Danielle Teixeira, líder de inovação aberta da Fenasbac, apresenta painel sobre tecnologia, regulação e novos modelos de negócio no São Paulo Inovation Week. | Foto: Igor Markevich - E-investidor.
“Dois de três está bom? No setor financeiro, não.” A frase de Danielle Teixeira, líder de inovação aberta da Fenasbac, sintetizou a principal tese do painel sobre o chamado ‘trilema da inovação’: tecnologia, regulação e modelo de negócio até podem avançar separadamente, mas raramente geram transformação estrutural quando caminham em ritmos diferentes.
Segundo ela, o sistema financeiro vive uma tensão permanente entre essas três forças. A tecnologia acelera expectativas e encurta ciclos de inovação. A regulação impõe limites, segurança e governança. No meio disso, empresas tentam encontrar modelos escaláveis e rentáveis. “Essa interseção normalmente não acontece sozinha”, afirmou. “As forças estão sempre arrastando para lados diferentes e em velocidades diferentes.”
Danielle usou a evolução dos serviços bancários para mostrar como a tecnologia acelera expectativas e muda rapidamente o padrão de experiência do consumidor. “Antigamente, abrir conta significava passar o dia no banco. Hoje é tudo em clique.” Segundo ela, o desafio surge quando instituições tentam conciliar essa velocidade com estruturas rígidas de compliance e escalabilidade, o que muitas vezes “congela” a inovação.
A executiva também alertou para o movimento oposto: modelos tecnológicos que crescem sem preocupação regulatória. Nesse caso, segundo ela, empresas apostam em ganhar escala antes da chegada das regras. “Quando você chega num sistema financeiro regulado, aparecem perguntas que a tecnologia sozinha não resolve”, afirmou, citando desafios ligados a governança, segurança e sigilo bancário.
Na terceira frente do trilema, Danielle apontou iniciativas em que tecnologia e regulação avançam, mas ainda sem um modelo de negócio sustentável. Ela mencionou parte das discussões sobre tokenização e infraestrutura financeira digital. “É muito inovador, muito diferente, mas qual é a real adoção? Qual é a escala que aquilo ganha?”
Pix como exemplo de convergência
Para a executiva, o caso mais emblemático de equilíbrio entre os três pilares é o Pix. “Quando a gente consegue juntar os três vértices de forma eficiente, surgem casos de sucesso.”
Ela destacou que o sistema reuniu padronização tecnológica, coordenação regulatória do Banco Central do Brasil e um modelo de negócio capaz de destravar adoção em massa. “O Pix ser gratuito para pessoa física e gratuito para MEI fez esse modelo virar de uma hora para outra.”
Segundo a líder de inovação, o resultado foi uma escala sem precedentes. “Mais de 80% da população adulta brasileira já usa Pix.” Ela também afirmou que o Brasil se tornou o País mais rápido na adoção de pagamentos instantâneos, superando até mercados que implementaram sistemas semelhantes anos antes, como a China.
O São Paulo Innovation Week (SPIW), maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, entre esta quarta-feira (13) e sexta-feira (15). Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento, estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre outros assuntos.
Danielle também mencionou iniciativas como o piloto do Drex e laboratórios conduzidos pela Fenasbac em parceria com reguladores como Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Segundo ela, mesmo quando projetos não avançam integralmente, os testes deixam legados técnicos e regulatórios importantes para o mercado.
“A regulação tem poder de empurrar a inovação”, afirmou. “Quando o Banco Central ou a CVM sinalizam um caminho, o mercado entende o que pode ser feito, organiza esforços e ganha escala.”