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O que está por trás do “Superapp” do Itaú

Aplicativo consolida liderança do banco entre instituições tradicionais, mas há desafios

O que está por trás do “Superapp” do Itaú
Entenda os impactos do "Superapp" do Itaú (Foto: Itaú/SM2 Estúdio)
  • De acordo com entrevista concedida ao Estadão, o banco da família Moreira Salles deve lançar o “superaplicativo” no segundo semestre deste ano
  • Basicamente, o “Superapp” é o aplicativo atual do Itaú, só que acessível a todos os clientes
  • Está é a tendência trazida pelas instituições financeiras digitais, como Nubank, XP e Inter, mas que ainda não havia sido explorada no universo de bancos tradicionais

Há duas décadas, um novo modelo de negócio surgia com o lançamento da XP Investimentos. A corretora caiu no gosto dos brasileiros ao oferecer produtos de diversas instituições, ao passo que os bancos tradicionais só tinham em suas prateleiras aplicações em seus próprios produtos. Este foi o primeiro golpe no “status quo” do mercado bancário brasileiro.

O segundo veio em 2013, quando outra companhia disruptiva apareceu no horizonte: a proposta do Nubank de ser um banco completamente digital agradou principalmente a população de renda mais baixa, cujo atendimento costumava ficar fora dos holofotes das grandes financeiras.

Logo, XP, Nubank e outras “fintechs” avançaram sobre os clientes e começaram a incomodar os “bancões”. Um deles, entretanto, reagiu muito mais rápido do que os outros. Agora, segue consolidando uma posição de liderança.

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O centenário Itaú (ITUB3; ITUB4) comprou em 2017 uma participação de 49% na XP. A fatia, no entanto, foi vendida no final do ano passado. O banco já comprou também participação na corretora Avenue e, agora, deve dar mais um passo em direção à modernização – e também a conseguir “morder de volta” os clientes perdidos para as fintechs. De acordo com entrevista ao Estadão, o banco da família Moreira Salles deve lançar um “superaplicativo” no segundo semestre deste ano.

Basicamente, o “superapp” é o aplicativo atual do Itaú, com diferença de ser acessível a todos os clientes. Antes, os usuários que só adquiriam um cartão da instituição, por exemplo, mas que não eram correntistas, não podiam acessar o app principal. Agora, correntistas e não correntistas vão poder navegar por uma única solução. A estimativa é de que 15 milhões de clientes sejam integrados.

“A partir de agora, todos os clientes do Itaú, com conta corrente ou não, terão acesso a interfaces personalizadas com inteligência artificial, além de novas funcionalidades em cartões, segurança e limite, que trarão ainda mais agilidade e simplicidade em todas as operações diárias”, diz o Itaú, em nota enviada ao E-Investidor.

Está é a tendência trazida pelas instituições financeiras digitais, mas que ainda não havia sido explorada no universo de bancos tradicionais. Pelo menos, até o momento. “Antigamente, a conta corrente era uma porta de entrada para os bancos. Hoje, isso não é mais verdade. Muitas vezes o cliente entra pelo cartão, por algum tipo de financiamento ou até mesmo por algum produto de investimento”, aponta Larissa Quaresma, analista da Empiricus Investimentos. “Com essa iniciativa o Itaú ele se alinha às práticas das fintechs, em que o cliente é cliente, seja qual for o produto em que ele esteja.”

Para Eduardo Menicucci, professor da Fundação Dom Cabral, o superapp serve para o Itaú tentar reverter o movimento negativo dos últimos anos. “O que o Itaú está fazendo agora, com um atraso gigante, é tentar recuperar esse espaço que eles vêm perdendo há duas décadas (desde o surgimento da XP, e depois com o Nubank)”, diz Menicucci. “Eles conseguiram entender, por definitivo, que o público mais novo não vai em agência bancária.”

Itaú corre atrás das “fintechs”, mas à frente dos bancões

Mesmo com o “atraso gigante”, citado pelo docente, o superapp aumenta ainda mais a distância entre o Itaú e os pares Santander (SANB11), Bradesco (BBDC3; BBDC4), Banco do Brasil (BBAS3) e Caixa. “O Itaú vai sair muito na frente (dos outros bancões). E é óbvio que eles estudaram o Nubank e o Inter e vão criar alguma coisa que consiga, na pior das hipóteses, ser igual a esses dois”, diz Menicucci. “Mas não sei se tem alguma inovação que faça um cliente já fidelizado a um banco digital, migrar para o Itaú.”

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Essa também é a visão de Victor Bueno, sócio e analista de ações da Nord Research. Para ele, o superapp diminui o risco, observado nos demais bancões, de perda de market share (participação de mercado) para os players digitais – que estão em franco crescimento. O Nubank, por exemplo, já possui mais de 90 milhões de clientes e um valor de mercado parecido com o do Itaú na Bolsa de Valores. Entretanto, em vez de 100 anos, a fintech tem pouco mais de uma década de existência.

