Do tarifaço às guerras: em pouco mais de um ano, Trump redefiniu o risco nos mercados globais
Tarifas comerciais, pressão sobre o Fed e choques geopolíticos recolocaram a política americana no centro da formação de preços de ativos, do dólar ao petróleo
Segundo mandato de Donald Trump devolve a política americana ao centro da precificação global, com impacto direto sobre comércio, juros e energia. (Foto: Adobe Stock)
Quando Donald Trump voltou à Casa Branca, em 20 de janeiro de 2025, o mercado global rapidamente percebeu que o segundo mandato não seria marcado por um único choque disruptivo, mas por uma sequência de decisões capazes de alterar, quase que diariamente, a formação de preços no mundo. Em menos de dois anos, a política americana voltou ao centro da equação de risco mexendo, sobretudo, com o preço do comércio, o preço do dinheiro e o preço da energia.
No seu primeiro dia como 47º presidente dos EUA, Trump assinou a ordem para retirar os Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde (OMS), com saída oficial em 22 de janeiro deste ano, há 1 mês e meio. Na época, a decisão reacendeu o debate sobre coordenação internacional em crises sanitárias e cadeias globais de suprimento, um tema sensível desde a pandemia (2020-2022). Com a saída do país norte-americano, a OMS perdeu 18% do total de contribuições que recebia.
Paralelamente, a ofensiva na política migratória e de fronteira ganhou força. Embora sejam medidas domésticas, os reflexos macroeconômicos rapidamente entraram no radar de investidores. Menor oferta de trabalho poderia pressionar salários no setor de serviços, afetar expectativas de inflação e, por consequência, alterar a trajetória de juros nos EUA. No dia 6 de setembro do ano passado, que mostra os números de agosto, o resultado do indicador de trabalho veio baixíssimo, com apenas 22 mil vagas fora do setor agropecuário. Esse número nasceu de sucessivas quedas, como a de julho daquele mesmo ano, que registrou somente 79 mil empregos.
Para Pedro Ros, economista e CEO da Referência Capital, o segundo mandato de Trump “tem sido marcado menos por um único grande choque e mais por uma sequência de decisões que reforçam um padrão: maior imprevisibilidade regulatória, uso intensivo de tarifas como ferramenta de negociação e política externa mais transacional”. O efeito prático, segundo ele, foi a elevação do prêmio de risco embutido em bolsas, moedas e curvas de juros ao redor do mundo.
Julho de 2025: o tarifaço e a volta da guerra comercial
O capítulo mais sensível para os mercados começou em julho de 2025, quando um novo pacote de tarifas desencadeou reação negativa imediata nas bolsas globais. O receio de uma guerra comercial levou analistas a revisarem simultaneamente projeções de crescimento e inflação.
A escalada incluiu aumentos tarifários relevantes contra a China e, posteriormente, contra México e Canadá, dois aliados históricos dos EUA.
“Dentre os principais momentos, eu destacaria a guerra comercial com China, e depois México e Canadá, com aumentos significativos de tarifa sobre estes países, que trouxe bastante volatilidade”, afirma Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos.
Ao longo de 2025, a política tarifária se expandiu para dezenas de países e setores estratégicos, com alíquotas elevadas sobre cobre e ameaças envolvendo semicondutores e farmacêuticos, itens centrais para cadeias industriais e para a dinâmica inflacionária global. A partir daí, tarifas deixaram de ser ruído político e passaram a ser variável diária de precificação.
Pressão sobre o Fed e o “preço do dinheiro”
Outro ponto de inflexão veio com a indicação de Kevin Warsh para liderar o Federal Reserve (Fed). A escolha reacendeu debates sobre a independência do banco central americano e sobre o ritmo de cortes de juros.
Em um ambiente já sensível a qualquer mudança na política monetária dos EUA, a discussão adicionou volatilidade às curvas de juros e impactou o fluxo para emergentes. Ros observa que, desde janeiro de 2025, a administração Trump passou a influenciar diretamente “o preço do dinheiro”, ao elevar a incerteza sobre o rumo da política monetária.
A percepção de expansão fiscal e de pressão sobre o Fed também entrou na leitura cambial. Para Bruno Perri, “a expansão fiscal e a pressão sobre o Fed também são fundamentais para o cenário de depreciação do dólar atual, que, diga-se, não deixa de ser um dos objetivos do presidente Trump“. No médio prazo, ele vê riscos fiscais capazes de reforçar a tese estrutural de enfraquecimento da moeda americana, o chamado “debasement“.
