”, afirma Boragini.

Perspectiva de crescimento e riscos da fusão

Ainda não está definida a composição acionária final da Auren após a conclusão da fusão, uma vez que os acionistas da AES Brasil ainda precisam decidir se querem se tornar sócios da Auren ou não. No entanto, a empresa permanecerá sob o controle do grupo Votorantim e do fundo de pensão canadense CPP. Segundo os especialistas, os controladores já conquistaram a confiança do mercado durante o processo de reorganização societária da Companhia Energética de São Paulo (Cesp) com os ativos do grupo controlador. Para os analistas, tal histórico fortalece a percepção de que a Auren está bem posicionada do ponto de vista de governança corporativa.

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João Pedro Zanott, analista de valores mobiliários da EQI Research, diz que os ativos da AES Brasil são estratégicos para a Auren, que poderá capturar sinergias em diversas frentes — corporativas, financeiras e operacionais. A empresa, conforme ele, terá oportunidades de obter ganhos de escala na comercialização, otimizar os custos de Pessoal, Materiais, Serviços e Outros (PMSO) e melhorar o desempenho dos ativos adquiridos. “Os portfólios de geração combinados são complementares, permitindo ganhos na comercialização. Também existem oportunidades de melhoria na disponibilidade dos ativos adquiridos e redução de custos por meio de sinergias corporativas”, pontua.

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Para o operador de renda variável da Manchester Investimentos, Rubens Cittadin, a Auren deve colher benefícios já no médio prazo com a expansão de sua capacidade e a diversificação de suas fontes de energia, que agora incluem hidrelétrica, eólica e solar. “A sinergia operacional com a AES Brasil, aliada à expectativa de redução de até 50% nas despesas gerais e administrativas, deve fortalecer a competitividade da companhia”, projeta.

Os riscos enfrentados pela Auren, como muitas empresas em busca de crescimento, incluem o aumento dos níveis de endividamento, que pode pressionar as margens e a rentabilidade da empresa, de acordo com Cittadin. Além disso, há o risco de incompatibilidade entre os processos e a cultura corporativa da Auren e da AES Brasil, o que pode dificultar a integração eficaz das operações. A aquisição da Esfera Energia também representa um desafio adicional, porque, diz ele, a integração de mais um ativo pode complicar ainda mais a gestão da empresa.

Outros benefícios da fusão

Além das sinergias operacionais, o especialista em renda variável da Davos Investimentos, Marcelo Boraginia, aponta que a fusão deve proporcionar economia de impostos por meio da amortização do ágio e do uso do prejuízo fiscal corrente. A empresa resultante da combinação, segundo ele, pode se beneficiar de incentivos fiscais, o que fortalecerá sua posição financeira. “O custo da dívida da AES Brasil, que é de Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) médio + 5,9%, é significativamente superior ao da Auren, que é de IPCA + 4,4%. Essa diferença no custo da dívida pode resultar em economias substanciais, contribuindo ainda mais para a melhoria da rentabilidade da nova companhia”, calcula.

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A AES atua no Brasil desde 1997, durante as privatizações do setor elétrico promovidas pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. Com o crescimento da operação no País, a empresa optou por reciclar capital. Em 2016, vendeu a AES Sul para a CPFL e, em 2018, a Eletropaulo para a italiana Enel, saindo do setor de distribuição. Em 2020, a companhia se tornou 100% renovável ao vender a usina térmica Uruguaiana para a San Atanasio Energía, uma empresa argentina de gás natural e energia elétrica. Clique para ler as principais notícias sobre AURE3.

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