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Mercado

Mesmo com lucro, Magazine Luiza segue em modo defensivo e depende de alívio na Selic para voltar a crescer

Analistas dizem que concorrência da Amazon e Mercado Livre e o custo financeiro elevado seguem como principais obstáculos ao avanço da varejista

Por Murilo Melo

07/11/2025 | 19:31 Atualização: 07/11/2025 | 20:32

Magalu (MGLU3)
Foto: Adobe Stock
Magalu (MGLU3) Foto: Adobe Stock

O resultado financeiro do terceiro trimestre deste ano da Magazine Luiza (MGLU3), divulgado no fechamento de quinta-feira (6), dividiu opiniões entre analistas, mas trouxe um certo alívio para quem esperava números piores. A varejista reportou lucro líquido contábil de R$ 84,6 milhões de julho a setembro, uma queda de 17,4% em relação ao mesmo período de 2024, o que, segundo especialistas ouvidos pelo E-Investidor, foi uma surpresa positiva, já que parte do mercado apostava em um lucro próximo de zero.

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Para os analistas, o simples fato de a companhia ter conseguido fechar o trimestre no azul, após períodos de margens apertadas e consumo enfraquecido, já foi interpretado como uma vitória. “Essa surpresa ‘positiva’ esconde a real dinâmica do trimestre. O ponto central é que a empresa está em modo defensivo: o lucro veio não por um crescimento forte, mas por um controle de custos rigoroso e uma decisão estratégica de ‘vender menos para perder menos'”, afirma Alexandre Abu-Jamra, CEO da Klooks, empresa de tecnologia focada em análise financeira.

“A surpresa, portanto, foi a constatação de que a empresa prefere (e consegue) sacrificar o crescimento das vendas on-line para proteger sua rentabilidade e gerar caixa”, completa o executivo.

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No balanço, a Magazine Luiza aponta que o lucro ajustado do período, que desconsidera efeitos não recorrentes, foi de R$ 21,2 milhões, recuo de 69,8%. O Ebitda ajustado, que representa o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, somou R$ 711,4 milhões, leve queda de 0,9%, com margem de 7,9%, estável na comparação anual. Segundo a companhia, o desempenho reflete o crescimento das lojas físicas, o aumento da margem bruta e o controle de despesas, além do bom resultado do braço financeiro Luizacred.

A receita líquida do período totalizou R$ 9,03 bilhões, praticamente estável, com alta de 0,3% sobre o terceiro trimestre de 2024. As vendas totais atingiram R$ 15,1 bilhões, uma queda de 2,6%. As lojas físicas cresceram 5,2%, impulsionando também o conceito de mesmas lojas, enquanto o e-commerce total recuou 5,8%.

Em relatório, o JPMorgan, porém, avalia que os números mostraram tendências operacionais fracas. O GMV (volume bruto de mercadorias) caiu 3% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, com o desempenho das lojas físicas prejudicado por uma base de comparação mais forte. O Ebitda ajustado ficou dentro do consenso, mas 10% abaixo da estimativa do banco. O EPS (lucro por ação ajustado) foi de R$ 0,03, acima das projeções de mercado, embora inferior à expectativa do próprio JPMorgan, de R$ 0,08.

O banco observa que as vendas líquidas ficaram 6% abaixo da sua estimativa e 2% abaixo do consenso, indicando um desempenho mais fraco nas receitas. O relatório pontua ainda que o foco da empresa no controle de custos e na margem bruta estável ajudou a manter a margem de Ebitda praticamente inalterada, sinalizando prioridade na geração de caixa.

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O comércio eletrônico também mostrou retração: o GMV on-line caiu 6% na comparação anual, para R$ 10,4 bilhões, com o marketplace (3P) recuando 12% e as vendas próprias (1P) diminuindo 2%. As vendas brutas cresceram apenas 1%, somando R$ 9 bilhões, número 6% abaixo das estimativas do JPMorgan, com destaque positivo apenas para as lojas físicas. Já as receitas de serviços caíram 2%, para R$ 1,1 bilhão.