Em fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos EUA derrubou o arcabouço legal que sustentava parte das tarifas globais. Longe de encerrar o tema, a decisão abriu nova rodada de incerteza. O governo respondeu com um tarifaço temporário de 15% por 150 dias.
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O episódio consolidou um novo elemento na análise de risco. Além do conteúdo das medidas, investidores passaram a precificar o risco jurídico e a probabilidade de mudanças abruptas nas regras do jogo.
Energia e geopolítica: Rússia, Ucrânia e o canal do petróleo
Na frente energética, as discussões sobre sanções à Rússia e o posicionamento americano na guerra da Ucrânia mantiveram o petróleo como canal direto de transmissão para a inflação global. Cada sinal de endurecimento ou flexibilização nas sanções se refletia rapidamente nos preços da commodity e, em cadeia, nas expectativas de juros e no desempenho das bolsas.
Essa sensibilidade ficou ainda mais evidente com a escalada no Oriente Médio.
Ataques ao Irã e novo choque geopolítico
Na sexta-feira (27), Estados Unidos e Israel lançaram ataques coordenados contra o Irã, em uma operação descrita pelo governo americano como o início de “operações de combate em larga escala”. O próprio Trump afirmou que o objetivo era neutralizar capacidades militares iranianas e impedir o desenvolvimento de armas nucleares.
A ofensiva ocorreu após semanas de deterioração nas negociações em torno das instalações nucleares do Irã e foi precedida por ampla mobilização militar na região. Já na sexta-feira anterior (20), com a intensificação dos rumores, o petróleo havia subido cerca de 3%. No acumulado do mês, o Brentavançava 8,6%, refletindo preocupações com potenciais choques de oferta, segundo a XP Investimentos.
Matthew Ryan, head de estratégia de mercado global da Ebury, lembra que parte do risco já estava precificado. “Os contratos futuros do Brent, com alta de 20% no ano antes do fim de semana, já precificavam parcialmente uma intensificação do conflito”, afirma. Ainda assim, Ryan espera um clássico movimento de aversão ao risco, com fortalecimento do dólar e fluxo para ativos considerados seguros.
Ryan projeta pressão sobre moedas de maior risco e mercados emergentes, enquanto moedas ligadas a commoditiese petróleo poderiam se beneficiar. O fechamento de fato do Estreito de Ormuz, ainda que não oficial, foi citado como fator capaz de amplificar a alta da commodity.
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Para Bruno Perri, “com o petróleo em alta e também o dólar, há expectativa de impacto positivo no ‘top line’ dessas empresas”, diz, citando companhias brasileiras como Petrobras, PetroRio e PetroReconcavo. No curto prazo, ele espera pressão inflacionária e aumento da aversão ao risco; no médio prazo, os riscos fiscais americanos podem reforçar a tese de enfraquecimento estrutural do dólar.
O reflexo no Brasil: rotação de fluxo e mudança de regime
Enquanto o cenário externo se tornava mais volátil, o Brasil passou a atrair fluxo relevante. Segundo Einar Rivero, CEO da Elos Ayta Consultoria, o comportamento dos principais índices até fevereiro de 2026 revela “um mercado em clara transição de regime”.
Em 12 meses, o ouroacumulou 85,32%, consolidando-se como porto seguro dominante. Mas, em 2026, a Bolsa brasileira ganhou protagonismo: o Ibovespa subiu 17,17% até fevereiro, com 27 dos 34 índices da B3 renovando máximas históricas.
O dado mais expressivo, segundo Rivero, é o fluxo estrangeiro. Até 25 de fevereiro, investidores internacionais acumulavam saldo líquido de R$ 41,73 bilhões, com participação de 61% no volume negociado. “Esse tipo de sincronização sugere que o investidor não está escolhendo histórias isoladas, mas aumentando a exposição ao mercado brasileiro como um todo”, explica.
O pano de fundo inclui a expectativa de um novo ciclo de afrouxamento monetário no Brasil, discutida em relatório pelo Itaú BBA, em um ambiente de confiança restaurada na política do Banco Central e juros reais em processo de acomodação.
Dois anos, três preços e um novo eixo de risco
Em menos de dois anos, o governo Trump reintroduziu a política americana como principal vetor da precificação global. Comércio sob tensão, debate sobre independência do Fed e choques energéticos sucessivos transformaram a volatilidade em elemento estrutural do cenário.
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Como resume Pedro Ros, a volatilidade recente “não decorre apenas das decisões em si, mas da percepção de que novas mudanças podem surgir com rapidez”. O resultado é um ambiente em que investidores precisam precificar simultaneamente crescimento, inflação e a probabilidade de ruptura de regras, mantendo Washington, mais uma vez, no centro do tabuleiro financeiro global.