“Um dos principais riscos relacionados ao Itaú e também aos outros bancos incumbentes é exatamente o crescimento desses players menores. Logo, os bancos que focarem mais em digitalização e modernização serão aqueles que não terão esse risco tão concretizado”, diz Bueno. “É uma jogada bastante inteligente por parte do Itaú, exatamente para que eles não tenham essa perda de base futuramente e, consequentemente, uma perda financeira.”

Ulysses Reis, professor de MBAs da FGV, aponta que o feito do Itaú com o superapp não é trivial, principalmente por se tratar de uma instituição que nasceu “analógica” e teve que se reinventar ao longo dos anos. Para ele, a tradição de investimento em tecnologia, desde a criação da Itautec, nos anos 1980, colocou o banco em uma posição mais favorável para “contra-atacar” as fintechs.

Para o Itaú, a principal diferença do superapp da instituição para outras plataformas semelhantes e já em funcionamento, como a do Inter, é a oferta de produtos e capacidade de hiperpersonalizar essa oferta. “O superapp do Itaú conta com a maior prateleira de produtos do mercado financeiro, onde o cliente pode se servir da forma que for mais conveniente e adequado ao seu momento de vida”, ressalta o Itaú. “O objetivo final é estar totalmente conectado as necessidades e demandas financeiras dos clientes, tornando-se um consultor financeiro.”

Outro ponto importante é que permitindo o acesso de não-correntistas, o Itaú também abre uma porta para atrair as classes C e D – tradicionalmente alvo dos bancos digitais e players como o Bradesco. O momento não poderia ser mais oportuno.

Segundo Quaresma, da Empiricus, a inadimplência das famílias migra para um ciclo de baixa, após atingir o pico nos últimos anos. Junto com essa mudança, o Itaú altera seu posicionamento, o que mostra a capacidade do banco de se reinventar.

“Nos últimos anos, a gente viu a inadimplência das famílias aumentar muito no Brasil, principalmente nas famílias de menor renda. E o Itaú, corretamente, fez um movimento de reduzir drasticamente a exposição dele a esse segmento”, diz Quaresma. “Há alguns meses, estamos vendo essa inadimplência cair. Parece-nos o momento certo para voltar a ser agressivo nos clientes de baixa renda.”

O tesouro do século

Mais do que permitir que não-correntistas acessem o app principal, a expectativa é de que o Itaú utilize a modernização da plataforma para ampliar o arcabouço informacional sobre os clientes, na esteira do Open Finance.

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Para quem não conhece o termo, o Open Finance ou “Sistema Financeiro Aberto” é a possibilidade de clientes compartilharem dados financeiros com diferentes bancos. Desta forma, todas as instituições vão conseguir “enxergar” seu histórico financeiro e oferecer produtos e serviços mais adequados. A ideia é também tornar possível a movimentação de contas bancárias a partir de diversas plataformas, não apenas aquela em que o usuário tem conta ou cartão.

No caso do Itaú, por exemplo, a integração das diversas plataformas em um aplicativo único possibilitará inovações com base no uso massivo de dados. “Conseguimos realizar testes e desenvolvimento de produtos e soluções hiperpersonalizadas de forma muito mais ágil e em escala dentro da organização. Além disso, abrimos as portas para que possamos embarcar novas tecnologias, como a inteligência artificial e a IA generativa. Como resultado, nosso superapp se tornará um verdadeiro consultor financeiro do cliente”, diz o banco, em nota.

De acordo com Reis, professor de MBAs da FGV, o “superaplicativo” do Itaú é a oportunidade de uma grande gama de informações derivada do Open Finance ficar, pela primeira vez, nas mãos de um “bancão”.

“O Itaú pode ter acesso, por exemplo, a que contas aquele cliente paga, qual é a movimentação financeira dessa pessoa, quais são os investimentos, sendo o usuário cliente ou não do banco”, diz Reis. “É um nível de informação fabuloso sobre os clientes, uma grande solução disruptiva e que abre todo um caminho novo para os investimentos bancários, para uma melhor gestão e para a captação de clientes.”

Sylvie Ane Massaini, professora de finanças no curso de administração da ESPM, também reforça o avanço informacional que o superapp pode trazer ao Itaú, para além da melhora da experiência do usuário. “Com inteligência artificial, aprendizado de máquina, o próprio aplicativo do banco pode entender seu padrão de consumo, te sugerir produtos bancários e investimentos”, afirma.

No final, o grande diferencial do superapp do Itaú para outros que já existem no mercado é, justamente, o acesso a uma base de dados muito mais robusta – dados, estes, que são o “tesouro do século”.

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“Na minha visão, o que pode estar por trás do super aplicativo, na verdade, é o acesso que um único banco nunca teve a todo conjunto muito detalhado de informações sobre os clientes. Isso é muito importante”, ressalta Reis.

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