Na avaliação dos analistas ouvidos pelo E-Investidor, o movimento na primeira quinzena tinha motores bem definidos: fluxo estrangeiro, dólar mais fraco, expectativa de novas reduções da Taxa Selic e melhora do apetite global por risco.
Na segunda quinzena, os ventos viraram. Indefinição sobre a guerra no Oriente Médio, petróleo volátil, Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) acima do esperado. No fim do mês, as decisões sobre juros do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) com tom mais cauteloso e um Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) firme na manutenção dos juros fizeram o índice devolver a maior parte dos ganhos.
“O Ibovespa não perdeu completamente o suporte, mas também não teve força suficiente para renovar máximas com consistência”, diz Lucas Cavalcante, especialista em investimentos e fundador da Gus Consultoria Financeira.
O que ajudou e o que atrapalhou
Do lado positivo, o fluxo estrangeiro segue como o motor do ano. Alexandre Abu-Jamra, CEO da Klooks, empresa de tecnologia voltada à análise financeira, aponta que a expectativa de cessar-fogo no início do mês ajudou a destravar os ativos de risco no mundo todo. O especialista também afirma que os balanços do primeiro trimestre em nomes pesados, especialmente do setor de siderurgia, contribuíram para a alta das cotações no período mais favorável.
Do lado negativo, o executivo aponta três fatores que pesaram na virada do mês: a retomada do conflito com bloqueio do Estreito de Ormuz e disparada do petróleo, a inflação corrente vindo pior do que o esperado, e a piora persistente das projeções no relatório Focus, semana após semana, com índices já bem acima do teto da meta. Ele ainda cita o ruído fiscal-eleitoral começando a aparecer no preço dos ativos.
Segundo os estrategistas, o vetor positivo veio da compressão do prêmio de risco no início do mês, alimentado pela expectativa de flexibilização monetária doméstica e algum alívio externo. A reversão foi provocada pela reprecificação da curva de juros global, ruídos geopolíticos e frustração com balanços corporativos, que reduziram o apetite ao risco e interromperam o movimento técnico de alta.
“Na prática, abril começou como um mês de busca por risco e terminou como um mês de realização de lucros e aumento de cautela”, diz Leonardo Andreoli, especialista em investimentos da Hike Capital.
As maiores altas e baixas de abril
No campo das altas, os destaques foram JHSF (JHSF3), com valorização de 31,71%; Usiminas (USIM5), com 18,17%; Auren Energia (AURE3), com 14,21%; Gerdau (GGBR4), com 13,89%; e Hapvida (HAPV3), com 12,12%.
Empresas ligadas a commodities metálicas, como Usiminas e Gerdau, se beneficiaram de um quadro ainda favorável para o setor e do fluxo estrangeiro. Casos como JHSF e Hapvida foram motivados pela reprecificação de ativos que vinham descontados, com melhora de expectativa operacional. No caso de Auren, a leitura foi de estabilidade de geração de caixa em um período mais incerto.
Cada um desses papéis tinha uma história própria, segundo Abu-Jamra: Hapvida com a continuação do processo de recuperação operacional, Usiminas com alavancagem operacional forte em um trimestre positivo para a siderurgia, Petrobras (PETR4) surfando o ciclo do petróleo enquanto o preço cooperava. “A leitura geral é que o Ibovespa premiou empresas com histórico de qualidade operacional e penalizou setor com descasamento entre múltiplo e cenário macro”, diz o CEO da Klooks.
No campo negativo, os destaques foram Cury (CURY3), com queda de 20,56%; Yduqs (YDUQ3), com queda de 19,70%; Cyrela (CYRE3), com baixa de 17,95%; MRV (MRVE3), com recuo de 15,78%; e Cogna (COGN3), com queda de 14,64%.
O padrão das perdas é mais claro e mais incômodo, segundo Abu-Jamra: educação privada e tecnologia em correção. Yduqs e Totvs (TOTS3) sintetizam isso. O setor de educação enfrenta um trimestre estruturalmente mais difícil, e tecnologia paga o pedágio de qualquer ajuste na curva de juros. “Setores mais sensíveis a juros sofreram mais. Construção civil e educação dependem diretamente de crédito e renda, e acabam sendo penalizadas quando o mercado passa a questionar o ritmo de queda da Selic ou quando o quadro macroeconômico fica mais incerto”, diz Cavalcante.
