Nas últimas semanas, o preço passou a oscilar em uma banda mais estreita, entre US$ 65 mil e US$ 70 mil, em um movimento de consolidação após a correção abrupta, segundo dados da CoinMarketCap.
A queda intensa da cotação teve reflexos relevantes no mercado corporativo. A Strategy, empresa liderada por Michael Saylor e maior detentora corporativa de bitcoin, reportou prejuízo líquido de US$ 12,4 bilhões no quarto trimestre de 2025, resultado decorrente da perda não realizada de US$ 17,4 bilhões em seus ativos digitais.
No cenário macroeconômico, persiste a incerteza em relação ao início do ciclo de cortes de juros nos EUA pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano). A perspectiva de taxas elevadas por mais tempo reduz a liquidez global e pesa sobre ativos considerados mais voláteis, como as criptomoedas, ainda enquadradas como ativos de risco por grande parte dos investidores institucionais.
Apesar da pressão, há fatores de sustentação. Dados da plataforma SosoValue indicam que, em fevereiro, os ETFs de bitcoin à vista – fundos negociados em bolsa, como se fosse uma ação – registraram saída líquida de US$ 916 milhões, mas parte desse fluxo negativo foi compensada por compras institucionais diretas. Empresas que utilizam o ativo como “reserva” aproveitaram a queda para ampliar posições, reforçando a tese de longo prazo fundamentada na escassez do bitcoin.
Esse conjunto de forças ajuda a explicar por que, após a correção intensa, o ativo entrou em fase de consolidação, em vez de aprofundar a queda. A principal dúvida agora é se a estabilização representa o fim do movimento corretivo ou apenas um respiro técnico antes de uma nova rodada de volatilidade.
O episódio ocorre em um momento de transição para o mercado brasileiro de criptoativos. Após a Lei 14.478, de 2022, o Banco Central (BC) publicou as primeiras resoluções para prestadores de serviços de ativos virtuais, iniciando a supervisão formal do setor. Ao mesmo tempo, a B3 anunciou projetos de tokenização e o desenvolvimento de uma stablecoin própria, reforçando a aproximação entre o sistema financeiro tradicional e o mercado cripto.
Para entender o que explica a recente queda do bitcoin, o impacto da regulação e as perspectivas para o mercado, o E-Investidor conversou com Fabrício Tota, vice-presidente de Negócios Cripto do Mercado Bitcoin.
E-Investidor – O que explica a queda do bitcoin em fevereiro e por que o movimento assustou tanto?
Fabrício Tota – Tem duas forças atuando em conjunto aqui. A primeira é mecânica: liquidações em cascata. Derivativos e alavancagem comprimem o tempo. O que normalmente seria uma correção de semanas vira um dia e meio de martelada. É o mercado financeiro lembrando que, em posições de curto prazo, stop não é luxo, é necessidade básica.
A segunda é macro: quando o mundo entra em risk-off (aversão ao risco), tudo que é beta alto sofre. Em termos simples, são ativos que sobem muito quando o mercado vai bem e caem forte quando o cenário vira. Cripto ainda funciona, em grande parte, como termômetro de apetite por risco. E, na última semana, o gatilho macro ganhou nome e sobrenome: a leitura de que uma possível mudança no comando do Fed pode endurecer o regime de liquidez, retirando dinheiro do sistema.
Você pode discordar da intensidade desse impacto, mas o mercado não espera consenso para apertar o botão de venda.
O Banco Central apertou as regras. Isso protege o investidor ou cria barreiras?
A regulação definitiva do Banco Central era aguardada há anos. Desde a Lei 14.478, de 2022, o mercado já sabia que ela viria, mas o processo foi longo, com decreto, consultas públicas e, por fim, as resoluções 1.519, 1.520 e 1.521. O principal efeito é trazer mais clareza e proteção ao investidor que quer atuar no mercado cripto dentro das regras.
Com isso, a prestação de serviços de ativos virtuais passou a ser formalmente regulada no Brasil. Cai o argumento de quem dizia esperar a regulação para investir. Esse discurso acabou. Hoje, não há mais motivo para aguardar.
Ao mesmo tempo, organizar o mercado implica estabelecer limites. Surgem críticas sobre capital regulatório, transferências e escopo de atuação, o que é natural. A exigência de capital é elevada, mas responde muito mais a fraudes recentes no sistema de pagamentos do que a uma medida específica contra o setor cripto.
O volume de stablecoins cresce no Brasil. Isso muda o perfil do investidor ou o futuro do mercado?
Embora cerca de 90% do volume reportado esteja em stablecoins, isso não significa que o interesse do mercado se concentre apenas nelas. Esse dado reflete, em grande parte, operações de maior porte, muitas vezes ligadas a pagamentos internacionais, e não deve levar a conclusões precipitadas.
O investidor brasileiro é bem mais sofisticado do que um simples usuário de stablecoins para arbitragem cambial. Há uma parcela relevante interessada em bitcoin, ethereum, solana e outros ativos, além da renda fixa digital, que já é realidade mesmo sem aparecer plenamente nas estatísticas. O mercado cripto no Brasil é mais criativo, potente e diverso do que o volume de stablecoins sugere.
A tokenização anunciada pela B3 pode tirar espaço das criptos clássicas?
É natural que os players nativos do mundo cripto liderem a inovação e que, depois, os grandes players tradicionais sigam esse movimento. O anúncio da B3 não me surpreende. A diferença é que os nativos falam essa língua desde o início.
O investidor interessado em cripto tende a buscar casas especializadas. Nos grandes players tradicionais, as soluções costumam ser mais limitadas: horários restritos, impossibilidade de saque para carteira própria e restrições justificadas por governança ou segurança.
Quanto à stablecoin, criar uma não é um detalhe operacional. É um negócio sofisticado, que exige time dedicado, governança e liquidez. Por isso, acreditamos mais em modelos colaborativos do que em cada instituição criando sua própria stablecoin fechada.
ETFs de cripto são porta de entrada segura ou podem criar falsas expectativas?
Para o investidor pessoa física, a compra direta de criptoativos é, sem dúvida, a melhor alternativa. Primeiro, pela negociação 24 horas por dia, sete dias por semana. Segundo, pela liberdade de “autocustódia”, de movimentar os ativos quando e como quiser.
No ETF, você perde essas duas características imediatamente. E, em termos de custódia, os ETFs usam os mesmos players e processos das exchanges (corretoras de criptoativos). Muitas vezes, as exchanges são até mais sofisticadas por estarem há mais tempo nesse mercado.
Como definir o mundo cripto de 2026 em uma frase?
A grande palavra para 2026 é convergência. Blockchain e cripto vão estar cada vez mais presentes em soluções que o usuário final nem perceberá que usam essa tecnologia. Hoje, as decisões dos investidores são mais maduras. Não se trata mais de aventura, mas de alocação consciente, entendendo risco, volatilidade e horizonte de longo prazo.