O ano começou com a quebra de paradigmas no câmbio. Os Estados Unidos, maior economia do mundo, enfrenta um período raro de questionamentos, refletidos na desvalorização global do dólar.
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O ano começou com a quebra de paradigmas no câmbio. Os Estados Unidos, maior economia do mundo, enfrenta um período raro de questionamentos, refletidos na desvalorização global do dólar.
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Nos últimos 12 meses, o dólar cedeu 6% sobre o real e 8,37% em relação a outras moedas fortes, como euro, iene e libra. Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, aponta para um conjunto de incertezas que tem feito investidores venderem a divisa americana.
A maior parte dessa insegurança passa por um nome: Donald Trump. A instabilidade do presidente dos EUA na condução econômica torna difícil a leitura sobre o curto e médio prazos do país. Perri classifica a política econômica de Trump como errática, sem direção clara.
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Um exemplo claro deste estilo de gestão está no comércio exterior, com a imposição de tarifas sobre países historicamente alinhados aos EUA. Soma-se a isso um déficit fiscal recorde de US$ 145 bilhões em dezembro do ano passado, aumento de 67% em relação ao mesmo período de 2024, como informado pela Reuters. Na outra ponta, Trump pressiona publicamente o Federal Reserve, banco central americano, a não subir os juros — o remédio amargo contra a inflação, uma consequência esperada do aumento dos gastos.
A possível influência política na condução da política monetária é malquista no mercado financeiro, tendo em vista o risco de que as necessidades econômicas fiquem abaixo das aspirações políticas.
“São cláusulas pétreas da política econômica americana que hoje se encontram descredibilizadas”, diz Perri. “Considerando a intensificação mais recente das ações de Trump, é possível atribuir a grande maioria desse movimento de enfraquecimento do dólar ao comportamento do presidente Trump e às suas medidas.”
Flávio Conde, analista da Levante Ideias de Investimento, vê uma correlação clara entre o primeiro anúncio sobre a imposição de tarifas por Donald Trump, feito no ano passado, e o aumento das buscas por ouro como ativo de proteção, em vez do dólar. O acirramento das tensões geopolíticas após a invasão dos EUA à Venezuela e sinalizações de interesse pela Groenlândia alimentaram os questionamentos a respeito do dólar.
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“Em vez de paz, Trump trouxe incerteza. Tarifas, Venezuela e ameaças à Groenlândia fizeram com que o dólar e os títulos públicos americanos deixassem de ser vistos como porto-seguro”, afirma Conde.
Perri tem uma leitura parecida. “Acredito que o dólar está perdendo o status de ativo de proteção, mas de forma bastante paulatina”, diz. “Vejo uma tendência estrutural de busca pelo ouro como reserva de valor e proteção, em meio à perda ainda que tímida do dólar como referência à expansão de oferta das moedas fiduciárias.”
Já Gustavo Moreira, planejador financeiro CFP e especialista em investimentos, vê a instabilidade do republicano como um fator que intensifica uma saída, já esperada, de investidores do dólar. Isto porque a queda de juros esperada nos EUA já levaria a uma desvalorização da moeda, com investidores buscando maior rentabilidade em outras geografias.
O planejador financeiro não acredita que o movimento seja estrutural. Para ele, os EUA já passaram por outros momentos de questionamento, como a crise de 2008 e a pandemia. “O que estamos vendo agora é um ciclo de maior ruído macroeconômico e geopolítico. O dólar continua sendo a principal moeda de reserva. O mercado americano ainda é o mais profundo, líquido e inovador do mundo”, afirma.
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De qualquer forma, essa nova dinâmica do dólar tem chamado a atenção no mundo. David Einhorn, o fundador da americana Greenlight Capital, vê o ouro assumindo lentamente o lugar do dólar de principal ativo de proteção para as carteiras. Isto, em função da menor confiança na economia americana.
Um estudo feito pelo JP Morgan em julho do ano passado também expôs uma tendência gradativa de perda de relevância do dólar e dos títulos públicos americanos em relação ao ouro nas reservas dos bancos centrais – ainda que a moeda ainda seja dominante.
“A principal tendência de desdolarização nas reservas cambiais, no entanto, está relacionada à crescente demanda por ouro . Visto como uma alternativa às moedas fiduciárias altamente endividadas, a participação do ouro nas reservas cambiais aumentou, impulsionada pelos bancos centrais de mercados emergentes — China, Rússia e Turquia foram os maiores compradores na última década”, disse o JP Morgan, no estudo.
Enquanto o dólar despencou em 12 meses, o ouro apresentou uma valorização de 75%.
Mesmo com o dólar em queda, a recomendação de compra da moeda para investimento não é unanimidade. A Ágora Investimentos, por exemplo, analisa que o momento não é favorável para apostar na reserva de valor americana. Por outro lado, o ouro é uma das grandes aposta da casa (veja aqui).
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Conde, da Levante, também não recomenda a compra de dólar. “É um momento onde todos estão saindo do dólar. Onde estou comprado e continuo é em Bolsa brasileira, americana, renda fixa brasileira e ouro”, afirma.
Já Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, vê o patamar do dólar abaixo de R$ 5,20 como interessante para investimentos e diversificação.
“O dólar puxa o carro como oportunidade, mas o ouro segue sendo uma reserva de valor real”, afirma. É possível comprar ouro por meio de ETFs (fundos que seguem índices) na B3, como o GOLD11, ou fundos de investimento ligados ao metal. Para Bianca Leite, especialista em investimentos e MBA em Finanças na Faculdade Brasileira de Negócios e Finanças (FBNF), é necessário cautela nesse investimento.
“Historicamente, bancos centrais têm aumentado suas reservas em ouro como forma de diversificação frente ao dólar. Em ciclos de incerteza, ele funciona como hedge de portfólio, mas não é um ativo para concentração. Dentro de uma estratégia sofisticada, pode representar entre 1% a 5% do portfólio, dependendo do perfil do investidor”, afirma Leite.
O fenômeno da desvalorização do dólar não assusta o presidente americano, pelo contrário. Trump já sinalizou simpatia por um dólar mais baixo, pois isto o ajudaria a reindustrializar os Estados Unidos. Ou seja, tornar mais barato para que empresas se instalem e operem em solo americano.
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“Ele quer jogar os juros o mais baixo possível, para ficar barato tomar dinheiro emprestado. Com juros mais baixos, o dólar passa a valer menos – e com as pessoas não confiando em Trump, o dólar acaba valendo menos ainda. E desta forma, a chance de ter novas fábricas nos EUA se torna maior”, diz Conde, da Levante.
Para Ramiro Gomes Ferreira, cofundador Clube do Valor, há um movimento orquestrado. Segundo ele, a queda atual não é um acidente, mas o reflexo de uma política econômica que prioriza a reindustrialização americana por meio de uma moeda mais fraca no cenário global.
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