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Investimentos

20 fundos de crédito privado renderam apenas 28,4% do CDI no 1º trimestre — em um deles a cota caiu

Classe de fundos foi a que mais sofreu dentro da renda fixa em função da forte aversão ao risco no mercado

Por Marília Almeida

22/04/2026 | 5:30 Atualização: 22/04/2026 | 10:55

Gráfico: fundos Duração Livre Crédito Livre são quase a totalidade dos piores desempenhos do trimestre (Foto: Adobe Stock)
Gráfico: fundos Duração Livre Crédito Livre são quase a totalidade dos piores desempenhos do trimestre (Foto: Adobe Stock)

Em geral, os fundos de renda fixa costumam pagar um pouco menos do que o CDI, já que incidem sobre eles taxas de administração. Mas no 1º trimestre deste ano, 20 fundos ficaram muito abaixo disso: tiveram de cota negativa a rendimento de até 28,4%do CDI. O desempenho deles foi afetado por um ambiente de forte aversão ao risco, impulsionado por crise na Braskem e Ambipar no final do ano passado, recuperações extrajudiciais de grandes empresas, como Raízen e Grupo Pão de Açúcar, além do início de um conflito entre Estados Unidos e Irã.

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Já 59 fundos renderam entre 28,4% e 50% do CDI, enquanto 112 renderam até 70% do CDI. Por fim, 505 renderam entre 70% e 99% do CDI, segundo um levantamento feito pelo professor do Centro de Estudos em Finanças (FGV-Cef), Ricardo Rochman, com base em dados da Economatica. A amostra inclui 849 fundos de crédito privado voltados para investidores de varejo. Ou seja, somente 153 (18%) ficaram acima do CDI.

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O único fundo com cota negativa é o Ecossistema, da JGP. Alexandre Muller, sócio e gestor responsável pelos fundos de crédito privado da gestora, aponta que o produto tem particularidades. O fundo possui carência de 360 dias para resgate. Portanto, a JGP não espera saídas relevantes nos períodos de ajuste do ciclo de crédito.

“O fundo é o high yield (alto risco) da casa, com maior exposição aos movimentos de ajustes de spreads (prêmios de risco). Desde que foi lançado, seu retorno é superior a CDI+3%: são 14 trimestres de retornos acima do CDI e dois trimestres abaixo do CDI, incluindo o 1º trimestre de 2026.”

Os fundos de crédito privado sofreram mais do que outros tipos de fundos de renda fixa. Enquanto entre 31 de dezembro de 2025 e 26 de março de 2026 os fundos que não se enquadram como crédito privado tiveram retorno médio de 2,59%, os fundos de crédito privado renderam 2,09% do CDI. O CDI rendeu 3,24% durante o período. Ou seja, enquanto os fundos de renda fixa fora da classe de crédito privado renderam 80% do CDI, os de crédito privado geraram retornos médios de 64,5% do CDI. Foram analisados 2.150 fundos.

Em teoria, os fundos de crédito privado deveriam render mais do que o CDI por assumirem mais risco, mas isso não é garantido e nem constante. Em momentos de estresse, com abertura de prêmios de risco (spreads), eventos de crédito ou oscilações de mercado, podem ficar abaixo do índice de referência ou até registrar perdas no curto prazo.

Quase a totalidade dos 20 fundos que tiveram o pior desempenho da classe de ativos são do tipo Duração Livre Crédito Livre. Ou seja, o fundo tem liberdade para ajustar exposição ao risco de taxa de juros e pode investir sem restrição relevante na qualidade de crédito dos emissores. Isso inclui: títulos de empresas (debêntures, CRIs, CRAs, etc.), papéis de emissores com maior risco (high yield) e menor obrigação de concentração em títulos públicos ou de baixo risco.

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Fundos que distribuem dividendos foram ajustados pelos proventos distribuídos. Não foram considerados fundos do tipo master, que não são abertos diretamente para investidores, e nem estratégias puramente de juros e inflação, que acabam não capturando o risco atual do mercado.

Muitos dos fundos da lista são de debêntures incentivadas, que no ano passado tiveram um bom desempenho por conta da alta demanda pelos títulos com benefícios fiscais. Algumas emissões chegaram a pagar taxas de 6%, menores do que títulos do Tesouro IPCA, quando normalmente é cobrado um valor a mais pelos títulos para correr o risco da empresa. Em um momento de reversão do cenário, é esperado que haja uma reversão parcial desse cenário, diz o gestor de uma grande asset que não quis se identificar.

