Com uso de inteligência artificial (IA) e maior cruzamento de dados, a Receita consegue detectar inconsistências de forma rápida e automática. Hoje o órgão vê praticamente de tudo: dados de bancos, corretoras, cartórios, administradoras de fundos, planos de previdência e fintechs.
Como mostramos aqui, a tendência é que, a cada ano, a declaração pré-preenchida fique mais completa. O documento inicia com diversos campos já preenchidos, a partir de declarações dos anos anteriores, do carnê-leão e de declarações de terceiros, como fontes pagadoras, imobiliárias ou serviços médicos.
A maior fiscalização atinge todos os perfis de contribuintes. Quem aplica em criptoativos, por exemplo, muitas vezes acredita que a Receita não tem como rastrear transações em corretoras estrangeiras. No entanto, diversas plataformas já repassam dados ao Brasil ou estão sujeitas a acordos de cooperação.
O mesmo vale para quem mantém empresa offshore (fora do País) ou trust (sociedade com jurisdição internacional para proteção e planejamento patrimonial) no exterior.
Profissionais liberais e autônomos também entram no radar. A versão digital do Carnê-Leão facilita a apuração mensal de rendimentos recebidos de pessoas físicas ou do exterior. Se o contribuinte ignora a obrigação, o Fisco terá cada vez mais condições de comparar movimentações financeiras com os valores declarados.
A Receita também está atenta às fintechs. No último ano, a Instrução Normativa nº 2.278/2025 colocou essas instituições sob as mesmas regras dos bancos tradicionais. Elas são obrigadas agora a repassar ao Fisco informações de operações financeiras que superem R$ 2 mil por mês no caso da pessoa física e R$ 6 mil para pessoa jurídica. Esses dados são informados por meio de um documento chamado E-financeira.
Mas vale uma observação: a nova regra não determina a tributação do Pix, como sugerem notícias falsas em circulação na internet. Em sua coluna no Estadão, Maria Carolina Gontijo, a Duquesa de Tax, explicou que ainda não existe um imposto sobre o meio de pagamento. O que existe é uma maior na fiscalização por parte da Receita.
“O monitoramento se torna cada vez mais inteligente e integrado. A Receita está fazendo o trabalho dela”, diz. “O que mudou não é taxar o Pix, é o cerco ficando mais fechado”, acrescenta.
A colunista faz uma analogia com o monitoramento de ruas por câmeras de segurança: agora é como se a Receita passasse a vigiar uma nova via.
O grande ponto de atenção da Receita
Nesta matéria, explicamos o ponto que mais chama a atenção do Fisco: o descompasso entre o volume de rendimentos declarados pelo contribuinte e a evolução de seu patrimônio em um mesmo período.
Esse costuma ser o primeiro ponto analisado pela Receita, a partir de uma premissa simples: se o patrimônio de um contribuinte cresceu determinado montante, é esperado que ele tenha recebido recursos compatíveis com esse aumento, ainda que esses valores não tenham sido obtidos integralmente no mesmo ano.
A dica principal consiste em manter a coerência e proporção, não apenas para o ano em curso, mas também em relação ao que já foi informado nas declarações anteriores. A ocultação de recursos no IR, especialmente no médio e longo prazo, tende a gerar consequências negativas e uma cadeia de informações inconsistentes.