Analistas pedem cautela e veem retomada atrelada aos juros

O Goldman Sachs, por outro lado, avalia que a empresa deve manter uma postura cautelosa. Segundo o banco, enquanto a alavancagem e as taxas de juros seguirem elevadas, a Magazine Luiza dificilmente voltará a priorizar o crescimento acelerado de receita, especialmente no canal digital, onde a concorrência é mais acirrada.

Ainda assim, o Goldman acredita que possíveis incentivos fiscais para famílias de baixa renda, cortes de juros esperados para o primeiro semestre de 2026 e o aumento do consumo durante a Copa do Mundo, em junho do mesmo ano, podem abrir espaço para a varejista buscar um crescimento mais equilibrado.

Para Cris Dorneles, especialista em direito empresarial, economia e mercados, entre os fatores que pesaram sobre o desempenho da companhia estão o aumento dos custos financeiros, reflexo direto da taxa Selic ainda elevada, e o ritmo mais fraco das vendas, sobretudo no comércio eletrônico. Com o crédito caro e o consumidor mais cauteloso, Dorneles explica que o varejo sente os efeitos de um cenário macroeconômico apertado, que restringe o espaço para crescimento.

“O fato é que o resultado do 3T25 da Magazine Luiza mostra resiliência, mas também evidencia que o caminho para uma recuperação mais robusta ainda depende da melhora do ambiente econômico e da consolidação de um modelo de crescimento equilibrado entre o físico e o digital”, diz.

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Na mesma linha, Abu-Jamra avalia que o ritmo do trimestre foi determinado, sobretudo, pela concorrência acirrada de gigantes como Mercado Livre e Amazon, e pela escolha da Magazine Luiza de não entrar na guerra de preços a qualquer custo. “O mercado deve interpretar esse resultado como um sinal de sobrevivência e disciplina, mas não de retomada do crescimento. Os desafios estruturais são gigantescos. A empresa só voltará a crescer de forma saudável quando os juros caírem drasticamente. O resultado mostra uma empresa que parou de ‘cavar o buraco’, mas que ainda não começou a escalar para sair dele”, observa.

Recomendação: oportunidades e riscos

As casas de análise mantêm uma visão cautelosa sobre as ações da Magazine Luiza (MGLU3). O Morgan Stanley reiterou recomendação underweight (abaixo da média do mercado), indicando expectativa de desempenho inferior ao dos pares do setor. O JPMorgan também mantém postura conservadora em relação ao papel, que era negociado a R$ 8,01 em 6 de novembro de 2025.

Já o Goldman Sachs estabeleceu preço-alvo de R$ 8,80 para os próximos 12 meses, com base em uma metodologia combinada — 50% derivada de um fluxo de caixa descontado com custo médio ponderado de capital de 15,1%, e 50% ancorada em um múltiplo projetado de 6,3 vezes Ev/Ebitda para os próximos 12 meses.

Na avaliação de Abu-Jamra, da Klooks, investir em MGLU3 hoje é, sobretudo, uma aposta no cenário macroeconômico brasileiro, e não apenas na eficiência da companhia. Embora a varejista tenha demonstrado competência ao controlar custos, seu desempenho futuro depende fortemente do ritmo de queda da taxa Selic. Caso os juros recuem de forma relevante nos próximos 12 a 24 meses, a empresa pode se beneficiar de uma forte redução nas despesas financeiras, o que tende a alavancar o lucro.

O principal risco, no entanto, segundo ele, está na concorrência cada vez mais intensa no varejo digital. A força do ecossistema do Mercado Livre e o capital global de players como Amazon e varejistas asiáticas podem levar à perda de clientes da Magalu de forma permanente.

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O Goldman Sachs compartilha visão semelhante quanto aos fatores de risco e oportunidade. Entre os pontos positivos potenciais, o banco aponta a possibilidade de juros mais baixos no Brasil, crescimento acima do esperado nas lojas físicas, expansão do GMV, especialmente no marketplace, que tem margens mais elevadas, e avanço mais rápido na rentabilidade.

Por outro lado, os principais riscos incluem a ausência de recuperação na demanda por bens duráveis, aumento da competição on-line, ritmo mais lento na implementação de novas soluções logísticas e eventuais limitações de execução decorrentes de uma estrutura de capital ainda alavancada da Magazine Luiza (MGLU3).

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