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Para Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, essa divergência está longe de ser aleatória. Segundo ele, o desempenho “diametralmente oposto” reflete “momentos e estratégias de reestruturação fundamentalmente distintas”.
No caso da Gol, a forte alta é explicada de forma direta pelo anúncio do laudo de avaliação para a oferta pública de aquisição (OPA), que fixou o valor em R$ 10,13 por lote de mil ações, um prêmio de cerca de 62% sobre a cotação anterior, de R$ 6,25.
“Isso cria uma oportunidade clara de arbitragem, fazendo o preço convergir para o valor da oferta”, afirma.
Já a Azul enfrenta um conjunto de fatores negativos que pressionam suas ações. Trevisan destaca, em primeiro lugar, a diluição massiva decorrente da emissão de mais de 1,44 trilhão de novas ações, usada para converter cerca de R$ 7,4 bilhões em dívida em capital.
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Além disso, pesou a rejeição, quase unânime, à proposta de unificação das ações. 98% dos detentores de papéis preferenciais e 100% dos acionistas de ordinárias votaram contra a medida, sinalizando desconfiança em relação aos termos da reestruturação e à governança da companhia.
Na leitura do mercado, portanto, não se trata de um ajuste técnico pontual. “O movimento de ambas as ações é inequivocamente impulsionado por fundamentos”, resume Trevisan.
No caso da Gol, o fundamento é uma OPA com preço definido e caminho claro para o fechamento de capital. Na Azul, os fundamentos estão ligados à reestruturação da dívida, à diluição e aos conflitos entre credores e acionistas minoritários, fatores que afetam diretamente o valor intrínseco da participação de cada investidor.
Essa diferença estrutural também é ressaltada por Lucas Sigu, sócio-fundador da Ciano Investimentos, que amplia o olhar para o próprio modelo de negócio das companhias aéreas.
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Ele lembra que se trata de um setor de margens apertadas, altamente competitivo e intensivo em capital, além de extremamente sensível ao preço do petróleo e à oscilação do dólar.
“É um negócio de CapEx [Capital Expenditure, recursos que uma empresa investe para melhorar ativos físicos de longo prazo] muito alto, com custos instáveis e pouca previsibilidade, especialmente no Brasil”, afirma, citando exemplos históricos de companhias que acabaram em falência, como Varig e Avianca.
Sigu afirma que, embora seja possível tentar capturar movimentos especulativos de curto prazo na Azul, trata-se de uma estratégia que só faz sentido para quem aceita o risco de perder 100% do capital investido.
“Não é um negócio trivial, nem de fácil compreensão”, diz, ressaltando que quem se deixou seduzir por supostas oportunidades na Azul nos últimos anos acabou acumulando perdas relevantes.
Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, reforça essa visão ao comparar diretamente os dois processos de reestruturação.
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Segundo ele, a Gol passou pelo Chapter 11 de forma mais organizada, com redução relevante da dívida e acordos claros com credores. A Azul, embora também esteja em reestruturação, optou por um caminho marcado por uma emissão muito grande de ações, o que gerou diluição extrema e abriu espaço para uma volatilidade acentuada.
“A ação cai 60%, sobe 100%, sobe 200%, cai 50%”, descreve.
Pletes destaca ainda que o baixo volume financeiro negociado em Azul favorece movimentos especulativos, muitas vezes dominados por operações de curto prazo, como day trade [comprar e vender ativos no mesmo dia].
Além disso, diferentemente da Gol, a Azul ainda precisa apresentar resultados mais consistentes nos próximos trimestres (especialmente no quarto trimestre e ao longo de 2026) para que o mercado consiga avaliar se houve, de fato, uma mudança estrutural.
Juros elevados e atividade mais fraca dificultaram a recuperação do setor, reduzindo a demanda por viagens. A expectativa de cortes de juros ao longo de 2026 pode ajudar as companhias aéreas no médio e longo prazo, mas, no curto prazo, a assimetria permanece clara.
“A Gol tem um movimento natural muito melhor agora; a Azul está muito mais sujeita à especulação”, resume Pletes.
Para o investidor pessoa física, a conclusão converge. A Gol (GOLL54) representou uma oportunidade pontual de curto prazo para capturar o prêmio da OPA, mas deixará de ser uma opção na Bolsa após o fechamento de capital. A Azul (AZUL54), por sua vez, continua como um ativo de risco extremo, com incertezas relevantes sobre diluição adicional, governança e conclusão da reestruturação. Em última instância, como sintetiza Trevisan, “o mercado está diferenciando clareza de incerteza: a Gol oferece um caminho definido; a Azul, um alto custo de recuperação para os acionistas atuais”.
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