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Novo plano da Oi (OIBR3) será suficiente? Analistas falam sobre os riscos

Empresa enfrenta segundo processo de recuperação judicial, com uma série de riscos no radar

Novo plano da Oi (OIBR3) será suficiente? Analistas falam sobre os riscos
Fachada de loja da Oi, na Avenida Paulista, região central de São Paulo. - Crédito:ITACI BATISTA/AE/
  • A Oi (OIBR3) saiu da primeira recuperação judicial bem menor do que entrou
  • Durante o processo, iniciado em 2016 e finalizado em dezembro do ano passado, a empresa vendeu alguns dos seus principais ativos, como a Oi Móvel
  • Agora, na segunda recuperação judicial, o escopo para venda de ativos fica mais estreito, segundo analistas. A obtenção de crédito também levanta incertezas

A Oi (OIBR3) saiu da primeira recuperação judicial bem menor do que entrou. Durante o processo, iniciado em 2016 e finalizado em dezembro do ano passado, a empresa vendeu alguns dos seus principais ativos, como a Oi Móvel, além de datacenter e torres, com o objetivo de melhorar a estrutura de capital.

Os esforços não tiveram o resultado esperado. No início de março deste ano, a empresa de telecomunicações surpreendeu o mercado com o pedido de uma segunda recuperação judicial, cujo plano de reestruturação foi aprovado pelo Conselho de Administração da companhia no último sábado (20).

Na segunda-feira (22), a Oi divulgou prejuízo líquido de R$ 17,6 bilhões no quarto trimestre de 2022, ante prejuízo de R$ 3,5 bilhões registrados um ano antes. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de rotina somou, no mesmo intervalo, R$ 396 milhões, uma queda anual de 75,4%, quando a Oi atingiu R$ 1,612 bilhão. Os números cravam o pior resultado da história da companhia, segundo levantamento realizado pela Economatica.

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No quarto trimestre de 2022, a receita líquida consolidada das operações brasileiras apresentou queda de 42,1% na comparação anual e de 4,7% ante o terceiro trimestre de 2022.

A nova estratégia para manter de pé a companhia de telecomunicações inclui quatro grandes frentes: a reestruturação de créditos concursais (negociação de condições melhores para as dívidas); um empréstimo de R$ 4 bilhões; aumentos de capital por meio de subscrição pública ou privada e contratação de novas linhas de crédito; e ainda, potenciais novas vendas de ativos.

A notícia impulsionou as ações da Oi na segunda-feira (22), que chegaram a subir mais de 6% nas primeiras horas. No final, a OIBR3 terminou a primeira sessão da semana em alta de 2,04%, aos R$ 2,50. Entretanto, analistas de mercado continuam bastante cautelosos com a empresa.

Venda de ativos

Gabriel Bassotto, analista chefe de ações do Simpla Club, tem dúvidas em relação ao sucesso do novo plano. Um dos pontos chave a considerar é que os principais ativos da empresa já foram vendidos na primeira recuperação judicial.

Agora, a Oi pretende alienar quase todos os negócios restantes, incluindo os considerados mais importantes para a rentabilidade da companhia. É o caso de possível alienação de parte da posição acionária relevante que detém na V.tal, empresa de rede neutra de fibra ótica que hoje é um dos principais ativos da empresa de telecomunicações.

Também estão na lista de possíveis alienações a Oi Soluções (serviços de tecnologia para empresas), base de assinantes da TV via satélite, imóveis da empresa e outras participações.

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“Nenhum desses ativos têm valores muito interessantes, não conseguem bater de frente com o valor das dívidas da empresa. É uma situação muito perigosa”, afirma Bassoto. “E a operação também não vai tão bem. Para conseguir suprir a dívida de mais de R$ 40 bilhões, a Oi precisaria gerar muito caixa.”

No balanço do 4º trimestre de 2022, a Oi reportou um fluxo de caixa negativo em R$ 188 milhões. “Não recomendamos as ações porque acreditamos que não existe qualidade suficiente na operação e assimetria favorável. A empresa se mostra sem saúde financeira suficiente e sem grandes alternativas para sair dessa recuperação judicial mais forte”, diz Bassoto.

Vale lembrar também que a venda de ativos em massa resulta em receitas menores no futuro – portanto, a empresa vive uma situação de “cobertor curto”. A Oi Soluções, por exemplo, era responsável por 23% das receitas nos nove primeiros meses do ano passado, de acordo com informações que constam no laudo econômico da Oi no âmbito da recuperação judicial.

Crédito no mercado

Marcelo Citadin, especialista em investimentos e sócio da GT Capital, afirma que a aprovação do segundo plano de recuperação judicial é, de fato, um passo importante, mas que só isso não basta. Outra questão que preocupa é quanto a Oi conseguirá de crédito junto ao mercado, já que o plano de recuperação demanda levantamento de capital.

“Além de ter que reestruturar os passivos com os credores no intuito de alongar a dívida, a empresa precisa montar um plano junto a esses agentes de crédito para melhorar a imagem da companhia entre as instituições financeiras. Isso para conseguir crédito com mais facilidade, já que no setor de telecomunicações é extremamente necessário a empresa ter um fluxo de caixa saudável devido as baixas margens naturais do setor”, diz Citadin.

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Ricardo Brasil, fundador da Gava Investimentos e pós-graduado em análise financeira, ressalta as incertezas relacionadas a um dos principais pontos do novo plano de recuperação judicial, que é o financiamento de R$ 4 bilhões por meio de um empréstimo na modalidade DIP (Debtor in Possession).

No DIP, o credor responsável por emprestar o dinheiro ganha prioridade na ordem de pagamentos da dívida. “Pode ser que a Oi não consiga esse empréstimo de R$ 4 bilhões, vai depender muito dos credores acreditarem nessa recuperação judicial e terem interesse em furar a fila de pagamentos”, afirma Brasil. “Em relação à recomendação para as ações, eu, particularmente, não acho que vale a pena a relação entre risco e retorno.”

Novos riscos

Fora as questões relativas ao plano de recuperação judicial, um novo risco surgiu no horizonte. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) abriu no dia 8 de maio um processo contra a Oi para investigar se a empresa possui condições econômicas de manter os contratos, segundo informações do Estadão. Em último caso, a companhia de telecomunicações perderia a concessão de telefonia fixa, um distrato inédito no país.

Segundo a Oi, não há razão para a medida, uma vez que a recuperação judicial não teria impactado as operações. Mesmo assim, os investidores devem acompanhar de perto o desenrolar desse imbróglio, que adiciona mais volatilidade aos negócios e ações da companhia. “Por enquanto é um sinal vermelho, devemos entender o que isso significará no longo prazo”, diz Brasil.

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