O que esperar do Ibovespa em maio
Três fatores devem definir o comportamento do Ibovespa em maio. O primeiro é a digestão da decisão do Copom na quarta-feira (29), que entregou corte de 0,25 ponto percentual na Selic, levando a taxa para 14,5% ao ano, com comunicado cauteloso sinalizando incerteza externa. O segundo é o desfecho ou agravamento do conflito no Oriente Médio. O terceiro é o restante da temporada de balanços do primeiro trimestre, com resultados ainda aguardados de Vale, Petrobras e Itaú. “Meu cenário base é de mês lateral, com viés de alta se a leitura da ata do Copom vier mais dovish (inclinada a cortar juros) e algum sinal de des-escalada no Oriente Médio aparecer, e viés de baixa se o petróleo seguir travado alto e o Focus continuar piorando. O fluxo gringo é o que sustenta o índice perto da máxima. Sem ele, nada se segura nesse nível”, diz Abu-Jamra.
Segundo os analistas, o Ibovespa deve continuar mais seletivo e volátil em maio. O índice entra no novo mês tentando entender se a queda recente foi apenas realização de lucros ou se o rali perdeu força. O equilíbrio entre a Selic ainda em queda com Copom cauteloso, o exterior com Fed firme e guerra no Oriente Médio, e a temporada de balanços vai separar empresas com resultado forte daquelas que dependiam apenas do fluxo positivo.
Os estrategistas trabalham com a região dos 190 mil a 200 mil pontos como referência técnica para maio. Casas que cobrem o mercado brasileiro projetam o Ibovespa acima de 200 mil pontos ao longo do ano, com estimativas próximas de 220 mil a 235 mil pontos ao fim de 2026 em leituras mais otimistas. Para o índice voltar a buscar os 200 mil pontos em maio, o mercado precisaria de uma combinação favorável: petróleo sem novo choque, Fed menos firme, Copom mantendo a porta aberta para novos cortes e resultados corporativos fortes.
O que pode atrapalhar é o oposto: inflação resistente, guerra prolongada, petróleo onerando combustíveis, Fed conservador, juros longos subindo e decepções nos balanços. “Maio tende a favorecer empresas de qualidade, setores essenciais, bancos sólidos, energia elétrica, saneamento, concessões, logística e infraestrutura básica. Já empresas muito alavancadas, dependentes de juros menores ou com balanços fracos podem seguir sob pressão”, diz Andreoli. “Não necessariamente um mês negativo, mas um mês em que o Ibovespa depende mais do fluxo e do quadro externo do que apenas dos fundamentos locais”, complementa Cavalcante.
Empresas que podem enfrentar turbulências em maio
Os papéis mais vulneráveis em maio concentram-se em setores com endividamento elevado, sensibilidade a juros altos e exposição a commodities com preços em movimento, segundo Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos. A Petrobras tende a oscilar com o reajuste do querosene de aviação que entra em vigor agora, a discussão sobre tributos federais (PIS e Cofins) na gasolina e o ruído de governança em torno da Braskem, mesmo com novo acordo de acionistas com a IG4 já assinado, tudo isso enquanto o petróleo trabalha a favor.
Especialistas afirmam ainda que bancos como Bradesco (BBDC4) e Banco do Brasil (BBAS3) ficam vulneráveis se o ciclo de corte da Selic perder ritmo após o tom cauteloso do Copom. Avaliam que a Azul (AZUL4) ainda está digerindo o processo de reestruturação financeira pós-recuperação judicial nos Estados Unidos (Chapter 11) e precisa mostrar execução. E observam que Suzano e Klabin convivem com o dólar mais fraco trabalhando contra o reajuste de celulose anunciado para maio. Na visão deles, empresas do setor de educação seguem com captação de novos alunos fraca e ondas de revisão de analistas. Construtoras de média e alta renda continuam reféns de uma queda de Selic mais lenta do que o esperado.
“Empresas alavancadas ao ciclo doméstico e dependentes de crédito tendem a sofrer com a reprecificação de juros e deterioração de expectativas, enquanto exportadoras e commodities permanecem expostas à volatilidade externa, o que eleva o risco de compressão de múltiplos e aumenta a necessidade de seleção baseada em balanço e capacidade de execução”, diz Lima.