Nesta sexta-feira (27), o setor de saúde da Bolsa ganhou um novo concorrente. O Bradesco (BBDC3; BBDC4), terceira maior instituição financeira do Brasil, anunciou a criação da Bradsaúde, em uma reorganização societária que concentra seus ativos de saúde na estrutura da Odontoprev (ODPV3), que passará a adotar o novo nome. A operação reorganiza as participações do grupo, incorpora os demais negócios de saúde e transforma a empresa já listada em Bolsa na controladora de um ecossistema que reúne planos, hospitais, clínicas e serviços de diagnóstico.
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No fechamento, as ações preferenciais do Bradesco, BBDC4, encerraram com crescimento 0,91%, a R$ 21,17, enquanto as ordinárias, BBDC3, cessaram com alta 0,88% a R$ 18,41. A Odontoprev (ODPV3) registrou alta de 13,70%, com preço R$ 14,61. No mesmo horário, o Ibovespa fechou em queda de 1,14%, pressionado pelo ambiente macroeconômico. Entre as empresas do setor, a Qualicorp (QUAL3) caiu 13,88%, refletindo o prejuízo do quarto trimestre e a percepção de que enfrentará uma disputada mais integrada e capitalizada.
Mais cedo, às 12h25 (de Brasília), a Odontoprev chegou a saltar 24,59%, renovando máxima em 12 meses e atingindo R$ 16,57, antes de moderar os ganhos. O Bradesco também acelerou na abertura, com BBDC4 tocando R$ 21,72 na máxima intradiária. Na outra ponta, a Qualicorp aprofundou as perdas e chegou à mínima de R$ 1,83, refletindo a leitura de que a nova estrutura eleva a competição e consolida a verticalização no setor.
A estrutura escolhida foi a de IPO reverso. IPO é a sigla em inglês para oferta pública inicial de ações, quando uma empresa abre capital e vende papéis ao mercado para captar recursos novos. No modelo reverso, no entanto, não há oferta inicial nem entrada imediata de dinheiro no caixa. Em vez disso, uma empresa que não tinha ações negociadas em Bolsa se une a outra já listada e passa a acessar o mercado por meio dessa companhia aberta. Foi o caminho adotado: a Odontoprev, que já tinha capital aberto, incorpora os negócios de saúde do Bradesco (não contemplados até então) e se transforma na holding Bradsaúde.
Segundo o banco, trata-se do maior IPO reverso já realizado no País, considerando o porte dos ativos envolvidos. O conglomerado nasce com cerca de R$ 52 bilhões em receitas anuais, R$ 3,6 bilhões em lucro líquido e mais de 13 milhões de beneficiários, somando planos de saúde e odontológicos, hospitais, clínicas, diagnóstico e tecnologia. O presidente do banco, Marcelo Noronha, afirmou que analistas já estimam valor de mercado próximo de R$ 50 bilhões para a nova companhia, patamar que a colocaria entre as maiores do setor na América Latina.
Na avaliação do Banco Safra, a combinação tende a ser positiva para o lucro por ação da nova empresa. Pelas estimativas do banco, considerando o lucro consolidado projetado para 2025 e o novo total de ações após a incorporação, o ganho por papel pode ficar cerca de 24% acima do registrado hoje pela Odontoprev de forma isolada. O Safra aponta ainda possibilidade de reavaliação das ações, embora mantenha recomendação neutra.
O Itaú BBA também avaliou a operação como positiva para o Bradesco. Na visão da equipe liderada por Pedro Leduc, a consolidação dos negócios de saúde sob a Bradsaúde pode gerar benefícios de capital e melhorar a percepção de valor desses ativos pelo mercado.
Pelas estimativas do banco, se a nova companhia negociar entre 10 e 12 vezes o lucro projetado para 2026, acima das cerca de 7,6 vezes do Bradesco consolidado, o potencial de acréscimo ao valor de mercado seria equivalente a R$ 0,80 a R$ 1,50 por ação preferencial, um aumento estimado entre 4% e 7%.
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O BBA observa ainda que os ativos de saúde do banco estão registrados em cerca de R$ 15,5 bilhões no balanço, enquanto a operação pode implicar uma avaliação próxima de R$ 30 bilhões. Para os analistas, a criação de uma companhia autônoma abre espaço para futuras operações corporativas que possam gerar capital adicional. O banco reiterou recomendação de compra para Bradesco, considerado sua principal aposta entre os bancos brasileiros, com preço-alvo de R$ 22.
Do ponto de vista regulatório, o Bradesco destacou potencial impacto favorável sobre o índice de Basileia, indicador que mede a relação entre o capital próprio do banco e os ativos ponderados por risco, usado como parâmetro de solidez financeira. A conclusão da operação depende de aprovações societárias e de órgãos reguladores.
No setor, o movimento aprofunda a verticalização do grupo ao reunir plano, hospital, diagnóstico e atenção primária sob a mesma estrutura. Empresas como Hapvida (HAPV3) e Rede D’Or São Luiz (RDOR3) passam a ser monitoradas com maior atenção pelo mercado diante da nova escala do concorrente.
A reorganização também representa um passo no processo de simplificação do grupo, dentro do plano de transformação conduzido pelo banco desde 2024. Na avaliação de analistas, a nova estrutura tende a aumentar a transparência sobre o desempenho do braço de saúde, cujos resultados ficavam diluídos no balanço consolidado.
A companhia resultante reunirá Bradesco Saúde, Odontoprev, Mediservice, Orizon e a participação na Atlântica Hospitais, com cerca de 3,6 mil leitos e 35 clínicas. Após a operação, o Bradesco ficará com aproximadamente 91,35% do capital, enquanto os acionistas minoritários da Odontoprev terão 8,65%.
Para investidores, a nova empresa passa a representar uma plataforma mais ampla de saúde listada em Bolsa, substituindo a exposição anterior restrita ao segmento odontológico.
Como o Bradesco ficará com mais de 90% do capital da Bradsaúde, a companhia deverá realizar, em momento posterior, uma oferta subsequente de ações para ampliar o percentual de papéis em circulação, conforme exigem as regras do Novo Mercado. Até lá, a movimentação das ações indica que o mercado já começou a precificar o novo desenho do braço de saúde do banco.
Com informações de Cecília Mayrink, André Marinho e Altamiro Silva Junior, da Broadcast.