Balanços de big techs já mostram quem lucra com IA e quem ainda aposta no futuro; veja quem saiu na frente
Entre Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Apple, tecnologia já se tornou o principal motor de crescimento de receita em três delas; confira as análises dos resultados do 1T26
Gigantes de tecnologia aceleram investimentos em inteligência artificial, mas mercado cobra retorno e diferencia quem já monetiza a tecnologia. (Foto: Envato Elements)
A inteligência artificial(IA) deixou de ser apenas uma promessa e passou a impactar diretamente receita, crescimento e geração de caixa das gigantes de tecnologia, mas os balanços do primeiro trimestre de 2026 (1T26) das big techs mostram que nem todas estão no mesmo estágio de monetização. Assim, o mercado financeiro busca diferenciar quais empresas já conseguem transformar IA em resultados concretos e quais seguem apostando em projetos de retorno mais distante.
“A inteligência artificial já é o principal driver (motor) de crescimento de receita e narrativa em Microsoft, Alphabet (Google), Amazon, Meta (Facebook), todas essas que reportaram balanços ontem à noite. O curioso é que na Apple, que reporta hoje à noite, o tema da IA ainda segue muito mais sendo uma promessa, uma história do que uma linha de negócio mensurável”, afirma Fernando Saad, analista de Alocação e Inteligência da Avenue.
“O que o investidor precisa entender é que estar exposto a esses nomes significa ter uma espada de corte duplo. Em momentos de otimismo, o mercado paga mais para ver, mas em momentos de cautela, os investidores não se sentem confortáveis em estar no escuro de quando investimentos nessas tecnologias vão voltar para os seus bolsos”, afirma.
Para Saad, nuvem e serviços B2B(business tobusiness, de empresa para empresa) seguem como os segmentos mais promissores dentro da corrida da inteligência artificial, principalmente pela combinação de contratos recorrentes, tickets elevados e forte retenção de clientes. Ao mesmo tempo, ele afirma que a IA generativa ainda possui amplo espaço de expansão tanto no ambiente corporativo quanto no uso pessoal.
“A Microsoft, com sua aposta na nuvem e no OpenAI, está consolidando sua liderança no setor corporativo, já com resultados tangíveis. Alphabet, por sua vez, está expandindo suas capacidades de IA em várias frentes, desde o Google Cloud até suas iniciativas em IA generativa”, afirma Antonio Patrus, diretor da Bossa Invest.
“Vi resultados sólidos em praticamente todas, com aceleração clara em segmentos ligados a IA, seja via nuvem, infraestrutura ou ferramentas generativas”, diz Gabriel Uarian, analista-chefe da Cultura Capital. Segundo ele, a Alphabet mostrou “Google Cloud explodindo 63%, com backlog [carteira de contratos fechados cuja receita ainda não foi reconhecida] quase dobrando para mais de US$ 460 bilhões”.
Apple ainda não chegou lá
João Kepler, CEO da Equity Group, pondera que nem todas as gigantes estão no mesmo estágio de IA. “Quando olhamos para Meta (M1TA34) e Amazon, o cenário é um pouco mais incerto. A Meta está em um projeto de longo prazo com o metaverso, mas a monetização dessa tecnologia ainda está muito distante. A Amazon, enquanto líder de nuvem, ainda precisa provar que os seus investimentos em IA podem gerar retorno”, explica.
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Celso Camilo, professor de Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (UFGO), também avalia que as companhias ainda dependem de transformar os avanços tecnológicos em geração consistente de valor e fluxo de caixa previsível.
Segundo ele, a Apple (AAPL34) parece seguir uma estratégia distinta das demais gigantes da tecnologia. “Aparentemente ela não está na corrida do capex de AI, mas focada no ecossistema e em embarcar as soluções existentes e edge AI [que roda diretamente no dispositivo do usuário]”, explica.
“Apple bateu recordes com iPhone e serviços, mas o AI ainda aparece mais como um catalisador futuro via Apple Intelligence do que como driver imediato de números”, afirma Urian.
