Os processos simultâneos do Nubank e Revolut ilustram a renovada ambição de neobancos em atravessar as fronteiras americanas, depois de um prolongado período em que os reguladores locais adotaram postura quase proibitiva para provedores de serviços financeiros estrangeiros. Só no ano passado, o Escritório do Controlador da Moeda (OCC), que supervisiona o setor, recebeu 14 solicitações para obtenção de licenças bancárias – quase o mesmo número de pleitos registrados nos quatro anos anteriores.
O movimento reflete uma diretriz mais ampla do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para relaxar o arcabouço regulatório em vários setores da economia. No financeiro, em particular, o Federal Reserve (Fed), banco central dos EUA, vem defendendo a adoção de regras que incentivem a inovação e a evolução tecnológica, uma receita favorável aos bancos digitais que já provaram seus modelos de negócio em outros países.
Um mercado que redefine escala
Nos EUA, há alguns Estados, como Califórnia, Texas e Flórida com Produto Interno Bruto (PIB) maior que o do Brasil inteiro, o que mostra o potencial do mercado de serviços financeiros. “Mesmo uma fatia pequena do mercado dos Estados Unidos seria mais relevante para nós do que qualquer outro país que poderíamos entrar hoje”, disse a cofundadora do Nubank e CEO da nova operação nos EUA, Cristina Junqueira, em um videocast da fintech. “Uma fatia pequena pode tornar esse negócio tão relevante para nós como é o Brasil hoje.”
No Nubank, já presente no México e na Colômbia, a intenção é replicar parte da estratégia que o transformou na maior instituição financeira privada do Brasil em número de clientes. Em janeiro, a fintech recebeu o primeiro aval da OCC para iniciar as operações bancárias completas nos EUA. Agora, espera obter, em até 18 meses, a autorização final de Federal Reserve (Fed) e Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC) para oferecer serviços como contas de depósito, cartões de crédito, empréstimos e custódia de ativos digitais, entre outros.
Junqueira disse que o banco poderia optar por uma licença mais rápida e fácil, mas decidiu optar “pelo padrão ouro” das licenças bancárias, que é uma licença nacional federal. Esse passo permite mais flexibilidade em termos de modelos de negócios e de produtos nos EUA.
Também do Brasil, o Inter buscou e conseguiu uma licença mais restrita, que o concede o direito de estabelecer uma filial bancária em Miami, na Flórida. O banco digital já tinha presença nos EUA desde 2021, quando comprou a fintech Usend, especializada em remessas. Agora, com a nova permissão, será classificado como uma organização bancária estrangeira e poderá oferecer produtos de depósito e crédito a pessoas físicas e jurídicas.
Ao investir na conquista do “sonho americano”, as duas instituições brasileiras precisarão lidar com a concorrência vinda também da Europa. A britânica Revolut contratou o ex-executivo da Visa Cetin Duransoy para o cargo de CEO nos EUA e quer operar em todos os 50 Estados do país. Além dela, o banco digital holandês Bunq também protocolou pedido para uma licença bancária, após ter desistido de uma tentativa anterior, em 2024, por divergências com os reguladores americanos.
As brechas em um mercado saturado
Ciente da competição acirrada, o Nubank planeja mobilizar uma estratégia “disciplinada” em sua empreitada americana. “Vocês vão nos ver atirando para todas as direções, porque é uma jornada um tanto longa e reconhecemos que este é um mercado muito competitivo e sofisticado em certas áreas”, disse o CEO David Vélez, durante teleconferência com analistas. “Mas acreditamos que existem oportunidades para criarmos um negócio significativo em determinadas aéreas”, ressaltou.
Com um amplo cardápio de opções, os EUA tinham uma parcela de 94% de população bancarizada ao final de 2024, de acordo com estimativas do Fed. No entanto, a proporção de pessoas sem acesso a conta bancária era maior entre alguns grupos demográficos, sobretudo baixa renda, negros e hispânicos, grupo aliás alvo do Inter e do Nubank.
Para o líder global de varejo bancário da desenvolvedora de softwares Red Hat, Héctor Arias, o cenário mostra que ainda há espaço para novos atores no setor financeiro americano. “Os EUA são uma mercado muito interessante e rentável para os bancos”, disse, em entrevista à Broadcast. Arias explica que a vasta rede de instituições financeiras está espalhada pelo país, o que cria espaço para significativas melhorias na experiência bancária da população. Os EUA, por exemplo, não dispõe de uma sistema de pagamentos centralizado como o PIX brasileiro. “É um mercado muito fragmentado. Então, há uma enorme oportunidade pela frente para inovadores”, ressalta.