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Mercado

A Bolsa pode sofrer uma nova depressão em 2020?

Risco de nova onda de covid-19 gera volatilidade e assusta investidor

Homens observando o logo da B3 em sua sede em São Paulo.
Homens observando o logo da B3 em sua sede em São Paulo. (Daniel Teixeira/Estadão)
  • Na última quinta-feira (11), o mercado financeiro internacional viveu um dia de forte volatilidade após divulgação de um relatório do Fed e preocupação com a possibilidade de uma nova onda forte de coronavírus
  • Como a B3 não operou durante o feriado, os ânimos do mercado já estavam mais calmos
  • Ainda assim, no cenário geral, o Brasil não consegue deixar de sentir o baque quando uma onda de pânico se propaga com os pares internacionais
  • Apesar dessa vulnerabilidade, os especialistas ouvidos pelo E-Investidor não acreditam que a Bolsa brasileira possa viver uma nova depressão

Na quinta-feira, 11 de junho, enquanto a B3 estava fechada por conta do feriado de Corpus Christi, o mercado financeiro internacional viveu um dia de forte volatilidade.

De um lado, os humores azedaram com a divulgação do último relatório do Fed, o banco central norte-americano. O documento projeta um futuro mais duro do que se esperava para os Estados Unidos, com retomada econômica mais demorada, maior queda do PIB, uma potencial onda de falências e efeitos nefastos sobre o nível de emprego.

De outro, a preocupação com um segundo surto de contágio pelo coronavírus ficou mais acentuada, com notável aumento de casos em regiões como a Flórida.

“Primeiro, esperava-se que uma eventual segunda onda da covid-19 viria em agosto”, diz o analista Marcio Loréga, da Ativa Investimentos. “Com as aglomerações decorrentes dos protestos pelo assassinato de George Floyd, porém, o mercado temeu que essa segunda onda seria antecipada”. O analista lembra também que os preços das ações sofreram queda generalizada, enquanto o VIX (índice do medo) subiu 43%.

A sorte do Brasil é que esse dia de pânico caiu em um feriado. Quando A B3 retomou as atividades, na manhã da sexta-feira (12), os ânimos do mercado já estavam mais calmos.

“Se tivesse ocorrido pregão na B3 no dia 11, poderíamos perder a região dos 90 mil pontos e até ter um novo circuit breaker, comenta Loréga. “Os mercados perceberam que o fluxo vendedor de ontem foi exagerado e que a temida antecipação da onda de contaminação não tinha respaldo em dados. O fluxo comprador voltou.”

Bolsa brasileira não deve viver nova depressão

Ainda que o balanço da semana da B3 tenha sido salvo pelo feriado – a queda do Ibovespa, de 2%, fechando aos 92.795 pontos, foi relativamente pequena em comparação com as perdas das bolsas do exterior na véspera – o Brasil não consegue deixar de sentir o baque quando uma onda de pânico se propaga no mercado internacional.

“Se um segundo surto da covid-19 ocorrer nos EUA e Europa, isso será precificado por aqui, ainda que o Brasil esteja em um momento anterior da pandemia”, afirma o analista Lucas Carvalho, da Toro Investimentos. “O mercado brasileiro tem uma correlação muito forte com o dos EUA, mesmo tendo as condicionantes próprias do cenário político local.”

Apesar dessa vulnerabilidade, os especialistas ouvidos pelo E-Investidor não acreditam que a Bolsa brasileira possa viver uma nova depressão.

“Algum recuo do Ibovespa seria possível, mas não vejo queda até os níveis da época do estouro da pandemia”, diz o economista Rodrigo Moliterno, da Veedha Investimentos. “As economias vão recuar no segundo trimestre, mas não é o caso de uma depressão global. Os Bancos Centrais dos EUA e Europa têm instrumentos monetários e fiscais para reanimar a economia, e uma depressão só ocorreria se eles não funcionassem.”

Para Loréga, da Ativa, o patamar atual do índice na faixa dos 90 mil pontos “tem um ponto de suporte relevante”, e o viés é de alta. Ele considera, inclusive, que a queda nos preços ocorrida nos últimos dias traz um alívio bem-vindo no fluxo comprador que veio logo antes. E que pode ser parte da construção de uma escalada mais consistente do Ibovespa.

“O mercado não sobe como um cometa, ele pega impulso com saltos de bailarina. Em uma sucessão de volatilidade, se as baixas forem menores que as altas, o índice acabará construindo uma escada”, diz.

Felipe Pássaro, gestor e analista de renda variável da Trafalgar Investimentos, afirma que o risco do cenário vem das incertezas sobre o coronavírus. O mercado não tinha dados para precificar o alcance da pandemia. Conforme cresce o conhecimento sobre a propagação e a letalidade, a volatilidade diminui.

Ele diz que os especialistas trabalham com dois cenários para enfrentar a crise. No primeiro deles, em “V”, as economias reabrem rapidamente. Já o segundo, em “U”, requer um isolamento mais longo, aumentando o número de falências e o desemprego. A gestora entende que o patamar justo do Ibovespa seria na casa dos 105 mil pontos para o cenário em “V” e 90 mil para o em “U”.

