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Mercado

Renato Breia: Ainda é cedo para dizer que o “bear market” acabou

O sócio-fundador da Nord Research ainda vê desafios à frente para os mercados

Por Jenne Andrade

24/09/2022 | 7:55 Atualização: 23/09/2022 | 18:37

Renato Breia, sócio-fundador da Nord, não acredita em recuperação sustentada do mercado. (Foto: Divulgação/Nord Research)
Renato Breia, sócio-fundador da Nord, não acredita em recuperação sustentada do mercado. (Foto: Divulgação/Nord Research)

A Bolsa brasileira vive um período de expressiva recuperação no 3° trimestre de 2022, com uma alta de 13,3% até a última sexta-feira (23). No acumulado do ano, o Ibovespa sobe 6,58%, aos 111.716,00 pontos.

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Muito dessa escalada ocorreu na esteira da divulgação de dados positivos de inflação. Em julho, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) veio com uma deflação (queda generalizada dos preços de produtos e serviços) de -0,68%, a maior da série histórica. No mês de agosto, outra deflação: desta vez, de -0,36%.

O panorama animou os investidores, já que sinalizaria uma menor necessidade de elevação da taxa Selic – o que é bom para os ativos de risco. Contudo, as perspectivas para os próximos meses ainda não estão totalmente claras.

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“Foi uma alta rápida e relevante, é difícil ver uma Bolsa se recuperar e ter uma sequência de altas tão rápido assim, mas temos um cenário desafiador pela frente”, afirma Renato Breia, sócio-fundador da Nord Research, ao E-Investidor.

Para Breia, estamos em um “bear market rally”. Ou seja, um rali dentro de um mercado ainda de baixa. O especialista relembra que as quedas na inflação foram fruto de cortes de impostos promovidos pelo governo, principalmente sobre combustíveis e energia, e não necessariamente consequências do aperto monetário realizado pelo Banco Central (Bacen).

“Talvez o pior já tenha passado, mas não vejo como um céu de brigadeiro. Acho que o mercado se animou muito com um dado que não dá para confiar tanto. Essa discussão vai andar para os próximos meses”, diz Breia.

Leia os principais trechos da entrevista:

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E-Investidor – A Bolsa brasileira está em alta desde julho e bastante descolada dos pares no exterior. O nosso bear market acabou?

Renato Breia – Ainda é cedo para dizer que o bear market acabou. Foi uma alta rápida e relevante, é difícil ver a Bolsa se recuperar e ter uma sequência de altas tão rápido assim, mas temos um cenário desafiador pela frente, tanto aqui quanto lá fora.

A inflação é o dado mais importante que o mercado está olhando hoje, tanto no Brasil quanto no exterior. Se você tiver uma inflação mais controlada, vai subir menos juros e ocorrerá uma desaceleração menos forte da economia e isso é bom para os ativos de risco. Foi isso que fez o mercado se animar muito a partir de julho, com a deflação no IPCA.

Mas o mercado exagera. A Bolsa brasileira caiu muito (entre abril e junho), em um valuation que nunca vimos antes, e agora exagerou para cima.

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Mas a deflação de julho e agosto não sinaliza que o risco inflacionário foi superado?

Breia – O pico da inflação já passou, com certeza. Entretanto, ainda pode se manter pressionada, principalmente porque uma parte da queda foi feita via estímulos do governo, isto é, corte de impostos. Talvez o pior já tenha passado, mas não vejo como um céu de brigadeiro. Acho que o mercado se animou muito com um dado que não dá para confiar tanto. Essa discussão vai andar para os próximos meses.

Tem alguma chance de a inflação convergir para a meta em 2022?

Breia – A única certeza que eu tenho é que a inflação nunca vai convergir para a meta. Entre apostar em uma inflação mais resistente e uma inflação cadente, eu não tenho a menor dúvida que veremos a primeira opção. Ou seja, teremos que conviver sim com uma inflação mais alta e acho difícil vermos uma inflação convergindo para a meta, estamos muito longe dela.

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Se olharmos bem, a meta não é muito crível. O Banco Central nunca conseguiu cumprir a meta nos últimos “vários” anos. Temos muito mais chances de sermos surpreendidos com inflação mais alta, do que sermos surpreendidos com mais quedas na inflação.

Pensando que tivemos um ciclo bem agressivo de alta de juros nos últimos dois anos, o que mais falta para essa inflação chegar pelo menos próximo da meta?

Breia – O problema tem a ver com o Brasil, temos uma questão muito particular de que a maior parte dos preços são indexados (reajustados pela inflação). Então naturalmente o nosso Bacen tem menos bala na agulha, se formos comparar com outros países, em relação a aumentar a taxa de juros e controlar a inflação. Lá fora, os estímulos do Banco Central geralmente tem um impacto maior na economia.

É difícil controlar quando os preços são indexados. Nossa visão é de que dificilmente o juro sobe muito mais, mas o juro pode ter que permanecer alto por mais tempo. O mercado está precificando que o juro fica alto pelos próximos 12 ou 18 meses.

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Contudo, o que acaba mexendo a Bolsa é o juro de médio e longo prazo, não o juro corrente. Então quando o mercado passa a enxergar pelo menos uma luz no fim do túnel, um juro cadente daqui a alguns meses, o mercado volta a se animar de que a gente possa ter um juro mais baixo lá na frente e antecipa.

Por isso a Bolsa subiu muito forte (desde o final de julho), mas eu ainda acho que é um rali dentro de um bear market, não uma inversão de tendência para o bull market (mercado de alta).

Desde a reunião de julho, vemos alguns gestores reclamarem das novas altas nos juros promovidas pelo Banco Central. Para alguns, o ciclo já deveria ter se encerrado. Como você analisa isso?

Breia – Essa é uma discussão grande. Geralmente a pessoa que critica o Banco Central é porque está querendo que aconteça aquilo que ela está apostando. Se a pessoa está apostando que o juro vai cair (mas não cai)fala que o banco central está errado.

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Só que a autoridade monetária não está lá para operar o mercado. Para o BC efetivamente mudar a postura, parar de subir e até mesmo cortar juros, é preciso que a economia mostre que isso pode ser feito. Não pode simplesmente apostar que vai acontecer.

O Banco Central não paga pra ver. Os gestores que fazem isso (ficam comprados ou vendidos em juros) e ganham dinheiro operando taxa de juros. Por isso que os gestores são sempre críticos, tem um viés muito forte aí.

Como montar um portfólio para bater o CDI?

Breia – Somos muito a favor de ter uma carteira bem diversificada. Você pode ter ativos de curto e médio prazo (até três anos) em renda fixa porque paga uma boa taxa, se formos pensar em termos nominais e reais. Não dá para menosprezar uma renda fixa que paga mais de 13% ao ano.

Em renda fixa gostamos de prefixada e indexada à inflação, além dos pós-fixados. O que não gostamos em renda fixa são títulos muito longos, porque já entra uma outra questão de como será o Brasil daqui a vários anos com situação fiscal etc.

Contudo, sua carteira não pode focar só no no curto prazo. Se você tem um horizonte de investimento de longo prazo, eu não tenho dúvida que daqui a cinco anos o melhor ativo para se ter é Bolsa no brasil. Temos um valuation de Bolsa muito barato, empresas baratas que estão crescendo e ganhando market share.

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