A operação ainda está condicionada ao cumprimento de etapas usuais, incluindo aprovação regulatória pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). Além disso, a estatal colombiana tem a intenção de realizar uma oferta pública de ações (OPA) voluntária para deter, em conjunto, 51% do capital votante da Brava. O preço indicado para a OPA corresponde a R$ 23 por papel.
O anúncio foi feito na tarde de quinta-feira (23), pouco antes do fechamento do pregão. As ações da empresa, que chegaram a disparar no início do dia em meio a rumores prévios sobre o anúncio, entraram em leilão com a confirmação da notícia e passaram a cair, fechando em baixa de 1,13%.
A oferta da Ecopetrol dividiu opiniões de analistas. De um lado, há quem veja a transação como positiva do ponto de vista estratégico e de composição do portfólio. Do outro, há quem considere o preço da oferta, de R$ 23 por ação, pouco atraente para o acionista.
O BTG Pactual avalia que, com base nos dados preliminares, a criação de valor dependerá da capacidade da Brava de executar os planos de perfuração offshore (operação realizada em alto mar) nos próximos anos. A empresa também pode se beneficiar da entrada de um investidor estratégico com experiência em ativos onshore (operação realizada em terra firme).
Segundo o banco, a execução, a aprovação política e a percepção sobre a qualidade dos ativos serão determinantes para a geração de valor aos acionistas. O BTG tem recomendação de compra para a Brava, com preço-alvo de R$ 23.
Ainda de acordo com o banco, um ponto-chave a monitorar é a reação do presidente colombiano Gustavo Petro, cuja postura contrária ao petróleo já inviabilizou operações relevantes da Ecopetrol, como a aquisição da CrownRock em 2024, e pode voltar a gerar incertezas, especialmente com eleições na Colômbia no próximo mês.
Vale a pena aceitar a oferta da Ecopetrol?
A Genial Investimentos recomenda que os acionistas não participem da oferta da Ecopetrol ao preço de R$ 23 por ação. A corretora acredita que a oferta subavalia o preço do ativo sob múltiplas frentes, o que inclui um preço abaixo do cenário mais conservador possível contido em certificações de reserva, além de ser inferior aos preços-alvo do consenso do mercado.
Além disso, a casa considera que os preços do Brent estruturalmente mais altos deveriam gerar propostas mais generosas por parte de interessados em ativos de óleo e gás.
“Entendemos as mágoas do mercado – e nossas – com a tese da Brava, mas não sugerimos vender o ativo a um preço claramente subavaliado por métricas públicas e observáveis”, diz a Genial, que tem recomendação em revisão para a empresa.
Por que ação despencou?
A XP Investimentos elenca três razões para a ação estar em queda:
- Risco de a operação não ser concluída;
- Tempo até o pagamento da oferta (valor do dinheiro no tempo);
- Valor das ações remanescentes após a OPA.
Segundo a corretora, o último ponto é o mais relevante. Após a operação, os acionistas minoritários correm o risco de ficar com papéis de uma empresa cuja estratégia pode mudar significativamente sob o controle de uma estatal colombiana, possivelmente com mais foco em crescimento e investimentos.
Diante dessa incerteza, o mercado tende a atribuir um valor menor às ações que continuarão em circulação. A casa, que tem recomendação de compra e preço-alvo de R$ 22 para a BRAV3, avalia que cabe a cada investidor avaliar se o nível de preço da oferta é conservador ou otimista.
Ágora e BBI enxergam pontos positivos e possíveis preocupações
Em relatório, os analistas Vicente Falanga, do Bradesco BBI, e Ricardo França, da Ágora Investimentos, traçaram sentimentos mistos em relação à operação. As casas têm recomendação de compra para a Brava com preço-alvo de R$ 27.
Do lado positivo, eles apontam que a Ecopetrol é uma empresa bem administrada, com um histórico vasto e consistente no setor de exploração e produção em terra. Além disso, a empresa costuma realizar movimentos estratégicos de longo prazo e possui recursos financeiros consideráveis, com uma previsão de geração de caixa de US$ 2 a US$ 3 bilhões em 2026, assumindo preços do petróleo próximos a US$ 80 por barril.
Outro ponto: a Ecopetrol não possui experiência suficiente na operação de ativos offshore e, geralmente, desenvolve esses ativos fora da Colômbia com parceiros experientes – algo que poderia acelerar o processo de fusões e aquisições para ativos offshore no Brasil, uma vantagem para a Brava.
Como mais um fator positivo, os analistas citam que o custo da dívida da Ecopetrol é menor do que o da Brava, o que poderia trazer sinergias imediatas.
Do outro lado, a Ecopetrol tem um dos custos de extração por barril equivalente de petróleo mais altos dentro da cobertura da Ágora e do BBI na América Latina. Os especialistas também lembram que a colombiana é uma empresa estatal, com gestão que pode mudar a cada 4 anos – um fator de incerteza adicional.
Por fim, os analistas fazem alguns questionamentos: “A Brava Energia será um veículo para a Ecopetrol crescer ainda mais no Brasil ou na América Latina? Qual será o apetite da Ecopetrol? A empresa precisará de mais capitalização? Muitas perguntas, mais uma vez, relacionadas à estratégia geral da empresa e ao quão disciplinada será sua futura gestão.”