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Mercado

Eleições, inflação e bear market: o que esperar do 2° semestre da Bolsa

Eventos da segunda metade do ano podem estressar ainda mais o mercado. As commodities entram no radar

Eleições, inflação e bear market: o que esperar do 2° semestre da Bolsa
A inflação nos EUA deve seguir no radar dos investidores. Foto: Envato Elements
  • O 1° semestre de 2022 foi marcado pelas preocupações com a inflação, subida de juros pelo mundo, guerra entre Rússia e Ucrânia e lockdowns na China
  • Na segunda metade do ano, o comportamento da inflação, principalmente nos EUA, segue no radar dos investidores globais. Por aqui, as eleições presidenciais devem começar a trazer volatilidade para os ativos
  • Empresas resilientes e desalavancadas são recomendações. Setor de commodities concentra oportunidades, segundo analistas

Depois de encerrar o primeiro trimestre do ano em alta acumulada de 14%, o Ibovespa inverteu o sinal e chega ao fim do semestre em baixa de 4,96% (até 29 de junho). A aversão ao risco no mundo por conta da expectativa dos investidores por taxas de juros e inflação mais altas constitui o principal fator que contribuiu para a mudança de trajetória no mercado acionário.

Hoje a taxa básica de juros da economia brasileira (Selic) está 13,25% ao ano, o maior patamar desde janeiro de 2017. Quando o ciclo de aperto monetário foi iniciado, em março de 2021, ela estava em 2%, na mínima histórica. Por ter começado o movimento de alta nos juros antes dos pares globais, economistas afirmam que o Brasil leva vantagem no controle da inflação. Ainda assim, há preocupações para os próximos meses.

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede o crescimento da inflação, acumula alta de 12,66% em 12 meses (maio de 2021 a maio de 2022) e ainda não há sinais claros de arrefecimento dos preços. “O maior bloco de incertezas sobre a inflação no Brasil já foi. Boa parte dos riscos inflacionários já entrou na conta, mas ainda é necessário ficar de olho”, afirma Pedro Serra, chefe de pesquisas da Ativa Investimentos.

Já no exterior, principalmente nos Estados Unidos, as dúvidas sobre a aceleração da inflação ainda pressionam o mercado. Entre maio de 2021 e maio de 2022, o CPI (índice de inflação norte-americano) registrou alta de 8,6%, a maior dos últimos 41 anos e bem longe da meta de 2% da autoridade monetária.

O Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), entretanto, iniciou a escalada dos juros somente no último mês de março. Atualmente, a taxa do país está no intervalo entre 1,5% a 1,75% ao ano, após iniciar 2022 entre 0% a 0,25%. Analistas e instituições financeiras já enxergam uma grande possibilidade de recessão nos EUA em função do impacto da alta do juro na economia norte-americana.

É o caso do Credit Suisse, que apontou em maio uma grande probabilidade de crise na maior economia do mundo a partir do ano que vem. Nas terras comandadas por Joe Biden, os índices de ações Nasdaq Composite e S&P500 reagem às circunstâncias econômicas desfavoráveis e apresentam grandes quedas de, respectivamente, 28,55% e 19,88% no primeiro semestre, entrando em período de “bear market” – quando as bolsas estão em forte tendência de queda e os investidores mergulham no pessimismo.

Vale lembrar que a conjuntura que atinge os norte-americanos impacta fortemente os mercados internacionais, em especial os emergentes, como o Brasil. Por isso, o comportamento da inflação no exterior é um dos principais assuntos que o investidor precisa acompanhar de perto no segundo semestre. “As atenções do mercado seguem voltadas para os altos indicadores de inflação e a retirada de estímulos nos mercados externos”, diz Pedro Correa, economista e sócio da HCI Invest.

Eduardo Plastino, sócio da Alta Vista Investimentos, afirma que apesar de ter se saído melhor do que a média dos índices de ações internacionais, a performance do Ibovespa no semestre não reflete de forma precisa a situação do mercado nacional. Isso porque poucos papéis relacionados a commodities têm peso significativo no indicador, o principal da bolsa brasileira.

Somente Petrobras e Vale, que estão em alta de 20,5%e 4,74% em 2022, respectivamente, correspondem a 27,2% do índice de ações. “O peso das commodities mascarou um pouco a queda dos demais ativos, principalmente aqueles relacionados ao mercado interno”, afirma Plastino.