“No nosso ver, as quedas de ontem foram causadas pela venda de ações para realização de lucros, o que é saudável em termos de relação risco-retorno”, diz o analista. “O mercado subiu rápido demais, os ativos estavam muito esticados. Ele estava mal comprado: na euforia, você compra o que está subindo, mas sem base real de valor justo. O preço não condizia com o cenário.”

Coronavírus ofusca outras preocupações do cenário político

Nos últimos meses, a pandemia não foi a única variável no cenário internacional: disputas políticas e econômicas também provocaram momentos de instabilidade no mercado. Neste momento, porém, elas estão em segundo plano.

“O que comanda o ambiente internacional e está nos holofotes agora é apenas a covid-19. As tensões comerciais perderam o protagonismo”, diz Moliterno. “O que o mercado lê sobre essa eventual segunda onda do coronavírus é o risco de um novo lockdown.”

Carvalho, da Toro, diz que as atenções do momento estão concentradas na reabertura econômica, que pode ou não ser efetiva. “Qualquer coisa que envolva Washington ou Pequim só interessa se significar o atraso na recuperação dessas economias, que são potências de grande peso na economia mundial.”

Por falar em Estados Unidos, é importante ressaltar que a sucessão presidencial só deve começar a ser precificada de forma direta entre o fim de agosto e o início de setembro. Donald Trump deve retomar o enfrentamento com a China, na tentativa de aumentar sua popularidade com o eleitorado. Seu rival, o democrata Joe Biden, não é visto com bons olhos pelo mercado.

“Uma vitória dos democratas é um novo risco. Vai ter impacto positivo em alguns setores, como saúde e energia verde, e prejudicar outros, como tecnologia e o próprio setor financeiro. Isso porque, a julgar pelo seu discurso, um novo governo democrata deve aumentar a regulação e as taxações sobre esses setores”, explica Pássaro.

No Brasil, impeachment e questão fiscal seguem em aberto

No cenário doméstico, a preocupação com a instabilidade política e a crise institucional também foram eclipsadas pela gestão da pandemia. A única questão que parece importar é quando a economia será reaberta.

“O impeachment do presidente Jair Bolsonaro está cozinhando em fogo brando, é algo que fica no radar, mas ainda não gera incerteza”, diz Lórega, da Ativa.

Carvalho, da Toro, entende que os indicadores da economia devem ser acompanhados com atenção pelo investidor, pois podem aumentar ou diminuir a confiança em uma recuperação mais rápida e gerar otimismo ou volatilidade.

“Os dados de PIB, produção industrial e emprego vieram melhores que o previsto: esperava-se uma queda maior. Se os próximos vierem mais negativos do que se espera, isso poderá estressar o mercado”, alerta.

Para Pássaro, da Trafalgar, o pior cenário possível para o Brasil seria uma recuperação em “U”, pois ela ameaçaria a continuidade da agenda reformista. “Nesse caso, o governo perderia ainda mais apoio popular, deixaria as reformas de lado e o ministro da Economia Paulo Guedes abandonaria o cargo.”

Quais ações serão mais afetadas em um agravamento da crise?

No caso de uma eventual derrocada da Bolsa, as primeiras ações a sofrer serão as de setores mais punidos pelo isolamento, e que dependem da reabertura da economia. É o caso das empresas ligadas ao turismo, das companhias aéreas e do varejo, em especial os shopping centers.

“O e-commerce tende a repetir o bom nível de performance. Mas não sabemos se as compras online serão o novo normal, e nesse caso o varejo físico terá de se readequar, ou se elas foram apenas algo mais circunstancial, pontual”, pondera Lórega.

Ele também lembra que o setor de bancos, que puxa o Ibovespa, também pode se complicar em meio a um provável aumento da inadimplência. “Se as pessoas tomam empréstimos hoje e o cenário volta a piorar, elas terão dificuldade de honrar os compromissos.”

Felipe Pássaro comenta que, além do e-commerce, aplicativos de entrega, empresas de jogos e educação online tiveram um crescimento notável durante a pandemia. Mas somente aquelas que foram capazes de entregar uma experiência positiva para o usuário devem manter o ritmo de crescimento.

“As empresas de educação não estavam preparadas para a explosão da demanda e precisam refinar suas plataformas. No caso dos jogos, eles perderão espaço na medida em que os consumidores voltarem a trabalhar e estudar e tiverem menos tempo livre.”

Como apostas mais seguras, capazes de entregar resultados em qualquer cenário, o analista da Trafalgar destaca empresas com boa gestão, que aproveitaram a crise para se reinventar e fortalecer seu mercado.

“A Weg, por exemplo, se reinventou muito rápido: 30% da receita atual dela vem de produtos que ela não tinha três anos atrás. Já a Equatorial, de energia, investiu em tecnologia e fez melhorias em sua rede.”

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