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Investimentos

Tesouro Direto: em dia de caos, títulos têm terceiro “circuit breaker” seguido

Entenda o impacto do aumento da aversão a risco nas taxas dos títulos públicos brasileiros

Por Jenne Andrade

05/08/2024 | 13:23 Atualização: 05/08/2024 | 13:33

Títulos passaram por paralisação de negociações nesta manhã (Foto: Adobe Stock)
Títulos passaram por paralisação de negociações nesta manhã (Foto: Adobe Stock)

Na manhã desta segunda-feira (5), os títulos prefixados e IPCA+ do Tesouro Direto tiveram as negociações paralisadas, na ação conhecida como “circuit braker”. A interrupção acontece nos momentos em que a volatilidade das taxas alcança um nível tão alto, que é necessário pausar as compras e vendas para que os preços voltem à “racionalidade”. As transações só voltaram a partir das 12h (de Brasília), com tendência díspares.

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Os prefixados, títulos com rendimento “fixo” ao ano, apresentavam altas de até 0,08 ponto percentual em relação ao fechamento anterior. Já os “IPCA+”, como são conhecidos os títulos que pagam a variação da inflação mais uma taxa “fixa” ao ano, registravam quedas de até 0,05 ponto percentual. A maior rentabilidade disponível era do Prefixado 2031, de 12% ao ano, e do IPCA+ 2045, de 6,13% de juro real ao ano.

Vale lembrar que os preços e taxas desses papéis oscilam diariamente. Isso quer dizer que se o investidor vender os títulos antes do vencimento poderá arcar com ganhos ou perdas, dependendo da demanda por aquele papel. Para fugir dessa variação, é preciso deixar o capital até a data do vencimento do ativo ou optar pelo Tesouro Selic, única categoria do Tesouro Direto que não sofre marcação a mercado.

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"Circuit breaker" no Tesouro Direto?

O “circuit breaker” (paralisação das negociações) no Tesouro Direto já havia ocorrido nas últimas duas sessões (quinta e sexta) da semana passada. Isto porque logo depois da “Super Quarta”, no dia 31 de julho, os rendimentos entraram em queda repercutindo as decisões de política monetária no Brasil e EUA. Na data, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil segurou a taxa básica de juros Selic em 10,5% ao ano. O Federal Reserve (Fed, banco central americano) também decidiu manter as taxas dos fed funds entre 5,25% e 5,5% ao ano, mas com sinalizações de corte em setembro.

Contudo, o esperado início de corte de juros nos EUA veio acompanhado de um grande aumento do sentimento de aversão a risco. O relatório do emprego americano, o Payroll, também divulgado na semana passada, veio mais fraco do que o esperado e alimentou temores de recessão na principal economia do mundo.

Hoje, os mercados globais amanheceram envoltos no caos - o índice Nikkei, do Japão, sofreu a maior desvalorização desde 1987 neste início de semana, com um tombo de 12,4% e também um circuit breaker. Por lá, fora as perspectivas de desaceleração econômica na principal economia, o aumento de juros pelo banco central japonês empurrou o indicador para baixo.

  • Leia também: Investidores em Pânicos – Risco ou oportunidade?

“Tivemos a definição de manutenção de juros nos EUA e elevação de juros no Japão de forma inesperada. Isso começou a propiciar um movimento de reversão das operações de carry trade, em que o player toma recursos a juros mais baixos e aplica recursos em juros mais altos em outros países como Brasil e EUA”, diz Luiz Rogé, economista, gestor de investimentos e sócio da Matriz Capital Asset. “Estamos tendo movimento de reversão de operações de carry trade e fuga para obter taxas ainda elevadas de juros nos EUA.”

Até às 11h59, o Ibovespa cedia 1,2%, aos 124,3 mil pontos, também sentindo o aumento da aversão a risco no exterior. Para Rogé, essa reação violenta do mercado a sinais de desaceleração nos Estados Unidos está um tanto exagerada. Isto porque as bolsas americanas vinham acumulando ganhos atrás de ganhos em 2024 e já havia uma correção prevista deste movimento.

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“Acredito que a reação do mercado hoje é exagerada. O mercado sempre exagera para cima ou para baixo. Eu não enxergo a possibilidade de recessão como certa”, diz Rogé. “O mercado de trabalho e economia (americana) como um todo está indo muito bem. O que estamos vendo é o ponto de inflexão no crescimento, ou seja, está crescendo menos.”

Ele vê esse ajuste acontecendo apenas no “curtíssimo prazo”. “Nos próximos meses vamos enxergar grandes oportunidades de compra seja na bolsa americana como em mercados emergentes. Com a queda de juros nos EUA vindo mais forte e mais rápida, tivemos primeira reação no mercado com fechamento das taxas de juros”, afirma o economista da Matriz Capital. Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital, tem uma visão parecida, principalmente após a divulgação dos índices de gerentes de compras (PMI).

"Os dados divulgados hoje mostram um crescimento elevado da atividade econômica, contrariando as expectativas de recessão. A atividade econômica permanece forte, especialmente no setor de serviços, que está passando por mudanças estruturais significativas, gerando uma demanda consistente e uma inflação mais elevada. Por outro lado, o setor de manufatura apresenta uma inflação mais baixa e uma demanda reduzida", diz Argenta.

Boletim Focus do Banco Central e o Tesouro Direto

Nesta segunda-feira (5), também foi divulgado o Boletim Focus do Banco Central, publicação que reúne tendência para dados econômicos. O relatório trouxe um novo aumento para as expectativas de inflação para 2024 e 2025. Agora, o consenso é de que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve fechar em 4,12% este ano e 3,98% no próximo, contra 4,1% e 3,96% na última semana.

"A interpretação do Boletim Focus indica um cenário que não é tão positivo. Uma das principais preocupações do mercado é a inflação. O boletim revelou um aumento nas projeções de inflação para 2024 e 2025, o que levanta a possibilidade de um aumento nas taxas de juros no Brasil. Esses fatores são motivos de cautela e não devem gerar muito otimismo, especialmente considerando o medo crescente de uma recessão nos Estados Unidos”, afirma Sidney Lima, Analista CNPI da Ouro Preto Investimentos.

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Por outro lado, o Focus trouxe um aumento da projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) este ano, o que é um ponto positivo. A alta projetada é de 2,2%, versus 2,19% na última semana.

“Embora as notícias não sejam extremamente negativas, também não são otimistas. A principal preocupação continua sendo o risco de recessão no mercado norte-americano, que está ofuscando a reação ao Boletim Focus por parte dos investidores", afirma Lima.

As mudanças de cenário, exprimidas no Focus, acabam impactando as taxas do Tesouro Direto. No geral, quando as perspectivas são de mais juros no horizonte, quem tem esses títulos na carteira e precisar vender sofrerá com desvalorização, já que o Tesouro Nacional passará a emitir novos papéis com rendimentos maiores. Na outra ponta, quando a expectativa para os juros caem, quem tem esses papéis e quiser vendê-los, poderá ter ganhos.

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