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Mercado

Como a onda de demissões no mercado financeiro afeta o investidor

Mais de 900 profissionais de fintechs, corretoras e plataformas de educação financeira foram demitidos em 2022

Por Jenne Andrade

07/07/2022 | 4:00 Atualização: 07/07/2022 | 7:33

 Foto: Envato Elements
Foto: Envato Elements

A demissão de Caio (nome fictício), ex-colaborador da Vitreo, foi inesperada. Fazia pouco tempo que ele havia sido contratado e estava empolgado com o trabalho. Entretanto, no fim de semana dos dias 4 e 5 de junho, o profissional recebeu um convite para uma reunião on-line que ocorreria na segunda-feira (6 de junho), às 10h.

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“Não tinha tema (de reunião), nem nada. Deu o horário, entramos na reunião, eles explicaram os cortes e listaram os nomes cujos contratos seriam finalizados. Simples assim”, conta Silva. “Junto comigo foram demitidos uns 25 ou 30 funcionários. No geral, fiquei sabendo que foram umas 150 pessoas.”

A Vitreo faz parte do Grupo Universa, a qual pertence também a Empiricus, maior research do País e que também anunciou dispensas. Segundo a própria companhia, 12% dos colaboradores da casa de análises de Felipe Miranda teriam sido dispensados.

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Em comunicado, a casa afirmou que a redução foi planejada e que a principal motivação foi a identificação de sinergias entre as equipes que compõem o grupo (Empiricus Research, Vitreo, Real Valor, Money Times e Seu Dinheiro).

Contudo, as condições desfavoráveis de mercado também teriam contribuído para esse enxugamento de pessoal.

“O momento atual, de maior interesse em renda fixa, também ajudou a balizar a decisão”, afirmou a Empiricus em comunicado divulgado à imprensa. Esse, entretanto, não foi o primeiro anúncio de demissões em massa em empresas ligadas ao mercado financeiro.

De acordo com dados do site colaborativo Layoffs Brasil, com atualizações feitas pelo E-Investidor, aproximadamente 955 profissionais de fintechs, corretoras, researchs e plataformas de educação financeira foram demitidos em 2022 no Brasil.

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Antes mesmo de ocorrerem os cortes na Empiricus, no dia 1 de junho, a corretora de criptomoedas Mercado Bitcoin demitiu 12% dos funcionários (90 dos 750 colaboradores). Novamente, a mudança no panorama financeiro global foi citada como justificativa para a decisão.

Isto porque historicamente o ambiente de juros mais altos tira investidores da bolsa de valores e de ativos de risco no geral e impulsiona a migração para a renda fixa. Em outras palavras, a demanda por investimentos em ações e criptos tende a diminuir - e com ela, os profissionais que atuam dentro de researchs e corretoras.

Juan Espinhel, especialista de investimentos da Ivest Consultoria, explica que momentos como esse são comuns quando o mercado sai de uma conjuntura favorável, de juros baixos, para um processo de aperto monetário.

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“O mercado é cíclico. Lá em 2020, quando a Selic estava em 2% e houve um boom de pessoas físicas indo para a Bolsa, essas companhias (researchs e corretoras) começaram a contratar profissionais para dar conta da maior demanda, e por salários mais altos em comparação aos anos anteriores. Houve uma expansão de empresas ligadas ao mercado financeiro. Hoje, o investidor está voltando para a renda fixa”.

Atualmente, a taxa Selic está em 13,25%, o maior nível desde 2017, e o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) já acumula 12,66% de alta em 12 meses (maio de 2021 a maio de 2022).

Nos EUA, principal mercado do mundo, os juros também estão em trajetória de alta. Após começarem o ano entre 0% e 0,25%, agora estão entre 1,5% e 1,75%, no maior aumento desde 1994. Já a inflação chegou a 8,6% em maio, a maior dos últimos 40 anos.

Vale lembrar que os títulos do tesouro americano são considerados os mais seguros do mundo e que o aumento dos prêmios dos ‘treasuries’, pela subida de taxa de juros, afeta as bolsas do mundo todo.

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“Assim, o cenário exigiu ajustes que vão além da redução de despesas operacionais, tornando-se necessário também o desligamento de parte de nossos colaboradores”, afirmou o Grupo 2TM, dono do Mercado Bitcoin, em relatório.

