O plano foi protocolado na madrugada desta quarta-feira (11) e conta com a adesão de credores responsáveis por 40% da dívida. Para a homologação do acordo, é necessário o apoio de mais de 50% dos credores. Como mostrou o Estadão, as negociações com os credores devem envolver um pedido de conversão de dívidas em ações em torno de R$ 16 bilhões. Dessa forma, na prática, a Cosan teria a sua participação no negócio diluída e a Shell passaria a controlar a Raízen. Veja os detalhes nesta reportagem.
Com o plano, a companhia passa a ficar protegida para buscar um acordo com os credores pelos próximos 90 dias, preservando o seu caixa. “Uma preocupação primária para os atuais acionistas da Raízen é a potencial diluição, já que as novas ações emitidas poderiam atingir 3-5 vezes sua capitalização de mercado atual”, destaca Enrico Cozzolino, CEO e estrategista de investimentos da Zermatt Partners.
A deterioração financeira da Raízen está relacionada a uma combinação de fatores macroeconômicos. Segundo o plano de recuperação extrajudicial, obtido pelo Broadcast Agro, a alta expressiva da taxa básica de juros que elevou o custo do endividamento financeiro e os ciclos de colheita de menor produtividade foram os principais responsáveis pelo agravamento financeiro da companhia.
A situação resultou no rebaixamento de rating (classificação de risco) nos últimos meses. Na noite de terça-feira (10), a Moody´s Ratings rebaixou a nota de crédito da Raízen de Caa1 para Caa3 em função do elevado nível de endividamento da companhia e da geração persistente de fluxo de caixa negativo. Em novembro do ano passado, a agência já havia rebaixado o rating para Ba1 também por causa da deterioração dos indicadores de crédito da empresa.
Para Pedro Galdi, analista do AGF, a sequência de rebaixamento das notas de crédito dificulta o refinanciamento de dívidas com taxas mais baixas e pressiona a rentabilidade da empresa. “Isso compromete ainda mais a geração operacional de caixa e obstrui qualquer possibilidade de remuneração aos investidores”, afirma Galdi.
Dado o cenário, a situação do investidor pessoa física fica ainda mais delicada. Embora o plano de recuperação extrajudicial vislumbre um equilíbrio financeiro, Flávio Conde, head de renda variável da Levante Investimentos, avalia que a venda dos papéis pode ser a decisão mais adequada para investidores com menor apetite a risco e horizonte de curto prazo. Segundo ele, os desdobramentos do plano de recuperação extrajudicial tendem a pressionar ainda mais os papéis na bolsa de valores, especialmente com a conversão de dívidas em ações e com o aumento de capital dos controladores.
“Cada uma dessas etapas tende a provocar novas quedas no valor dos papéis. Em casos como esse, as ações costumam continuar caindo ao longo do processo de recuperação. Isso aconteceu com a Braskem, com a Oi, com a Gol e também com a Azul”, diz Conde. Já para os investidores com foco no longo prazo manter a posição é uma alternativa a ser considerada diante da possibilidade de recuperação da companhia caso o plano extrajudicial consiga reequilibrar sua estrutura financeira.
Fábio Sobreira, analista e sócio da gestora Rocha Opções de Investimentos, também tem uma análise similar. Para ele, a Raízen ainda registra um faturamento anual superior a R$ 230 bilhões, o que indica ao mercado que o problema está mais associado à estrutura de capital do que à demanda por seus produtos. “Shell e Cosan sinalizam um aporte de R$ 4 bilhões. Ninguém coloca esse volume de capital se não acreditar na viabilidade do negócio após a reestruturação”, afirmao analista.
Por volta das 11h (de Brasília), as ações da Raízen tombaram cerca de 11,5%, a R$ 0,47, sendo a maior queda do Ibovespa. Já no início da tarde, por volta das 13h, os papéis ensaiam recuperação, subindo 3,85%, a R$ 0,54.
Com informações do Broadcast e Estadão*