Pix na mira dos EUA: o que está por trás da disputa por pagamentos digitais
Investigação baseada na Seção 301 reacende tensões entre Brasil e Estados Unidos, enquanto o Fed avalia ampliar o FedNow e reforça a corrida global por infraestrutura financeira
Pix e FedNow simbolizam a disputa entre Brasil e Estados Unidos por protagonismo na infraestrutura global de pagamentos em tempo real. (Foto: Adobe Stock)
Enquanto os Estados Unidos mantêm o Pix no radar de investigações comerciais contra o Brasil, o próprio sistema de pagamentos instantâneos americano, o FedNow, pode ganhar novas funcionalidades. O Federal Reserve abriu consulta pública para ampliar o uso da plataforma por bancos e cooperativas de crédito, permitindo a atuação de intermediários nas transferências. Segundo a autoridade monetária, a mudança pode facilitar inclusive pagamentos transfronteiriços, em um momento em que soluções em tempo real se tornam peça estratégica na disputa global por infraestrutura financeira e tecnologia.
Nesse cenário, o Pix voltou ao centro das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos. Após uma decisão da Suprema Corte americana que limitou parte do arcabouço usado pelo governo de Donald Trump para impor tarifas, a Casa Branca reacendeu investigações com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 — e o sistema brasileiro aparece entre os temas analisados pelo Office of the United States Trade Representative (USTR).
Investigação dos EUA coloca Pix no radar
A apuração conduzida pelo USTR foi aberta em julho de 2025, a pedido de Trump, com base nesse instrumento legal, que autoriza os Estados Unidos a investigar e retaliar países por práticas consideradas injustas ou discriminatórias contra empresas americanas.
Comércio digital e serviços de pagamento eletrônico;
Tarifas preferenciais consideradas injustas;
Proteção de propriedade intelectual;
Acesso ao mercado de etanol;
Desmatamento ilegal.
O Pix aparece de forma indireta no documento oficial, citado como parte dos “serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo governo” que poderiam gerar vantagens competitivas.
A investigação foi anunciada poucos dias após Donald Trump ameaçar impor tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, em agosto do ano passado, movimento que elevou o nível de tensão nas relações comerciais entre os dois países naquele momento. Agora, o tema volta ao radar e preocupa tanto o governo brasileiro quanto especialistas, diante do “vai e vem” da Casa Branca ao recolocar em pauta a possibilidade de investigações com base na Seção 301.
O que é a Seção 301
A chamada Seção 301 faz parte da legislação comercial americana e permite que o governo investigue práticas estrangeiras consideradas prejudiciais ao comércio dos Estados Unidos.
A ferramenta é frequentemente usada como instrumento unilateral de pressão fora do âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).
A investigação passa por várias etapas (análise inicial, audiências públicas, consultas diplomáticas e recomendações técnicas) e pode durar até 12 meses, com possibilidade de prorrogação.
Por que o Pix entrou no radar
Lançado em 2020 pelo Banco Central, o Pix rapidamente se tornou a principal infraestrutura de pagamentos do País. Com cerca de 170 milhões de usuários, aproximadamente 90% da população adulta, o sistema responde hoje por mais da metade das transações de pagamento no Brasil, superando dinheiro em espécie e cartões de débito no cotidiano dos brasileiros.
Esse crescimento acelerado alterou profundamente o mercado de pagamentos, reduzindo custos e ampliando a concorrência com redes privadas tradicionais. Para Gustavo Assis, CEO da Asset Bank, esse impacto competitivo ajuda a explicar por que o sistema chamou atenção das autoridades americanas.
“Ao permitir transferências instantâneas, gratuitas para pessoas físicas e com custo muito baixo para empresas, o Pix reduziu a dependência de sistemas tradicionais baseados em cartões e redes privadas, onde empresas internacionais têm forte presença”, afirma.
Ainda assim, ele ressalta que iniciativas semelhantes existem em diversos países. “Diversos países desenvolveram sistemas domésticos semelhantes, justamente para modernizar a infraestrutura financeira. Em geral, esses sistemas são tratados como inovação regulatória e não como barreira comercial”, diz.
Infraestrutura pública, não política comercial
Especialistas destacam que o Pix não foi criado como política de proteção de mercado, mas como infraestrutura pública do sistema financeiro.
“Do ponto de vista regulatório, não há fundamento técnico claro para enquadrar o Pix como prática comercial desleal”, afirma Alex Hoffmann, CEO da PagBrasil.
Segundo ele, o sistema foi concebido pelo Banco Central para ampliar a inclusão financeira, reduzir custos de transação e aumentar a competição no sistema bancário. Além disso, instituições estrangeiras também podem participar do arranjo. “Instituições financeiras estrangeiras que operam no Brasil participam do Pix em igualdade regulatória”, afirma Hoffmann.
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Vale ressaltar que o crescimento do Pix não eliminou outros meios de pagamento. Pelo contrário. O CEO da PagBrasil explica que, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) as transações com cartões movimentaram R$ 4,5 trilhões em 2025, um aumento de 125% em relação a 2020, ano de lançamento do Pix. “Trata-se de uma modernização estrutural da infraestrutura doméstica de pagamentos e não de uma prática direcionada contra empresas estadunidenses”, defende.
Pressões do setor privado
Parte da pressão por investigações comerciais veio do próprio setor privado americano. A apuração conduzida pelo USTR foi impulsionada por solicitações do Information Technology Industry Council (ITI), associação que representa empresas de tecnologia e inclui companhias ligadas ao setor de pagamentos.
Para Fabio Murad, economista e CEO da Super-ETF Educação, a lógica segue um padrão comum em disputas comerciais envolvendo tecnologia.
“Pagamentos são estratégicos porque controlam margens, dados, padronização e poder de rede”, afirma.
Segundo ele, quando uma infraestrutura pública de baixo custo ganha escala rapidamente, isso pode pressionar modelos privados baseados em cartões, carteirasdigitais e adquirência.
Peso político supera impacto no Pix
Mesmo que a investigação avance, especialistas consideram improvável qualquer impacto direto no funcionamento do Pix. Isso porque o sistema opera dentro da infraestrutura do BC, com liquidação em moeda local e sob regulação do sistema financeiro brasileiro.
“O risco de impacto operacional direto é baixo”, afirma Murad. “Sanções comerciais não têm mecanismo para interferir diretamente em uma infraestrutura financeira doméstica”, acrescenta.
Na prática, os efeitos mais prováveis seriam indiretos, especialmente por meio de tarifas adicionais sobre exportações brasileiras ou tensões comerciais mais amplas. Diante desse cenário, analistas avaliam que a investigação pode ter um componente político-negocial importante.
Murad explica que processos baseados na Seção 301 frequentemente funcionam como instrumento de barganha em negociações comerciais. “Eles são usados para empilhar temas em uma agenda maior de negociação, envolvendo comércio, tecnologia e regras de mercado”, afirma.
A própria lista de temas investigados reforça essa leitura. O Pix aparece ao lado de questões pouco relacionadas entre si, como comércio informal, etanol e desmatamento.
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Para Hoffmann, isso sugere que a investigação pode ter menos relação com o funcionamento técnico do sistema de pagamentos Pix e mais com a estratégia comercial dos Estados Unidos. “Tudo indica que se trata menos de uma medida técnica e mais de uma peça dentro do tabuleiro de negociação comercial”, afirma.