Na lista de companhias famosas que precisaram diminuir o quadro de funcionários estão o Grupo Primo, de Thiago Nigro, que teria demitido 20% dos empregados no início de junho, e a plataforma TC (antigo Traders Club).

“O TC está focado em otimizar sua gestão de custos e despesas. Para isso, tomou algumas medidas estratégicas, como revisão de gastos com ferramentas e infraestrutura, renegociação com fornecedores e redução do quadro de colaboradores”, afirmou o TC em comunicado.

Startups

A onda de demissões também atingiu em cheio as startups, que dependem de mais capital para crescer. O anúncio mais recente foi feito pela Loft, que teve 380 funcionários desligados este mês, após um corte de 159 colaboradores em abril.

Para Felipe Matos, presidente da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), é difícil saber quando essa maré baixa irá passar - mas a certeza é de que se trata de um movimento transitório, não estrutural.

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“Estamos assistindo a um reajuste de rota, não a uma crise generalizada no setor”, afirma Matos. “Esse momento pode criar oportunidades interessantes de investimento, já que com menos capital disponível as condições de investimento tendem a ficar mais favoráveis.”

Na visão de Amure Pinho, fundador do Investidores.vc, plataforma de investimento-anjo, as demissões tendem a parar quando as startups equalizarem as expectativas de queima de caixa com o tempo que elas conseguem permanecer operantes com o valor disponível. De acordo com o executivo, o período mais crítico será nos próximos 12 a 18 meses.

“Mas essa onda de demissões deve acabar até antes, é uma movimentação de 2022”, afirma Pinho. “A conta que as startups precisam fazer é: "Será que a gente consegue sobreviver até lá? Quanto que a gente tem que demitir pra gente ter eficiência de caixa até acabar essa sombra de captação?”

Proteção

No meio desse 'bear market', com várias researchs e corretoras respeitadas enxugando gastos, a pergunta que fica é se o investidor poderá ser afetado de alguma forma. De acordo com Espinhel, no mercado tradicional (não considerando o mercado cripto), os ativos dos clientes de corretoras são resguardados mesmo em caso de falência da instituição.

A corretora é uma intermediária, isto é, ela não tem a posse do ativo do cliente. “Se você tem ações em uma corretora e ela quebra, você não perde os papéis. A mesma coisa acontece no caso dos fundos que são distribuídos por elas, nesse ponto o investidor não precisa se preocupar”, afirma Espinhel. "Por outro lado, se os ativos forem da própria corretora, um fundo próprio, por exemplo, as demissões podem também significar uma diminuição da qualidade do serviço, mas é difícil dizer.”

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Entretanto, caso o investidor tenha dinheiro na conta da corretora, o capital pode ser perdido em decorrência de uma falência. “Aí pode ter prejuízo. Contudo, se a intermediária for um banco, ainda tem o FGC (Fundo Garantidor de Crédito)", diz Espinhel.

Já quando o assunto é mercado cripto, essa segurança não existe nem em relação aos ativos, já que não se trata de um ambiente regulamentado. Portanto, a falência de uma ‘exchange’ (corretora de criptos) pode significar, sim, a perda total do patrimônio investido.

“Em relação ao problema com exchanges, existe uma frase famosa chamada: "Not your key, not your coins", ou seja, se você não tem o controle das suas moedas, elas não são suas. Então, o que nós recomendamos é que se você está desconfortável com a sua corretora, independentemente do tamanho que ela tenha, a recomendação é baixar suas criptomoedas em carteiras para ter controle sobre isso”, afirma Marcelo Oliveira, CFA e fundador da Quantzed, empresa de tecnologia e educação financeira para investidores.

Espinhel compartilha da mesma opinião. “Como não é um mercado regulado, você não sabe o que está garantindo as operações daquela corretora. Então demissões em exchanges podem preocupar. Até porquê se aquela exchange fechar as portas, a quem você irá recorrer?”

No âmbito de criptoativos, além do Mercado Bitcoin, a corretora Coinbase anunciou a demissão de 1,1 mil funcionários este ano, enquanto a Gemini demitiu 10% da força de trabalho.

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