Com um cenário de preocupação sobre crédito, os fundos começaram a ter resgates e os gestores tiveram de vender títulos com prejuízo, ou seja, com a nova marcação a mercado, mais próxima de 7%. Mesmo que ele tenha vendido apenas R$ 20 milhões de R$ 1 bilhão que tem, a cota do fundo reflete o valor total, e não apenas os R$ 20 milhões.

A Sparta chama atenção para a questão de que fundos de debêntures incentivadas têm a vantagem de isenção do Imposto de Renda (IR).

“Com uma Selic de 15% ao ano e IR de 15%, um investimento tributado precisa render cerca de 2,6 pontos percentuais a mais para entregar o mesmo resultado líquido de um investimento isento. Ou seja: se um fundo isento rende 15% ao ano, um fundo tributado precisaria render aproximadamente 17,6% ao ano para empatar, depois dos impostos”.

O Itaú aponta que seus fundos citados são produtos com exposições aos riscos de crédito e de taxa de juros, sendo que a performance do período é em sua maior parte explicada pelos reflexos da guerra entre EUA e Irã e da elevação abrupta dos preços de petróleo nas expectativas de política monetária. “No início do mês de abril os fundos já vêm apresentação recuperações significativas”, diz a gestora do banco, em nota.

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Leia mais: Após Raízen e GPA: as empresas que mais preocupam o mercado financeiro hoje

Os fundos da Ace Capital combinam dois tipos de risco: risco de mercado (sobretudo juros pré fixados) mais crédito privado (carteira de debêntures de infraestrutura). Segundo a gestora, as perdas em março foram, principalmente, em função das posições em risco de mercado, pois os fundos carregam posições aplicadas em juros locais e houve uma abertura significativa das taxas em razão da guerra e aumento do preço do petróleo.

“Na parcela referente a risco de crédito, houve uma perda menor em razão da abertura dos spreads das debentures de infraestrutura, mas não tínhamos nenhum papel de crédito problemático. Houve uma piora de preço, mas não perda permanente”.

A Trígono diz que seus fundos não realizam troca de indexador e não se utilizam de derivativos nem para encurtar a duration dos títulos. “Não tivemos nenhum problema de crédito na carteira e o desempenho reflete apenas e tão somente a marcação a mercado dos títulos de crédito.”

A gestora Occam aponta que seu fundo Infra Ativo 30 é um fundo híbrido que opera nos segmentos macro e de crédito e não deve ser comparado com um fundo que atua exclusivamente com crédito. “O fundo possui um objetivo de retorno e, consequentemente, um padrão de volatilidade mais elevado que um fundo de renda fixa de crédito privado tradicional”.
Nos primeiros três meses do ano, os principais vetores que explicam a rentabilidade do fundo são as posições aplicadas em juros no brasil que geraram um retorno negativo em função da reprecificação das curvas de juros mundiais com a guerra do Irã. Além disso, houve um ajuste de spreads no mercado de debêntures incentivadas com a formação de um emissões robustas com pouco prêmio que não foram demandadas como esperado, fazendo com que o mercado exigisse um prêmio maior para esses ativos.

Fundos listados em bolsa

Entre os fundos de infraestrutura listados em bolsa, considerando apenas as cotas B3 já ajustada por dividendos, quatro fundos encabeçam a lista dos que tiveram desempenhos ruins no período: o fundo listado da Drys Capital, que perdeu 14,10%, o da Sulamérica Infra CDI, que registrou cota negativa de 13,10%, e o Sparta Infra CDI, que teve perdas de 2,91% no período.

Daniela Gamboa, diretora de Crédito Privado e Imobiliário da SulAmérica Investimentos, comenta que a carteira do fundo segue bastante saudável e diversificada, sem nenhum evento de calote, já que não tinha alocação em Raízen nem GPA:

“Enxergamos o momento como uma boa oportunidade de alocação em um veículo que investe em uma carteira de boa qualidade de crédito, isento de imposto de renda, com este desconto atual da cota”

A Sparta ressalta que o Sparta Infra CDI FIC (na B3: CDII11), ajustado por dividendos, subiu 2,73% no ano até o fechamento de março, considerando também os rendimentos. Ou seja, entregou 80% do CDI, mas está sendo negociado praticamente no valor justo dos ativos.

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