A guerra entre Rússia e Ucrânia, iniciada em fevereiro, beneficiou os papéis ligados a insumos como o petróleo. O preço da commodity disparou no exterior com as restrições impostas ao país de Vladimir Putin, o segundo maior produtor do óleo no mundo. Commodities agrícolas e minerais também apresentaram altas. Por isso, o descolamento do setor em relação aos demais da B3.

“O choque de oferta foi positivo para Petrobras. A alta dos papéis da estatal segurou a nossa Bolsa”, afirma Plastino.

Eleições: prepare-se para volatilidade na Bolsa

O desenrolar da corrida eleitoral também deve adicionar aversão a risco na B3. Atualmente, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece na frente nas pesquisas eleitorais pelo Planalto. De acordo com o último relatório do BTG/FSB, divulgada na última segunda-feira (27), o petista tem 43% das intenções de voto, enquanto Jair Bolsonaro aparece com 33%.

“A bolsa deve andar de lado e com volatilidade relativamente alta até outubro”, afirma o chefe de pesquisas da Ativa. “Temos dois candidatos distintos e com propostas econômicas bem diferentes. Até mesmo o Bolsonaro pode mudar sua equipe econômica, então está bem incerto.”

Nesses momentos de alta volatilidade, juros em dois dígitos e aumento da aversão a risco acendem a necessidade de o investidor buscar por empresas resilientes, com resultados crescentes em qualquer cenário e que negociam a preços baixos.

De acordo com Bruce Barbosa, sócio-fundador da Nord Research, as companhias ligadas a commodities são players que conseguem performar bem mesmo dentro de um bear market. O especialista destaca os papéis da PetroRio (PRIO3), que mesclam a resiliência das commodities com um crescimento de resultados impulsionado por fatores particulares da empresa. A PRIO3 acumula uma valorização de 8,51% em 2022.

“A empresa compra campos maduros e aumenta a produção de petróleo rapidamente. A PetroRio vai multiplicar por cinco nos próximos quatro anos, comprando novos campos”, diz Barbosa.

As ações da Locamerica (LCAM3) também devem entrar no radar, diz Barbosa. Mesmo afetada pela inflação e juros altos, já que a locadora de veículos precisa de capital para comprar os carros, a capacidade de repassar os preços é um diferencial. “A companhia consegue vencer a inflação. As pessoas estão comprando menos carros hoje em dia e alugando mais porque os preços dos veículos está muito alto”, afirma.

Serra, da Ativa, diz que a Bolsa está barata e vê as empresas da B3 em situação financeira saudável mesmo em meio às baixas. Entretanto, faltam gatilhos para as valorizações dado o cenário de aperto monetário no mundo e a proximidade das eleições.

“É uma eleição que pode ditar os rumos do mercado. Até lá, falta gatilho para termos uma compra mais consistente de bolsa”, afirma Serra. Entre as principais indicações do chefe de pesquisas da Ativa para atravessar a volatilidade estão as empresas ligadas a commodities, principalmente ao petróleo, como PetroRio, e ao minério, com Vale.

Além destas, os especialistas de mercado destacam Suzano, Minerva e os bancos Itaú e Bradesco como companhias que irão conseguir atravessar esse cenário adverso sem ter seus resultados tão impactados. Para Serra, há oportunidades também no varejo de alta renda, mais resiliente em relação à inflação, além de shoppings centers, que estão voltando a ter circulação de pessoas.

França, da Ágora, indica para momentos de risco alto empresas com endividamento baixo e gestões eficientes, que consigam se adaptar rapidamente a diferentes cenários. Novamente, o setor de commodities é indicado como oportunidade, junto com os papéis de bancos, o setor elétrico, conhecido pelos altos dividendos e baixa volatilidade, além de farmacêuticas e atacarejos.

“Em termos de preço, a bolsa brasileira tem múltiplos atrativos e isso indica que há muitas oportunidades na Bolsa”, diz França. “Tem muita coisa interessante, mas o investidor tem que ter foco de longo prazo e priorizar a diversificação.”

Correa, da HCI Invest, prefere empresas com modelos de negócios robustos, alta geração de caixa e potencial de valorização. Contudo, a maior parte da alocação sugerida pelo especialista para momentos de crise está em ativos de renda fixa curtos, com vencimentos de dois a cinco anos, em títulos públicos pós ou prefixados e crédito high grade (de baixo risco).

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