Após divulgar o balanço do 4T25, o Bradesco (BBDC4) afirmou que lucro e rentabilidade devem continuar em alta, mas o mercado reagiu mal ao guidance e as ações caíram mais de 5% na B3. (Imagem: Adobe Stock)
Sob desconfiança do mercado financeiro após apresentar projeções avaliadas como mais conservadoras, o presidente do Bradesco (BBDC3; BBDC4), Marcelo Noronha, redobrou a aposta no discurso que tem feito desde o começo do plano estratégico de transformação, anunciado há dois anos. O banqueiro prometeu manter o ritmo gradual de avanço da rentabilidade enquanto impulsiona os investimentos em tecnologia, em busca de mais competitividade.
Na coletiva de imprensa para comentar o balanço do quarto trimestre de 2025 (4T25), Noronha avisou que, daqui para frente, o retorno sobre patrimônio (RoE) continuará subindo, depois de fechar o período em 15,2% e finalmente superar o custo de capital. “Continuamos com upside (tendência de alta), vamos continuar entregando lucro e RoE. Na carteira de crédito, crescemos em tudo”, afirmou.
A mensagem, no entanto, pouco mudou os ânimos dos mercados: a ação do Bradesco chegou a despencar 5% na B3na tarde da sexta-feira (6) depois de uma reação já negativa dos American Depositary Receipts (ADRs, título que representa ação de empresa sediada no exterior) em Wall Street na noite de quinta, após a divulgação dos resultados.
O movimento reflete a percepção de que a instituição financeira entregou um guidance(projeção) mais comedido do que o esperado, em um momento de maior maturidade no ciclo de reestruturação. Para a carteira de crédito, a previsão é de crescimento na faixa entre 8,5% e 10,5%, uma desaceleração após a expansão de 11% em 2026.
Durante a conferência com analistas, Marcelo Noronha foi questionado repetidas vezes sobre o guidance. Ele defendeu as projeções e alegou que há um “equívoco” na avaliação dos analistas e dos investidores, que chegaram a esperar lucro de R$ 30 bilhões em 2026. O executivo se disse otimista de que o banco terá crescimento “do meio para cima” da faixa das projeções.
Sobre a reação nas mesas de operações, Noronha lembrou que os papéis tiveram forte alta nos últimos meses e só em 2025 subiram mais de 100%, o que incentiva um ajuste. “O mercado me cobra mais que o meu chefe, mais que o Conselho de Administração”, brincou.
“Vi que o mercado aumenta a bitola na hora de tirar sangue a cada trimestre, mas não dá para fazer com aquela bitola do trimestre passado, agora é um pouco mais”, disse ao comentar com jornalistas a reação do mercado com o balanço.
Como o mercado financeiro recebeu o balanço do Bradesco no 4T25?
Na visão de analistas do BTG Pactual, havia expectativa por uma surpresa no lucro, que somou R$ 6,5 bilhões no 4T25 e ficou em linha com as previsões de analistas consultados pelo Prévias Broadcast. No entanto, eles lembram que o plano de transformação se estende por cinco anos, em um processo gradativo. “É difícil olhar para os números e o guidance e dizer que o Bradesco não está entregando o que prometeu”, destacou.
Para o analista Eduardo Nishio, da Genial investimentos, o Bradesco possui espaço para superar as projeções, dado que está aproximadamente seis meses adiantado em seu plano de reestruturação.
“Em um ano eleitoral, no qual o cenário macro pode mudar de forma mais abrupta, entendemos que os bancos tendem a divulgar guidances mais conservadores no início do ciclo”, ressaltou.
Nishio avalia que o resultado do Bradesco no quarto trimestre foi “consistente”, com lucro em alta e rentabilidade mantendo a trajetória de melhora, refletindo a combinação de crescimento de receitas, melhora do mix de crédito e maior disciplina operacional. Para ele, o fato de o banco ter antecipado para o 4T25 a entrega de um ROE acima do custo de capital, objetivo inicialmente comunicado para algum trimestre de 2026, é um sinal relevante de execução mais rápida do plano de reestruturação.
Entre as alavancas para garantir a continuidade desse processo, a instituição citou as linhas de consignado e financiamento imobiliário, tanto na pessoa jurídica quanto na física, além de pequenas e médias empresas (PMEs). A preferência será por modalidades com garantia e em segmentos de média e alta renda. “O apetite a risco é menor para a baixa renda, por exemplo”, destacou Noronha.
Otimismo e IPOs
Em linha com as expectativas de Itaú Unibanco (ITUB3; ITUB4) e Santander Brasil (SANB11), o Bradesco (BBDC3; BBDC4) também pintou um quadro mais benigno para o mercado de capitais este ano, que começou com ofertas públicas iniciais (IPOs) de duas fintechs (PicPay e Agibank) em Wall Street. Noronha ainda disse ver pouco espaço para IPOs, mas enxerga uma janela para ofertas subsequentes (follow on). A depender da evolução do cenário macroeconômico, o final do ano pode ser positivo, ressaltou.
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Nesta sexta-feira (6), as ações do BBDC3 fecharam em queda de 1,98%, a R$ 17,81, e BBDC4 reduziu as perdas e encerrou o dia com baixa de 2,55%, a R$ 20,61.