Desde a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o cenário financeiro ficou mais desafiador. Houve aumento da volatilidade global, refletido pelo VIX, conhecido como índice do medo; alta nos preços do petróleo e achatamento das curvas de juros no Brasil e no exterior (diminuição da diferença entre os juros de curto prazo e longo prazo), pontua David Becker, economista do BofA, em relatório divulgado a clientes. Geralmente, o achatamento indica que o mercado espera crescimento mais fraco ou queda futura dos juros.
Na avaliação do economista, a alta do petróleo decorrente das tensões internacionais é considerada um choque exógeno, ou seja, um fator externo à economia brasileira. Nesse caso, o Banco Central tende a ignorar os efeitos de primeira ordem sobre a inflação, concentrando-se apenas em possíveis impactos indiretos, como repasses mais persistentes para preços e expectativas.
Leia mais: Entenda a situação do petróleo com a guerra no Irã e como afeta todo o mercado
A equipe de macroeconomia da gestora ASA reforça a visão e analisa que ainda que o BC tenda a olhar para a curva de preços da commodity e não apenas para o spot, a elevação recente dos preços amplia os riscos para a inflação doméstica, tanto de forma direta, via combustíveis, quanto indireta, por eventuais efeitos secundários sobre expectativas e preços administrados.
“Em nossa leitura, esse choque deve elevar a projeção do Banco Central para o IPCA, que passaria a se aproximar de 3,6% no terceiro trimestre de 2027, afastando-se do centro da meta. Esse deslocamento, por si só, já reforça a conveniência de um início de ciclo mais parcimonioso”.
Com a redução de 0,25 ponto percentual, a política monetária continuaria bastante restritiva, assinala Becker, do BofA. A taxa real de juros permanecerá acima de 10%, muito acima da estimativa de juros neutros para a economia brasileira, calculada em cerca de 5,5%.
Evolução do cenário
Até agora, os efeitos secundários permanecem relativamente contidos, analisa o Itaú BBA. Além disso, a taxa de câmbio tem resistido bem ao aumento da aversão ao risco, refletindo principalmente o alto diferencial de juros entre EUA e Brasil e a melhora dos termos de troca. A inflação, ainda que com comportamento qualitativo pior do que o esperado nas últimas divulgações, segue em trajetória relativamente benigna.
Mesmo o balanço de riscos tem alguns atenuantes, como medidas tributárias voltadas à mitigação do aumento de preços de combustíveis no mercado doméstico. No que se refere às expectativas de inflação, as projeções da pesquisa Focus seguem relativamente estáveis, ao passo que as medidas embutidas no preço de ativos financeiros subiram de 0,4 ponto percentual a 0,5 ponto percentual.
Comunicado
A opção por 0,25 ponto percentual, na visão dos economistas, permite ao Copom preservar a sinalização de janeiro, iniciando o ciclo de cortes, mas ao mesmo tempo reconhecendo o aumento expressivo da incerteza. Em um ambiente em que ainda não está claro qual será a duração do choque sobre petróleo, ativos globais e prêmio de risco, o início mais moderado permite ao Comitê ganhar tempo para observar os próximos dados e calibrar melhor a extensão dos cortes.
A expectativa, portanto, é que o Copom adote um tom cauteloso na comunicação, evitando sinalizar explicitamente qual será o ritmo de cortes nas próximas reuniões, diz o relatório do BofA. A ênfase deve ser maior em dependência de dados e na necessidade de acompanhar os desdobramentos do cenário externo antes de acelerar o ritmo de cortes, acredita a ASA.
O Itaú BBA acredita que o comitê deve indicar ainda que visa combater os impactos secundários de choques de oferta, que se manifestam de maneira defasada na inflação e que o ritmo e a magnitude do ciclo dependerão disso. Por fim, e mais importante, o Copom deve deixar claro que está pronto para interromper qualquer ajuste da Selic caso os choques se provem mais persistentes ou maiores do que o antecipado.
Previsões para a Selic
Apesar da cautela inicial, economistas ainda veem espaço para um ciclo gradual de cortes. A projeção é que a Selic encerre 2026 em 11,75% e caia para 10,50% ao final de 2027.
Caso o cenário externo se estabilize, o ritmo de redução dos juros pode acelerar para 0,50 ponto percentual por reunião a partir de abril.
Leia mais: Petróleo hoje recua 3,6% com plano de Trump para liberar o Estreito de Ormuz
A ASA mantém, por ora, sua projeção de taxa em 12% ao final do ciclo de cortes, mas ressalta que o balanço de riscos ficou mais desafiador. Se a alta do petróleo se mostrar mais persistente ou se o conflito no Oriente Médio ganhar novas dimensões, a taxa de fim de ciclo poderá acabar sendo mais alta do que a atualmente projetada, conclui.