Essa preocupação aparece também nos investimentos bilionários em infraestrutura. Tanto Microsoft (MSFT34) quanto Alphabet (GOGL34), a dona do Google, elevaram fortemente seus gastos de capital para sustentar a expansão da IA.
No caso da Alphabet, o Itaú BBA destacou que o mercado recebeu positivamente o aumento dos investimentos após a empresa demonstrar forte aceleração operacional. O banco ressaltou que o Google Cloud poderia ter crescido ainda mais se não estivesse limitado por capacidade computacional. O backlog da divisão de nuvem praticamente dobrou trimestre contra trimestre, chegando a US$ 462 bilhões, o que, segundo o BBA, reforça a visibilidade de crescimento para os próximos períodos.
O banco também destacou que o Search (negócio de busca do Google), antes visto como vulnerável à disrupção provocada por chatbots de IA, voltou a acelerar e cresceu 19% na comparação anual, impulsionado justamente pelas novas funcionalidades de inteligência artificial.
“A quantidade de buscas e usuários atingiu máximas históricas, provando que os novos recursos de IA estão aumentando o uso da plataforma”, destacou o relatório do Itaú BBA.
A corrida por IA traz riscos para investidores
Patrus afirma que o aumento do capex“é uma aposta no futuro”, mas que, no curto prazo, pode pressionar margens devido aos investimentos bilionários em infraestrutura e tecnologia que ainda não geram retorno imediato.
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“Empresas como Microsoft e Amazon (AMZO34), com modelos de negócios mais maduros e uma base sólida de clientes, têm maior capacidade de absorver esses investimentos pesados em IA sem comprometer sua rentabilidade. Já Meta pode ver suas margens pressionadas à medida que continua investindo pesadamente no metaverso”, afirma.
Kepler segue a mesma linha. Segundo ele, o investidor precisa entender que a IA possui enorme potencial disruptivo, mas que os gastos elevados podem reduzir rentabilidade no curto prazo.
“O investidor precisa olhar para o longo prazo, mas deve estar atento à possibilidade de margens comprimidas nos próximos anos”, avisa.
Vale a pena investir nas big techs?
Para o investidor brasileiro, os especialistas avaliam que as big techs norte-americanas continuam sendo uma alternativa atrativa de exposição internacional, principalmente no longo prazo.
“As big techs dos EUA ainda representam uma excelente oportunidade de exposição, especialmente no longo prazo. Elas continuam sendo líderes em inovação e dominam mercados globais de tecnologia e infraestrutura“, afirma Patrus.
Ele ressalta, porém, que os riscos aumentaram. Entre eles estão a tensão geopolítica entre EUA e China, maior pressão regulatória, possíveis discussões antitruste e o elevado volume de investimentos em IA.
Apesar dos riscos, o analista da Avenue Fernando Saad ressalta que o setor de tecnologia segue sendo o principal vetor de otimismo em Wall Street. “Inclusive sendo o principal driver para uma revisão positiva nas projeções dos analistas entre janeiro e abril”, explica.
Uarian avalia que ainda faz sentido aumentar exposição às big techs, inclusive via fundos de índice negociados em bolsa de valores, os ETFs, ligados ao Nasdaq, mas reforça que a diversificação é essencial.
“O dólar alto e a volatilidade do real são realidades, mas o crescimento estrutural dessas empresas, combinado com geração de caixa em dólar, oferece proteção boa contra inflação e instabilidade local no médio e longo prazo”, afirma.
Segundo ele, os nomes mais atrativos hoje são Microsoft, Alphabet e Amazon, enquanto a Apple oferece estabilidade e a Meta exige maior tolerância à volatilidade. Camilo também vê espaço para maior exposição às gigantes norte-americanas, mas defende foco em companhias que já conseguem monetizar IA de forma comprovada.
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Na visão dos especialistas, entre as big techs, Microsoft e Alphabet aparecem hoje como as companhias mais bem posicionadas para transformar IA em crescimento consistente e sustentável. Já empresas com apostas mais dependentes de projetos futuros, como Meta, tendem a carregar maior volatilidade no curto e no médio prazo.